DECLARAÇÃO DE APARTHEID PELO ESTADO DO RIO

Um dos desenhos enviados crianças da Maré à Justiça do Rio.

Imagens. Um avô chora o assassinato do neto que pegou no colo quando nasceu e agora morto pela polícia no Rio. Em menos de cinco dias a polícia carioca matou seis jovens na periferia na sua insana guerra contra as drogas, agora autorizada pelo governador a eliminar suspeitos sem qualquer julgamento. Imagens. Uma jovem protege o filho pequeno com o corpo, mas ela tomba sem vida assassinada pela polícia carioca. Mil e quinhentas crianças da maré fazem cartas e desenhos para a Justiça do Rio pedindo o fim da mortandade nas comunidades. Imagens. O celerado governador do Rio de Janeiro diz que não volta atrás e culpa os “direitos humanos” por proteger bandidos nas matanças nas comunidades. O policial que examinou a mochila do rapaz assassinado não encontrando drogas (apenas sua camisa de clube e tênis), diz como se errasse o alvo: “ele não era nada!”. Imagens. O presidente do Tribunal de Justiça, a quem as mil e quinhentas cartas das crianças foram endereçadas, apenas comenta cinicamente que elas podem ter sido manipuladas pelos traficantes. Imagens. Já é comum juízes implicarem com supostos meios de denúncia e achar que o conteúdo das denúncias não vêm ao caso. Imagens. Estarrecedoras declarações de autoridades – totalmente incompetentes – nos são apresentadas na hora do almoço ou do jantar, nos telejornais de nossos tristes dias, sem que ninguém mais se surpreenda com o cinismo irresponsável exibido sem contraditório por quem se diz jornalista.

No quê nos transformamos enquanto sociedade? Como aceitamos passivamente esses horrores do dia a dia sem reação?

Crianças pedem socorro a autoridades pela violência perto de sua moradia. Uma delas “desenha” o problema para que a autoridade possa ser sensibilizada. Mostra, com olhos assustados de uma criança, a cena que vivencia constantemente: um helicóptero faz um voo rasante perto de sua casa. Inclusive mostra onde está sua casa tão perto do confronto e uma pessoa na janela gritando “fora”, assustada com o barulho da aeronave. A cena que o desenho descreve pelos olhos de uma criança é assustadora: crianças gritam “corre”, um bandido (veja que ela reconhece ter bandido, mas o tiroteio envolve a outros) troca tiros com o policial do helicóptero, mas quem está morta ao lado dele é uma criança vítima de tiros da polícia que atira no bandido em meio à comunidade. O desenho mostra claramente que o tiro que atinge a criança não foi do bandido (que a usava como escudo), mas da polícia, que troca tiros em ambiente impróprio (imaginemos uma cena dessas na zona sul, se é possível imaginar). A criança ainda escreve perto do helicóptero: “isso é errado”. E expressa no cabeçalho explicativo do desenho sua aflição: “eu não gosto de helicóptero porque ele atira pra baixo e as pessoas morrem”. Quer que desenhe? Ela desenhou. Essa ação da polícia é criminosa!

E a resposta do presidente do Tribunal de Justiça a este pedido de socorro?, “elas (as crianças) podem ter sido manipuladas pelos traficantes”. A quantidade de cinismo, canalhice, mau-caratismo, desprezo pelo próximo, atitude fascista e  escrotidão (um palavrão que só se usa quando todos os outros são poucos para descrever um ato) é incomensurável. Uma atitude dessas, sem qualquer contestação por instituições superiores, demonstra que a nossa democracia acabou. Foi esvaziada de sentido. Estamos vivendo numa sociedade adoecida em que o pobre e preto que margeia a cidade em reduto miserável sem presença do estado é um gueto, onde foi apartado um outro diferente que não faz parte da sociedade. Assim o fascismo desnaturaliza o outro para exterminá-lo. A fala desse juiz simboliza todo descaso e concordância com o genocídio que o estado minúsculo está matando homens, mulheres e crianças. O governador autoriza esse massacre. Lembremos ainda que o presidente criticando uma ação correta de policiais que atiraram nas pernas de um morador de rua na Lagoa (tentando detê-lo, após ter cometido um crime, que abordamos aqui) já dissera: “deveriam ter atirado na cabeça” (o morador de rua é um doente mental abandonado pelo estado).

Portanto, estão negando o pretexto da inútil guerra às drogas. Hoje o estado assume que a guerra é de controle à população periférica e foi declarado o apartheid social descarado.

Talvez a constatação do policial que matou o menino que ia para o futebol, confundindo seu tênis com um pacote de drogas seja mais emblemática: “ele não era nada”. Ele não era um traficante que podiam matar autorizados pelo estado, mas também não era “nada” que contasse para a sociedade de homens de “bem”. E o policial apenas fazia o seu trabalho: um pobre fardado que mata pobres sem farda para proteger os ricos.

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desenho: uma das cartas de crianças da Maré pedindo socorro a Justiça.

 

6 comentários em “DECLARAÇÃO DE APARTHEID PELO ESTADO DO RIO

  1. Escrever, desenhar, no papel, foi a melhor idéia que podia ter acontecido, não vai ser efêmero, como msg de zap, etc…. Estes desenhos/mensagens estarão ao vivo e a cores por centenas de anos , para servir de exemplo para outros jovens.
    Como educadora aplaudo e parabenizo esta salvadora idéia.

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  2. Muito bom artigo. A maioria desses policiais despreparados são pretos, assim como muitos oficiais que fazem parte desse genocídio. Esses também moram nas favelas, ou próximo delas. São os carrascos dos seus semelhantes. O conluio entre o tráfico, milícias e comando da PM já é conhecido. Os facínoras sanguinários não estão combatendo, absolutamente, o tráfico de drogas. O combate é contra os “outros traficantes” que querem se estabelecer no local. É sabido que o tráfico-oficial e o contrabando de armas são tolerados pelos governos da ultra-direita fascista, assim como as igrejas malafaicas e afins são aquelas que lavam a grana proveniente das drogas e da contravenção em geral. O carniceiro combate que assistimos todos os dias tem o conluio dos magnatas do tráfico, que não moram na favela e, sim, no asfalto e não sofrem nenhuma pressão da polícia. As milícias participam também e são controladoras dos gatos-net, gatos-luz e a distribuição do de gás de bujão. Dessa forma, o quadrilátero: traficantes, polícia, milícias e igreja fazem parte do poderoso quartel-general que elegem vereadores, deputados estaduais e federais, governadores, senadores, juízes, e, como não poderia faltar, o nosso cocô-nazi presidente e sua família. Que missão mais espinhosa desmontar esse esquemão. Quanto tempo ainda viveremos subjugados por esse sindicato de bandidos sanguinários?

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  3. São os acontecimentos da Cidade Perversa . Os mortos são todos pobres ou pretos ou pobres e pretos . Lamenta-se num telejornal e depois passa-se a outra coisa! Em dois dias seis crianças morreram fuziladas . É isso.

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  4. Nos indignamos, nos entristecemos e até adoecemos, assistindo a barbárie e a bestialidade ganharem o cotidiano sendo regra, naturalizadas nas redes como denúncia ou comédia.
    O país, a cidade e o estado, tendo à frente governantes que desprezam as vidas que se diferem das deles e definem quais as vidas que importam. Seu texto Edmar, é preciso e nomeia o projeto. É mesmo uma DECLARAÇÃO de APARTHEID . Entre as estratégias, a destruição ou fragilização das políticas destinadas a reduzir desigualdades. Governam para a morte.
    Miseravelmente, um número grande dos que têm como mandato e/ou missão a defesa da democracia, parecem só ver ameaça qdo seus interesses corporativos e/ou pessoais correm risco de serem afetados.
    A oposição parece “ bater cabeça”; não conseguimos mais acreditar nas instituições.
    A tal falta de decoro, não se aplica?
    Nós, boa parte da população, atônitos, aprendendo a jogar esse jogo, que parece não ter regras prévias, como vimos acreditando.Estas, dependem do dono da bola, que as modifica, no andamento da partida.

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