COLÔNIA JULIANO MOREIRA: A MILÍCIA, NA SUA PERVERSÃO PERMITIDA, TOMOU O ESPAÇO DA LOUCURA

 

Colônia2
Colônia, dois tempos: um tempo em que a natureza derrotou a arquitetura colonial não preservada. Num segundo tempo, a natureza foi derrotada pela arquitetura da destruição miliciana (com a via Transolímpica em primeiro plano, senha para a invasão total).

Primeiro a loucura foi amordaçada e isolada numa natureza exuberante. Agora, com a loucura liberta, a natureza foi massacrada pela arquitetura da destruição miliciana que toma o espaço da loucura. Contradições em dois tempos. Aqui conto umas estorinhas das quais fui testemunha

Quando comecei a trabalhar na Colônia Juliano Moreira na década de 70, além do abandono em que se encontravam seus moradores, impressionava os números: enormes pavilhões para mais de cem pacientes em camas apertadas, se distribuíam por núcleos masculinos e femininos de grandes proporções. Já não existiam os pavilhões Faixa Azul, que abrigava crianças; e o assustador Egas Muniz, onde foram feitas milhares de psicocirurgias – as lobotomias (mas convivi com vários pacientes lobotomizados que pareciam “zumbis” ambulantes). Além da impressionante área construída, que pareciam cidadelas muradas (que foram deterioradas por irresponsabilidade de várias administrações), a área de proteção ambiental onde se situava a Colônia era gigantesca e conhecida por poucos guias. Sete milhões de metros quadrados – área equivalente ao bairro de Copacabana – com florestas, montanhas inexpugnáveis, lagos, rios e uma represa que anteriormente abastecia os pavilhões. O aqueduto do pavilhão Rodrigues Caldas, que foi um símbolo da pujança de antigamente, já se encontrava desativado.

Conheci pacientes que caçavam animais silvestres para vender na feira de Caxias, caçadores que capturavam suas presas de maneira engenhosa. E acontecia, ás vezes, de alguns pacientes andarilhos se perderem nas suas matas, de quando em vez um ou outro era encontrado já sem vida. O compositor Ernesto Narareth, internado com sífilis cerebral, fugiu do seu pavilhão e foi encontrado morto, com o corpo em estado de decomposição boiando na represa que ainda abastecia a Colônia na época. Não é do meu tempo, mas todos contavam essa morte trágica. Os mais espertos não se arriscavam embrenhar-se nas matas, mais fácil era deambular rumo à Taquara, numa Estrada Rodrigues Caldas ainda pouco habitada.

Mesmo nas remotas épocas de que fui testemunha já havia várias tentativas – muitas, bem sucedidas – de invasão de suas terras por moradores, a começar por funcionários e seus parentes. Ouvi falar de uma comunidade que havia perto da represa, de difícil acesso e que nunca conheci.

Mais tarde, já tendo me mudado da Colônia pro Engenho de Dentro, com a explosão imobiliária do bairro de Curicica – vizinho da Colônia – conheci muitas invasões que aconteceram nas suas terras. Foi se estreitando o espaço dos pacientes. Praticamente Curicica invadiu parte da Colônia, que ainda era muito grande.

Tem uma história de um diretor que combateu as invasões e mandava um trator derrubar algumas casas, depois de conversar sobre a ilegalidade dessas invasões com os moradores. Várias vezes o diretor sustava a derrubada de algumas casas que eram habitadas por idosos e crianças sem terem para onde ir. Depois o diretor descobriu que a velhinha e as crianças eram de aluguel, colocados estrategicamente nas casas a serem derrubadas pelo negociador do empreendimento.

Mas isso ainda era pouca coisa para o fato que acontece  hoje e a gente ainda aceitava os sem tetos procurando local de moradia em terras devolutas que não faziam falta. Lembro que – quando ainda estava lá – tivemos a ideia de fazer uma vila de casas na fronteira, protegendo o entorno (para funcionários e pacientes). O plano era que a própria vila protegeria seu quintal e o espaço a ser preservado além dele. Não sei se funcionaria, pois a ideia não vingou.

Agora o problema é de outra ordem. Primeiro os governos municipal, estadual e federal, modernizando a cidade para as Olimpíadas e seu legado, autorizaram uma via expressa que corta as terras da reserva ambiental da Colônia Juliano Moreira. Foi a senha para que em suas margens a ocupação crescesse assustadoramente.

Outro dia, fui participar de um debate na Colônia e depois quis ir até o pavilhão onde comecei meu trabalho. Fui impedido pela via expressa – a tal Transolímpia. Ela cortou a velha estradinha e isolou o meu antigo pavilhão. Tinha uma pequena passagem por baixo da via para pedestre, mas não pude ir de carro e nem sabia como dar a volta para chegar.

E ontem uma reportagem do Bom Dia Brasil, feita com esmero por meu amigo Chico Regueira, mostrou onde chegamos. Toda a área – antes de proteção ambiental – foi tomada por uma acelerada ocupação imobiliária comandada pela Milícia, nos mesmos moldes da ocupação do Muzema – onde caíram aqueles prédios recentemente. A Milícia constrói, aluga, vende apartamentos e casas, e ainda comercializa gás, TV a cabo e transporte. Na reportagem de Regueira ficamos sabendo do avançado estado da ocupação, quase não restando mais espaço de floresta e rios. Pior, segundo o levantamento feito, aquela área de sete milhões de metros quadrados caminha para ser a maior favela da América Latina, desbancando a liderança da Rocinha.

Os pacientes não se perdem mais na floresta, mas num ambiente dominado pela lei da Milícia que dita sobre a vida e a morte, numa violência assustadora. E com a proteção do estado miliciano que hoje temos nos três níveis de gestão.

A Milícia, na sua perversão permitida, tomou o espaço da loucura. E a natureza perde para a cultura da violência.

Um comentário em “COLÔNIA JULIANO MOREIRA: A MILÍCIA, NA SUA PERVERSÃO PERMITIDA, TOMOU O ESPAÇO DA LOUCURA

  1. Artigo muito denso sobre o drama que se derrama sobre quase toda a nossa cidade, onde a lei do mais forte e a bandidagem imperam. Moradia e Saúde. Dois direitos básicos do cidadão jogados no lixo!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s