OLHOS QUE CONDENAM

olhos que condenam

Encarei, madrugada adentro, a decisão de assistir numa paulada só os quatro episódios de OLHOS QUE CONDENAM, documentário de Ava DuVernay, totalizando quase cinco horas de exibição. Essa decisão extemporânea aconteceu por dois motivos: não tolero seriados (já vão longe os seriados da vesperal de cinema onde o mocinho só se salvava no próximo domingo. Por isso não acompanho novelas. Sou traumatizado); e li uma reportagem com o ator Lázaro Ramos dizendo que assistiu o primeiro episódio e estava buscando coragem para continuar, dado a brutalidade humana com os cinco meninos pela polícia americana. Confesso aqui que depois do primeiro round apanhei tanto que relutei em continuar. Mas, como já disse era uma decisão. Se aliviar for possível, os outros rounds são menos brutais, se se pode diminuir a bestialidade de uma sociedade que trata pretos e pobres com uma violência inumana. Mas também é função da arte dar esses socos no estômago para que possamos acordar para uma realidade que costumamos amenizar sem nos importar com o outro.

Nada de spoiler por aqui. Para os mais informados a série da Netflix é sobre fatos reais que sofreram os cinco garotos do Central Parque, New York, como ficaram conhecidos em 1989, tendo sido acusados e condenados por um estrupo de uma mulher que corria à noite no parque. Garotos de treze a dezesseis anos. Dois negros muito mirrados, um negro muçulmano, outro também mais velho e marrudo como o muçulmano, e um hispano também mais crescido. O caso ficou conhecido nos primeiros anos desse século quando eles foram  absorvidos, já adultos maduros, com a confissão do verdadeiro culpado e agora, mais recentemente, em 1914 já, quando foram indenizados pelo Estado em uma cifra milionária. A fita mostra claramente que nenhum dinheiro do mundo pode pagar uma juventude sequestrada por um erro da justiça. Principalmente se essa indenização foi paga na velhice com a vida inteiramente tomada pelo erro.

Só que também ficamos sabendo que o erro foi fabricado, com a delegacia forjando um inquérito, torturando psicologicamente os garotos e os familiares dos mais pobres, chegando – em alguns casos – à brutal violência física para que os delegados pudessem construir um enredo inverossímil que foi aceito por um promotor e um juiz que buscavam notoriedade (lembram de algo por aqui?) e uma defesa dividida e às vezes incompetente, condições que levaram o júri popular a condenar os garotos. Quatro para cumprirem penas em reformatório de menores de idade e o que já tinha dezesseis – legalmente maior no Estado americano, como querem imitar por aqui – teve uma passagem por várias prisões especiais, longe da família e amargou pena de 14 anos até a confissão do verdadeiro assassino – um serial killer, típico americano, que foi convertido pela fé em Jesus e se penitenciou em revelar seus crime, que incluía o estrupo que condenou os garotos.

O documentário revela ainda que um rico empresário midiático do ramo da construção civil fez uma campanha milionária em jornais e TV para a condenação dos garotos. Ainda magro, mas já com o característico topete amarelo, ele mesmo Donald Trump, que seria o futuro presidente americano. O já protofacista dirigia seu ódio às minorias que persegue hoje em sua cruzada contra hispanos, muçulmanos e negros pobres dos guetos. Mesmo que o Estado já tenha reconhecido a sua culpa, o presidente que contribuiu com o episódio continua na sua luta bestial.

Cabe aqui uma reflexão sobre a lotação de nossos reformatórios e prisões que o atual governo pretende ampliar. Os dois dispositivos estão cheios de pequenos traficantes e aviões do tráfico, enquanto nada acontece a pilotos de helicópteros, donos de fazenda, moradores de condomínio na Barra da Tijuca, políticos quando são pegos em flagrante quase flagrante. Lembrar que o nosso traficante das forças armadas só foi preso em Sevilha.

E aqui, os nossos meninos – se escapam da pena de morte decretada pelo Estado nas incursões policiais ou guerra de quadrilha e no “justiçamento” de milicianos – são presos com culpa ou sem culpa em depósitos inumanos onde são despejados os prisioneiros da guerra às drogas. Verdadeira fábrica de uma guerra violenta para o controle das populações mais pobres. E entre nós quase nunca o erro é reconhecido. Nunca a indenização do Estado chega aos inocentes.

É também função da arte ligar esses pontos. Portanto, estou te convidando para assistir o documentário. É um soco necessário para que vejamos uma realidade que – psicologicamente – queremos amenizar. É da nossa natureza, mas é preciso de raiva para a luta. Nunca o ódio dos fascistas ao outro, mas a raiva dirigida a uma situação apodrecida da nossa sociedade é necessária para um desejo de mudança.

Um comentário em “OLHOS QUE CONDENAM

  1. Vou tomar coragem e ver o documentário! O problema é que agora por mais absurdo que tenha sido o passado estávamos um pouco otimistas pensando que, pouco a pouco, íamos melhorando a humanidade … e descobrimos que, ao contrário , só nos tornamos mais sofisticadamente maus …

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