CONVERSA DE BÊBADO: VEJO AVATARES DA PERVERSÃO

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Confesso que posso me arrepender do que vou escrever agora. Tinha um compromisso de não escrever depois de usar bebidas alcoólicas. Mas sinto que estou no ponto em que o professor Luís Cerqueira dizia que a normalidade humana necessita de duas doses de uísque para expressar sinceridade.

Sinto, e sinto muito mais agora depois de beber, que o bolsanorismo está nos levando a vivenciar a imbecilidade em estado pleno, coisa que a humanidade sempre procurou evitar. Há um projeto de destruir o processo civilizatório. A perversão saiu do armário para se manifestar em um desgoverno com as revelações mais imbecis que a raça humana já pode produzir. Um presidente que é capaz de dizer que oitenta tiros disparados pelo exército no carro de uma família numa tarde de domingo foi um “incidente” e se solidariza com um idiota, que se diz humorista, numa ofensa machista a uma deputada, é um cínico, canalha e um idiota.

E uma multidão de pervertidos que possibilitaram a eleição de um traste desses e que defendem uma atitude cretina são incapazes de pertencerem à espécie humana. Nem são também animais porque animais não possuem atitudes assim. Devem ser avatares de uma nova espécie perversa que se apoderará do planeta. Talvez o prenúncio de uma nova forma de vida desprovida do que pode até aqui conceituar como humanidade. Talvez anunciando o desaparecimento do que Freud conceituou como neuróticos para dar lugar a perversão anunciada por Sade.

O filósofo Dani-Robert Dufour nos assusta: “O ideal sadeano, “ser tirano”, afeta então a maioria e a Cidade torna-se perversa”(…) “A única certeza é que o tempo urge. Será que ainda resta tempo para que os homens mais ou menos normais, se existirem, se decidam finalmente a cercar o homem sadeano num impasse, para impedir que esse homem transforme sua funesta solução na única saída possível?”

A saída do perverso ganhou as eleições. O neurótico, antigo normal freudiano, perdeu. A perversão conquistou os ministérios, a lei – lei do perverso – , impõe o comportamento egoísta, recupera o caráter escravista de uma sociedade doente, e faz a misoginia, a homofobia, o racismo aparecerem como atitudes – agora normatizadoras – perversas comuns e aceitas.

E se a perversão faz sua lei, nada mais natural que a ignorância possa equivaler ao conhecimento. Como Moro nunca passou num concurso da OAB, o novo ministro da educação (minúsculo, por favor) acaba com o concurso da Ordem. O mesmo ministro que substituiu outro imbecil, cinicamente se apropria de um discurso de Hitler e substitui “judeu” por “comunista”, pouco importando se faz sentido o que está dizendo. Vale a fala imbecil. E ecoa. Um chanceler, encarregado de fazer confusão com o mundo todo, afirma que o nazismo é de esquerda e os imbecis – em coro – cantam a nova ladainha em nome da burrice elevada a saber.

Olavo de Carvalho, cuja filosofia é um desespero para atrasar o conhecimento, xinga os que discordam dele e alardeia escatologias sob o aplauso de imbecis juramentados. A mais inofensiva governista nos ameaça com um Jesus fundamentalista trepado em pé de goiaba. O fundamentalismo evangélico nos deu o lema desses tempos absurdos: “brasil acima de tudo; deus acima de todos”. Nem a verdade de João nos libertará de tamanha provocação para uma nação que a antiga constituição dizia ser laica.

Ainda sou um neurótico, que carrega a culpa de que a nação pudesse chegar ao abismo. Os perversos pouco se importam comigo. E empurram a manada – e seus próprios filhos e os meus – para uma velhice em desespero, se sobreviverem à falta de tudo. Nem compreendo o que acontece, com eles e comigo.

Me resta beber mais um gole para suportar a dor de existir num mundo adverso. Nem sei se resta tempo para nós, neuróticos normais, existirem. Vou pegar mais uma cerveja!

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desenho: Dino Alves

citação de Dufour tirada de uma conversa com Patrícia Cavalcanti, de um livro que estamos lendo.

Esse texto foi feito tomando cerveja, realmente. Perdoem a incompreensão possível.

6 comentários em “CONVERSA DE BÊBADO: VEJO AVATARES DA PERVERSÃO

  1. Acho que Gramsci já tinha previsto isto que estamos vivendo. Nos Cadernos do Cárcere ele disse que quando o velho mundo agoniza mas um novo mundo tarda a nascer., neste momento claro-escuro, irrompem os monstros…

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  2. Já eu, caro Edmar Oliveira, costumo escrever degustando vinho. Dizem que In vino veritas. Há pouco criei coragem e chamei o Bozo de Capitão Bunda Suja. Soube que Geisel de dirigia a ele nesses termos. E mais adiante fiquei sabendo que é assim que os milicos em geral se referem àqueles que por falta de talento e inteligência não progridem na hierarquia militar. Bozo saiu como tenente e na saída foi promovido a capitão. Expediente militar para melhorar o soldo do colega que vai vestir pijama. Agora vejam onde o Brasil foi parar governado por um Bunda suja, orientado por um astrólogo estrela suja e assessorado por três filhotes trêfegos. E um bando de ministros aloprados. É o fim da picada.

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  3. Eu tenho uma boa arma contra isso tudo: O negacionismo do negacionismo. A sutentavel leveza de não acreditar em nada do que eles dizem… Não sou obrigada. As palavras tem o peso, o valor que as damos.

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  4. Corrigindo o texto: Eu tenho uma boa arma contra isso tudo: O negacionismo do negacionismo. A sutentável leveza de não acreditar em nada do que eles dizem… Não sou obrigada. As palavras têm o peso, o valor que as damos.

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