A PRISÃO DE LULA UM ANO DEPOIS

LULA PRESO

Somos um país que demora a entender a realidade. Dimensões continentais, desigualdades regionais, desigualdades locais, baixa escolaridade e desinformação propositada contribuem para a realidade demorar a ser percebida. E todos esses fatores podem levar a eleição de uma pessoa despreparada para o cargo, como aconteceu agora. Mas demoradamente a ficha começa a cair.

Há um ano prenderam um ex-presidente acusado de corrupção, muito embora não fossem apresentadas provas concretas, mas convicções condenatórias ampliadas pela mídia. Isso deixou no ar uma culpa de que todos fazem a mesma política e se lambuzam no poder. Ninguém precisa acreditar na inocência de Lula pelo menos na conivência com os malfeitos que de fato aconteceram.

Mas hoje já se começa a duvidar de que um sítio mequetrefe no interior de São Paulo e um apartamento de novo rico no litoral paulista se foram os crimes cometidos – que o acusado nega e que os acusadores não apresentaram provas consistentes – não seriam suficientes para manter preso por todo esse tempo se não fosse Lula o político condenado. Principalmente quando outro ex-presidente – comprovadamente envolvido em corrupção – ficou apenas dois dias na prisão e não se fala mais nisso e a mídia já esqueceu. Fora a quantidade de criminosos que escaparam da prisão com o supremo, com tudo.

O tal acusado completa um ano sem liberdade nem de assistir o enterro do irmão e apenas liberado para comparecer ao funeral do neto. Qualquer outro político estaria em prisão domiciliar, mesmo que tivesse de usar uma tornozeleira. O prisioneiro é um homem de 73 anos. Lula é mantido na polícia federal de Curitiba com restrição de visitas. Um heroico acampamento de lulistas mantém viva a esperança da liberdade do preso. Lá fora, defensores dos direitos humanos fazem crescer a convicção de prisão política de quem foi afastado de concorrer às últimas eleições. Além de ter sido indicado concorrente ao Prêmio Nobel da Paz.

Mais, nesse ano de uma prisão que parece injusta para uma nação que demora a entender a realidade, o juiz que o condenou foi premiado com o cargo de Ministro e almeja ser indicado para o Supremo Tribunal Federal. O tal juiz, que tinha a fama de justiceiro, se vestiu de oportunista parecendo ter vendido a condenação do réu. E no novo cargo, o outrora super-herói da lei e da ordem se mostra um bobo da corte obedecendo a um presidente desastrado que já confessou a inabilidade para o cargo.

Claro que desse despertar para a realidade da nação são excluídos os convictos fascistas da classe média que tentam sustentar um governo que já não tem forças para se sustentar. O reino da ignorância libertou a estupidez para disputar espaço com o conhecimento. Entretanto, o fundamentalismo estúpido de uma Damares, o revisionismo idiota de um Ernesto, a boçalidade de um ministro da educação ou a inabilidade de um Guedes e do próprio presidente já incomoda até os militares que são a espinha dorsal de sustentação de Bolsonaro para apoiar um reforma que a elite acha necessária (para maior exploração do capital). E isso pode por a perder um governo que mal começa.

Manter o Lula preso todo esse tempo talvez tenha sido um erro para um judiciário que faz política. Mesmo demorando, o país pode está começando a perceber que alguma coisa está fora de ordem. As manifestações de hoje podem apontar para essa percepção. E o país piorou muito com o desemprego recorde, a perda de direitos trabalhistas, a suspeita de que a reforma da previdência posa de tigrão para os menos favorecidos e é uma tchutchuquinha para os privilegiados. Guedes aceitou a provocação que esclareceu mais a população do que tratados políticos e econômicos. O bonde do Tigrão pode ter saído dos trilhos.

Por falta de opções na política talvez o “Lula Livre” volte a incomodar, como diz a canção do poeta. Os militares também estão incomodados com a possível volta do Lula. Com todos os perigos que nos rondam temos que ir às ruas. A situação de confronto não escolhe o momento de eclodir. Ela é convocada.

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desenho: Dino Alves

 

3 comentários em “A PRISÃO DE LULA UM ANO DEPOIS

  1. Concordo inteiramente! Que falta faz neste momento um jornalismo de resistência como tínhamos na época da ditadura … um jornal Movimento , um Mauricio Azedo, só pra lembrar sem excluir outros que pudessem deixar mais transparente e incisiva esta retomada do poder pelos militares … há que sair do silêncio , do riso e do queixume …

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  2. Muito bom comentário. Como queriam os “delimitadores”, tá dominado, tá tudo dominado, a começar por um judiciário enlameado, que se ajoelha e lambe as botas dos milicos patifes! Sem povo nas ruas pra desconstruir esse castelo vai demorar mais! Muito mais. O castelo dos fascistas não é de cartas de baralho não, que só com um sopro ele cai. É muito mais sólido. E, mesmo parecendo que o bozo vai cair de maduro, despencando nas pesquisas, vai ser difícil impedir que a milicada tome o poder. De novo! Aliás, esses vermes fascistas já estão encastelados no poder. Pra largar o osso vai ser muito difícil. Lula ainda é a esperança para se repavimentar a estrada da democracia. Toda esperança de tempos menos sombrios passa por ele. Claro, precisamos de alianças para derrotar esse regime de exceção que estamos vivendo, apesar de sermos obrigados a admitir que o coiso ganhou nas urnas. Venceu mesmo com a fraude das fake-news que não foram sequer admitidas pelos porcos togados. Ir para as ruas exigindo sua liberdade é mais do que um dever cívico, é um primeiro e importantíssimo momento para se reconstruir a democracia no Brasil. Por isso o mantêm preso. Por isso o acham tão perigoso. Canalhas!

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  3. Mon cher,

    Concordo em gênero, número e grau, com o que você escreveu.

    Mas, depois do li hoje, com o Mourão dizendo que os militares

    serão responsabilizados pelo fracasso do governo Bolsonaro,

    fiquei convencido que, breve, eles (os militares) assumirão

    de verdade o poder. E aí, mon cher, será o que Deus quiser.

    Mais uma longa noite de duas décadas ou uma passagem brevíssima

    pelo Planalto? Como reagirá nossa elite? Sem dúvida, dando apoio aos

    militares. Nos vejo em mato sem cachorro. Sem maiores perspectivas.

    abraços,

    nacifelias

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