LEMBRANÇAS DE UM PASSADO DORIDO

 

ditaduramilitar_baixa_arquivo

O nosso tempo de vida na terra é tão pouco, mas alguns anos atrás ou à frente pode fazer diferenças fundamentais. O lugar geográfico também.

Não tinha idade ainda para compreender inteiramente o golpe de 64. Antes me ocupava com uma corrida espacial nos céus de uma cidade do interior. Achar satélites atravessando um céu estrelado e descobrir se eram russos ou americanos nos divertia desde que Gagarin disse que a Terra era azul. Um tio que ouvia a Rádio Central de Moscou, no seu potente rádio de ondas curtas e médias, me informava das missões de cada lado e o nome de sondas e satélites que percorriam um céu nordestino quando o sol se escondia. E eu torcia pelos russos.

Aquele meu tio também me disse que uns barbudos tomaram de volta uma ilha do Caribe ocupada por americanos. Foi ele quem me falou do assassinato de Kennedy e tentou me explicar quem eram Jânio, Jango e Lott um pouco antes. Meu tio usava uma espada na lapela, mas eu cantarolava a música da vassoura que minha tia gostava de ouvir no rádio. Achei que Jânio caiu porque proibiu briga de galos, biquínis de duas peças e gostava de escrever bilhetes.

Quando derrubaram Jango eu já tinha ido para a capital e não tinha mais o meu tio para explicar o que estava acontecendo. A comoção que tomou conta do país na morte de Edson Luiz me fez odiar os militares. O fechamento do regime me colocou na companhia de opositores ao golpe, entendendo agora as responsabilidades dos adultos.

Com os americanos pisando na lua e a execução de Carlos Marighella, entendi que perdia a menoridade e os sonhos juvenis. O mundo era escuro. Os anos de chumbo pesados. Parecia que o cheiro da morte, nos porões da ditadura, inundava minhas narinas e minha revolta crescia. Ficava adulto num mundo sem liberdade e com jovens em sacrifícios para forçar uma luz no fim do túnel. Mesmo numa capital atrasada e conservadora do nordeste do Brasil, até muito longe do que acontecia não me sentia protegido, mas impedido de participar da escolha do destino da nação. Como se estivesse à margem.

Nos anos de sequestros de embaixadores comemorávamos lá longe a liberdade de presos políticos. Mas o regime piorava a repressão e aquilo nos angustiava. Fizemos uma resistência cultural anarquista na capital provinciana. A trincheira cultural foi nossa forma de luta cortando com as palavras e imagens a carne de uma burguesia bovina. Foi quando o poeta triste nos ensinou que no matadouro quem berra é o homem, mesmo que seja o boi.

Quando Allende caiu, num 11 de setembro que nos marcou a ferro e fogo, o poeta triste já tinha partido no novembro anterior. Ficou mais escuro enxergar longe ou perto.

Chego ao Rio, “a cidade que plantei pra mim”, depois do golpe na Argentina. Mas esse muito escuro foi clareando algum tempo depois na lei da anistia. No afã da volta dos nossos exilados e do irmão do Henfil aceitamos um projeto apoiado pelos militares. Para se protegerem das atrocidades cometidas aceitavam a anistia se ela fosse recíproca. Isto é, anistiava os perseguidos pelo regime e na mesma canoa dava carona aos perseguidores. Como se fosse possível acertar contas de uma guerra com o jeitinho brasileiro. Torturadores e assassinos dormiram o sono dos justos sobre as ossadas escondidas de desaparecidos políticos enterrados em cova rasa.

Quando a ditadura ia enfraquecendo, entrei para núcleo de base de um partido de trabalhadores em construção. Nas “Diretas Já” estava eu na multidão da Presidente Vargas ouvindo as lideranças democráticas no palanque da Candelária.

Sou testemunha, mesmo tendo visto tudo de longe, que a democracia foi arrancada no sacrifício dos que morreram e foram torturados pelo regime. E não desejo para ninguém uma juventude marcada pela desesperança dos pesados anos de chumbo de uma ditadura assassina, sanguinolenta e cruel. Sabíamos que estávamos do lado certo da história, mas não imaginávamos quando a luz apareceria no fim do túnel. Isso é desesperador. E muito dolorido.

A conquista da democracia nos encheu de esperança de que o passado ficara pra trás, para sempre. Nunca imaginei que viveria para ver o retorno de um reprimido que nunca foi sufocado como a minha geração pensou. Muita gente desejando o retorno daqueles anos terríveis e um presidente propondo que se comemore a data do golpe fatídico nos quarteis, mesmo contra a lei. E que incautos civis que votaram na extrema-direita aplaudem. A democracia não pode permitir a comemoração de sua morte.

Hoje visto o luto por essa infausta comemoração extemporânea. Só a construção de uma sociedade perversa pode desejar o retorno de um tempo sem liberdade. A não punição dos algozes da ditadura, nem a punição dos apologistas do golpe e de seus assassinos nos levaram à situação em que nos encontramos. Se não resistirmos a esse mal-estar do processo civilizatório poderá ser tarde demais para impedirmos um futuro sombrio.

RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA. DITADURA NUNCA MAIS!

______________________

foto: Evandro Teixeira

 

3 comentários em “LEMBRANÇAS DE UM PASSADO DORIDO

  1. Um relato pessoal forte e contagiante
    Iremos resistir e reverter essa realidade atual juntos nas lutas e mobilizações em defesa da democracia e das liberdades democráticas
    Ditadura nunca mais

    Curtir

  2. Caro Edmar
    Seu texto diz tudo . Belo , profundo e delicado, me trazendo de volta àqueles instantes de medo e de angústia . Nós éramos tão jovens quando a violência, a brutalidade e o horror passaram a fazer parte das nossas vidas … e agora que já não somos jovens , como suportar tanta obscenidade ???

    Curtir

  3. Prezado Edmar, essencialmente humano o seu relato. Eu vivi de perto o golpe e a vã esperança das reformas de base. Hoje, surpreso com um retrocesso brutal e que não supunha tão grande. Só nos resta a opção de resistir sempre, e assim será!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s