PASTOR CLÁUDIO: NA NOSSA BANALIDADE DO MAL O CINISMO DA IMPUNIDADE TAMBÉM É BANAL

Pastor Cláudio

O julgamento de Eichmann por um tribunal de Israel, em 1961, teve cobertura dos grandes meios de comunicação. Hannah Arendt, filósofa judia, numa séria de reportagem para a revista americana The New Yorker levanta uma polêmica tese de que o mal poderia ser exercido por um cidadão comum. Segundo suas palavras, Eichmann não era “pervertido ou sádico”, mas “terrivelmente normal”. A monstruosidade tinha sido feita com a ausência do monstro, por um cidadão cumpridor de deveres nunca questionados. A tese foi defendida em seu livro famoso “A Banalidade do Mal”.

Mas enquanto não assumia sua responsabilidade, Eichmann estava sendo julgado, depois de ter sido capturado na Argentina pelo serviço secreto israelense. Mesmo atônito com o aparato de julgamento e jurando inocência, havia uma declarada culpa dos olhares do mundo para os atos de que não se sentia culpado. Ele apenas cumpria ordens de possíveis culpados.

No caso do Pastor Cláudio (filme de Beth Formaggini em cartaz) não acontece assim. Ele não é culpado e não existem possíveis culpados. O filme é uma confissão do ex-delegado de polícia Cláudio Guerra de atrocidades cometidas por ele a serviço do regime militar. Cláudio conta como começou sua relação com o regime sendo “executor” – matador de encomenda de pessoas que não conhecia – passando a incinerador de mortos por tortura num forno de uma fazenda em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Apesar de assassino confesso, Cláudio foi protegido pela injusta lei de anistia e nunca respondeu sequer a processos. Descreve sua participação como uma missão e fica evidente a convicção de que não fez qualquer coisa errada aos olhos da sociedade, nem ninguém também fez por ele. Não tem o que se desculpar. Hoje, como pastor que segura uma Bíblia inseparável na mão, diz servir a Deus, quando antes servia aos militares traduzidos na pessoa do Coronel Feddie Perdigão – seu chefe imediato, acusado de ser responsável pela Casa da Morte em Petrópolis, onde foram torturados e assassinados vários oponentes do regime. Ficamos sabendo que o Pastor Cláudio incinerava esses corpos em Campos numa fazenda de proprietário de um financiador do regime.

O que salta aos olhos de uma plateia estupefata e tensa é que o cinismo da impunidade garante a confissão do assassino. Não nos convence de sua fé em Jesus nem de sua conversão. A Bíblia é apenas um atestado de sua lealdade aos senhores terrenos. Em apenas um momento cita a conversão de Saulo em Paulo, como se expiasse culpas, mas mais uma vez não convence. É simplório, convicto de sua missão em defesa do regime e não mostra arrependimento algum E para além de não achar que fez algo errado, a sociedade nunca lhe disse que fez. São apenas lados em conflitos e o Pastor se acha do lado certo, agora escorado pela Bíblia. Sabe apenas que rompeu com o que chama de “irmandade” por que não aceitou sair do país com outra identidade.

E a nossa versão da banalidade do mal, em seu cinismo pela impunidade, confessa que o aparelho repressor continuou servindo aos bicheiros, nas polícias e nas milícias. Confessa que ele saiu, mas a engrenagem a que pertencia continua até os dias de hoje.

Já muito velho e sem lembrar nomes importantes, o Pastor Cláudio confessa também que não sabe por que o filme está sendo feito e assina a autorização de sua fala como se nada de ruim tivesse contado durante toda a exibição do filme. Tudo muito banal. Cínico pela impunidade que se construiu para que chegássemos aos dias atuais.

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Obs. 1 – Embora o entrevistador Eduardo Passos, psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, seja necessário para desenrolar o fio da meada, em alguns momentos atrapalha o raciocínio do entrevistado em prejuízo do que poderia ter sido revelado. Entendemos a dificuldade de montagem por ter sido todo filmado em uma tarde, sem possibilidade de refazer cenas.

Obs. 2 – Não deixe de entender por que você deva evitar o Angu do Gomes.

Ilustração tirada do cartaz do filme, justo o momento em que o Pastor Cláudio executa um preso torturado e já agonizante.

 

3 comentários em “PASTOR CLÁUDIO: NA NOSSA BANALIDADE DO MAL O CINISMO DA IMPUNIDADE TAMBÉM É BANAL

  1. Mon cher,

    Não é a primeira vez da confissão do “pastor” Cláudio Guerra. Teve um filme anterior,

    cujo título não me lembro. Memória etílica é foda, mas, vamos lá. Ele já escreveu um

    livro descrevendo seus horrores. Na usina campista dos fornos crematórios, a minha surpresa. Segundo

    os coleguinhas da época, pertencia a um Gaioso. O nome te lembra alguém? Não consegui

    confirmar essa informação. Mas, Gaioso é nosso velho conhecido. Mon cher, estaremos

    sempre à merce de um velho crápula? Até quando?

    Nos veremos por aí. Até sexta. Jurassi Magalhaes não pensou em ser tão profético

    quando disse que “o que é bom para os EUA é bom para o brasil”. Te lembras deste baiano

    ministro das relações exteriores de Castelo Branco?

    Bom artigo.

    Curtir

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