OS MILITARES USARAM UM CAVALO DE TROIA PARA VOLTAR AO GOVERNO

CAVALO DE TROIA

Creio que o fenômeno Bolsonaro simulou ter um projeto de direita assustador quando conquistou a eleição de forma avassaladora na reta final. Tendo ficado demonstrado depois possuir uma extensa rede de notícias fantasiosas competente – concebida à semelhança do fenômeno que elegeu Trump – parecia um projeto articulado para exercer o poder.

O fenômeno eleitoral que criou um “mito” para a massa, que atendeu ao seu apelo fascista, deu a impressão a muitos observadores – confesso que a mim também – que havia um projeto na associação do neoliberalismo predador de Guedes com o conservadorismo exacerbado do pensamento de extrema direita para um governo minimamente competente na sua execução. Parecia que, na tentativa de estabelecer um governo forte, Bolsonaro se cercava de antigos companheiros de farda. Inclusive o vice-presidente que se tornou um incômodo desde a posse.

Era um fenômeno percebido falsamente. Só muito recentemente foi revelado que o próprio ex-ministro Vilas-Boas, ainda na ativa, tramava com companheiros de farda a eleição de Bolsonaro por ser o único candidato com viabilidade ainda antes de parecer ter. Visão política do milico que não deve ser relevada.

Hoje, apenas depois de 45 dias de governo, o que se vê é que a família Bolsonaro, tendo sido competente no fenômeno eleitoral, não tem a mínima competência para exercer a presidência da república. E os militares que tramaram sua eleição estão incomodados com os shows de incompetência do presidente e seus filhos (nem consegue governar sem a interferência desastrosa dos meninos), deixando-se enredar em casos de corrupção e envolvimentos suspeitos de ter relações com a milícia. Agora estoura outro escândalo: o partido que elegeu o presidente está envolvido em uso indevido das verbas públicas de campanha. E o presidente bate boca com o subordinado, o subordinado ameaça o presidente. Desastre evitável a uma mínima intimidade com o cargo, que ele não demonstra.

O problema é que Bolsonaro mete os pés pelas mãos, incapaz de lidar com qualquer crise (diferente da competência de um Temer) e colocando todo o governo em exposições vexatórias. Mourão tem expressado a insatisfação dos militares em posições contrárias ao comportamento do presidente. Tem feito um aceno até para as esquerdas mostrando-se tolerante com questões que agradam à oposição. A Globo parece decidida a ajudar os militares se livrarem do estorvo e reforça a nova imagem de Mourão, antes um intolerante e autoritário candidato.

Apenas um lobo na pele de cordeiro.

Cada dia fica mais claro que os militares usaram o fenômeno eleitoral de Bolsonaro para voltar ao poder que abandonaram há pouco mais de 30 anos. E ainda pode ser percebido que os militares de hoje são a continuidade dos que não queriam sair, não dos que aceitaram deixar o poder. Não têm o nacionalismo e a vertente desenvolvimentista daqueles. Defender a figura execrável de Brilhante Ustra e negar os atos terroristas de Estado mostra uma vertente autoritária perdida já no fim da ditadura. E esse autoritarismo tem uma submissão ao capitalismo internacional e aos donos do mundo. Com ou sem Bolsonaro, com Guedes ou sem Guedes. Afinal sempre se pode chamar o Meireles ou outro leiloeiro de nossas riquezas.

O que se pode antever nesse momento é que Bolsonaro foi usado como um cavalo de Troia pelos militares para voltarem ao poder. Mas como o cavalo empanca mais que um burro teimoso talvez já seja a hora de desmanchar a embalagem do presente. Ou tutelar o burro para levar adiante a proposta autoritária, viabilizando o plano predatório do neoliberalismo.

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desenho: Gervásio

2 comentários em “OS MILITARES USARAM UM CAVALO DE TROIA PARA VOLTAR AO GOVERNO

  1. Gostei do artigo. Anos de chumbo, não pensei que com a minha idade fosse encará-los novamente. E com uma liderança mais chumbrega, impossível. E com a legitimidade do voto, esse, chumbrega também.

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  2. mon cher,

    análise correta. você comentou uma coisa muito interessante: os milicos que

    chegaram ao governo não têm nada de desenvolvimentistas ou nacionalistas.

    são apenas saudosos dos anos de chumbo. lastimável.

    abráços,

    naacif elias

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