O MINISTRO DA EDUCAÇÃO ESCANCARA O PROJETO DA ELITE DO DINHEIRO: A RALÉ VOLTA PRA SENZALA

escravo

“A ideia de universidade para todos não existe (…)

As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual.”

Ricardo Valez Rodrigues (Ministro da Educação) 

A maior ameaça que a elite do dinheiro sofreu foi com a entrada de representantes das classes trabalhadoras e da “ralé”[1] das periferias na Universidade. Isso poderia romper um pacto estabelecido na década de 30 quando a elite criou a USP. A USP teve como objetivo preparar uma elite intelectual da classe média para defender a elite do dinheiro numa parceria que dura mais de oitenta anos, desde que a classe média se aliou a Getúlio para derrotar a elite paulista[2] e assustou a elite do dinheiro, que perdeu o poder pela primeira vez.

Desde a preparação da classe média intelectual como o moderno “capitão do mato” a elite do dinheiro não precisa se preocupar com o poder. Basta fazer a classe média aliada retomar o poder sempre que ele se atreva a atender uns poucos, que sejam, os interesses das classes subalternas. Dai se sacam os conceitos de identitarismo (somos corruptos), patrimonialismo (“para os amigos os favores do estado, para os inimigos a lei), populismo (Vargas, Jango, Lula foram acusados do mesmo “defeito” de atender anseios das classes populares e a acusação de corrupção também é comum aos três). Aliás a corrupção do Estado sempre é chamada para ocultar a corrupção do Mercado (intrínseca ao capitalismo).

E esses conceitos intelectualizados que servem para ajustar “deslizes” populares da classe média estão calcados no conceito de “Homem Cordial”, aquele que age com o coração, com os afetos, para o bem ou para o mal, em contraponto ao “Homem Racional” europeu ou americano que não traz a corrupção no sangue, o patrimonialismo, o populismo. Esses seriam males dos trópicos. Teríamos aí entre a virtude racional do espírito e o pecado das paixões do corpo a origem do nosso “Complexo de Vira-Latas” de um homem inferior das paixões (o cordial) ao ideal espiritual (racional). Portanto, o “Homem Cordial” nos daria uma identidade inferior.

Ora, Jessé Souza chama essa formação brasileira de “embuste” e propõe outra mais compreensível para a esquerda por levar em consideração a luta de classes. A nossa identidade se formaria entre a elite do dinheiro e o trabalho escravo na nossa origem. É essa aberração que nos marca a alma e chega até o começo do século passado. Fomos o maior país escravagista e o último a mudar esse modo de produção. O trabalhador nos chega através da migração europeia. A “ralé” sem formação é uma continuidade da escravidão e a nossa relação com a empregada doméstica, o porteiro do prédio, o faz-tudo pago em gorjeta revela nossa formação escravocrata. Todas as nossas instituições (família, escola, igreja, públicas) tem as marcar visíveis da escravidão e essa seria a nossa identidade mais forte.

Os governos do Partido dos Trabalhadores (não cabe aqui discutir seus erros, que – em minha opinião – foram muitos e não compreendeu a armadilha em que estava se deixando pegar), ousou distribuir migalhas aos trabalhadores e a “ralé” um pouco maior que as costumeiras (até porque a situação internacional permitia – em nenhum momento ele tirou qualquer lucro da elite do dinheiro para os pobres). Nosso caráter escravocrata não suportou tal ameaça por menor que ela fosse. Daí a reclamação de que aeroportos pareciam rodoviárias com gente (“sem costumes”) falando alto, nos restaurantes os “sem modos”, a empregada com o perfume da madame, essa mistura a que não estávamos acostumados.

Mas o que mais incomodou os escravocratas e a elite do dinheiro em particular foi a entrada espantosa de filhos de trabalhadores e – mais ainda – da “ralé” na Universidade. O saber democratizado (mesmo que ainda de forma tímida) poderia ameaçar o projeto da elite do dinheiro de dominação com seus costumeiros capitães do mato. No meu entender essa foi a maior ameaça.

Portanto, é na educação que esse governo de extrema direita vai fazer o seu maior estrago. Romper com a democratização das universidades, reformulação de currículos consagrados, fiscalização da posição politica dos professores, militarização das escolas, o absurdo de um projeto de “escola sem partido”, que é apenas a partidarização direitista na escola.

O caráter escravista de nossa sociedade e de moldar nossa identidade foi facilmente percebido no ódio à “ralé”, esses escravos modernos, ódio que estava trancado no armário e foi solto como uma erupção incontida nessas eleições.

O nosso homem escravocrata até pensava, mas evitava expor seu pensamento em público por algum prurido do que era considerado politicamente correto. Agora não mais: o presidente em campanha solicitou a liberação dos preconceitos. É natural, então, por mais absurdo que seja, que o Ministro da Educação expresse literalmente que “a ideia de universidade para todos não existe (…) As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual.”

Simplesmente a retomada do projeto uspiano da década de 30 que a elite do dinheiro imaginou para a classe média e vinha dando certo. A ameaça de sair dos trilhos foi abortada com sucesso: a universidade não é para os pobres. Apenas para uma elite intelectual (a que serve à elite do dinheiro).

___________________________

[1] Jessé de Sousa chama assim os modernos remanescentes do escravismo, trabalhadores manuais sem qualquer formação profissional. Não o usa de forma pejorativa, mas como a elite e a classe média a denominam pejorativamente.

[2] Seguiremos aqui conceitos desenvolvidos por Jessé Souza. Com o cuidado de sabermos que a tese de Jessé não é hegemônica e que os conceitos uspianos ainda dominam nossa intelectualidade à direita e à esquerda. Jessé vem tentando construir uma tese de esquerda para a formação do nosso povo. E para isso foi preciso demolir o conceito de “Homem Cordial” de Sérgio Buarque com os consequentes conceitos de identitarismo, patrimonialismo e populismo, que domina nosso cenário intelectual. Entendi que tinha futucado o saber com vara curta, quando vários amigos contestaram um trocadilho com o “Homem Cordial” do meu último texto. Compreendi que ele está muito arraigado e a contestação de Jessé nem de longe ameaçou a hegemonia. Insistiremos na teima. (Conf. A Elite do Atraso, Souza, J. Ed Leya, PT, 2017)

desenho: Dino Alves

 

3 comentários em “O MINISTRO DA EDUCAÇÃO ESCANCARA O PROJETO DA ELITE DO DINHEIRO: A RALÉ VOLTA PRA SENZALA

  1. Edmar dá continuidade nesse artigo à suas importantes reflexões. Sim, os governos do PT equivocaram-se em compor com as classes dominantes e o rentismo. Mas encontro avanços importantes no campo da esquerda, com os governos Vargas/Jango/Lula, embora o trabalhismo tenha perdido muito espaço ao longo do último meio século. Discussão importantíssima seria, mudando completamente o foco, encarar o “uberismo” e o “airbnbismo” e outras novas formas de prestação de serviços, que vieram para implodir não só o trabalho com as suas qualificações até aqui conhecidas, como também qualquer organização de classes.
    O palco com o patrão explorador, de um lado, digladiando-se com o trabalhador explorado, ou vice-versa, está saindo de cena definitivamente, se já não saiu.
    No que tange a Buarque x Souza, eu diria que um não oblitera o outro. Souza pode “crescer” na sua tese sem “abafar” Buarque.
    Não tive ainda a certeza de que a presença do “homem cordial” invalidaria a luta de classes.
    Eis que a figura do opressor se faz fortemente presente.

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  2. mon cher,

    meus parabéns. está ótimo. este é um país de privilégios, cuja elite

    nunca lutou por nada. nossa independência, entre aspas, nos custou uma

    dinheirama, exigida por portugal que transferiu para inglaterra. mas, ficamos

    independentes com um imperador português, que depois foi assumir o reino

    luso. porreta, não! depois uma abolição, que a proclamação da república

    rejeitou, pois foi feita em apoio aos donos da terra furiosos com a ousadia

    da princesa. com exceção, talvez, da coluna prestes, todos os levantes do

    país foram em apoio aos privilegiados. porém, ilustre passageiro não

    esquece que este é um país que vai p’ra frente com os seus olavetes,

    como o ministro da educação.

    .

    .

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