O HOMEM CORDIAL PERDEU AS ELEIÇÕES

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Parece que a realidade comprovou o atrevimento certeiro de Jessé Souza em desmanchar o “homem cordial” de Sérgio Buarque e a identidade nacional calcada nos portugueses de Casa Grande & Senzala. Jessé coloca no lugar desses conceitos nosso caráter escravagista, nunca discutido, mas que identifica melhor o brasileiro que é desnudado no radicalismo dessas recentes eleições.

Foi o ódio que saiu do armário. Um ódio fascista contra o diferente. Um ódio ao escravo e aos seus iguais que não possuem alma. Alma agora prenha de um deus vingativo, cruel. Alma que cultiva a ignorância, o obscurantismo, as trevas da idade média trazida à sombra desse século tecnológico.

Uma recente aberração pode ilustrar essa horrível tragédia. Um travesti foi assassinado em São Paulo apenas pelo fato de existir. O assassino arranca o coração da vítima e guarda embrulhado num pano, colocando no peito aberto uma imagem religiosa. Essa não é uma loucura da modernidade. Fica melhor num horripilante caçador de bruxas das trevas medievais. O assassino explicou a atitude considerando a vítima o próprio demônio.

Um demônio que se materializou na diferença. Numa diferença que foi incentivada pelo ódio que ganhou as eleições com o discurso machista, misógino, homofóbico, escravocrata. Um ódio que separa os “homens de bem” (brancos, heterossexuais, de preferência descendentes de europeus) da ralé de escravos modernos e trabalhadores precarizados. Uma classe média fascista e liberal que monopolizou o discurso influenciando a ignorância e conservadorismo das classes populares. O resultado, estamos a colher.

Já são quase quarenta feminícidios nesse primeiro mês do ano que ainda não acabou. Um crime reconhecido apenas pela condição feminina da vítima. Não se contam mais os crimes de jovens, pretos e pobres das periferias dos centros urbanos. Estamos diante de um verdadeiro genocídio do povo pobre e de cor. Somos o país que mais assassina identidades de gênero fora da coincidência de gênero com sexo biológico. Temos agora também um ódio dirigido ao posicionamento político de esquerda. Marielle foi morta porque encarnava a diferença: era negra da periferia, lésbica, esquerdista e defensora dos direitos humanos.

Jean Wyllys abdicou do mandato e foi para o exílio voluntariamente. O deputado ameaçado de morte, vivendo com escolta policial, parece que se desesperou em saber que o presidente – seu adversário cruel do parlamento – e sua família têm reações com milicianos procurados. O presidente e um filho comemoram no twiter a “fuga” de Wyllys. Não é uma atitude de mandatário da nação (que deveria lhe dar garantias de vida), parecendo mesmo que teria assinado sua expulsão se fosse possível (como ele disse que faria no discurso de candidato). Não se pode condenar a atitude do deputado amedrontado com razão. Talvez faça melhor política na denúncia lá fora.

Aquele “homem cordial” inventado por Buarque parece nunca ter existido. Fingíamos ser o que não éramos. Nessas eleições foi revelado o brasileiro escravocrata. Ontem um motorista de taxi me dizia olhando um mendigo: “não querem trabalhar, deviam lavar um banheiro por um prato de comida”. O nosso homem comum concorda com a escravidão. Com a misoginia, homofobia, com o machismo e com o racismo. A maioria dos brasileiros é assim. E ganhou as eleições.

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desenho: DINO ALVES

 

5 comentários em “O HOMEM CORDIAL PERDEU AS ELEIÇÕES

  1. Excelente texto para reflexão e debate. Na parte que toca ao homem cordial de Buarque, referente ao direito de ser Senhor de todas as terras e o que nela existe, a semelhança com o homem bolsonaro é enorme! Consequentemente, atrevo-me a dizer que o homem cordial não perdeu as eleições não. Pode-se afirmar, ao contrário, que a maior parte dele venceu, sim, as eleições. A elite satélite dos bolsonaros, e eles próprios, “confundem”, de propósito, estado com religião, logo, o poder por eles constituído, tem legitimação. Ditatorial, bem claro, e nada republicana. O tema aqui tratado é por demais importante. A contribuição de Jessé de Souza, inegavelmente, abre novos horizontes para se desvendar porque uma maioria de brasileiros colocou no poder um ser abjeto, acreditando que ser ele o messias.

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    1. Segundo Jessé o conceito de homem cordial (que age com o coração em contraponto à razão) e o de patrimonialismo (estado público privatizado pelos amigos – aos inimigos a lei) ofuscam o conceito de luta de classes. O conceito de escravocrata explica as nossas classes (ralé, o escravo moderno, trabalhador precarizados, classes médias e elite). A elite só tolera o patrimonialismo dos seus aliados de classe. O PT, por querer atender pequenas necessidades dos trabalhadores e da ralé não foi tolerado. Lula achou que podia entrar na turma do patrimonialismo. Ledo engano. Nao discuti no artigo esses conceitos. Quis apenas dizer que os escravocratas ganharam a eleição tolerando absurdos da extrema direita por serem aliados de classe. Tem muito panos pras mangas nessa discussão. O patrimonialismo do Bolsonaro nem sei se vai ser tolerado. É muito toscos para as elites. Talvez prefiram os militares. Enfim, o conceito de patrimonialismo não anula a luta de classes e por isso não se sustenta. Só as classes dominantes podem ser patrimonialista. O “homem cordial” não é o que representa a brasilidade de todas as classes.

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      1. Estamos nos referindo ao homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda que é cordial não como afetuoso ou educado mas como aquele que confunde os valores públicos com os valores privados ! O atual presidente é, neste sentido, absolutamente exemplar do home comum brasileiro… A informalidade de seus hábitos ( lembra do pão com leite condensado e da gritaria xingando o Lula e o Haddad no dia daquela manifestação a favor dele? ) e a declaração raivosa sobre os seus « planos » para o Brasil mostram as duas faces da mesma moeda, faces que se interpenetram. É isso, ele é um homem comum. Eleito pelas forças conservadoras e por uma significante parcela da população que achou que «  chega de corrupção ! » . E isto do meu porteiro que mora na Rocinha ao doutor que chefia uma unidade do SUS, este último que tinha votado no PT até à reeleição da Dilma ! Eis a confusão a meu ver em que vivemos ao não termos construído as raizes de um Estado de bem estar social quando talvez tenhamos tido a oportunidade de fazê-lo … é o que eu estou achando de tudo isto …

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      2. Meu amigo, eu ainda não li este livro pretendo colocá-lo na minha fila de leituras que só cresce !!!
        Na minha opinião há um problema na sua análise que diz respeito a dois aspectos : um deles tem a ver com um exercício necessário que a esquerda que esteve no poder durante todos aqueles anos precisa fazer e que tem a ver com a corrupção. Ponto. Mas este exercício precisa ser profundo. Porque muito dinheiro se foi para o enriquecimento de poucos . E o Lula foi responsável por isto . E não interessa dizer que o PSDB também roubou ou que o roubo foi um modo de conseguir governar . No primeiro mandato do Lula ele tinha a população do lado dele e iríamos todos pra rua defender o governo como fomos na luta contra a ditadura . Mas depois do mensalão foi ficando mais difícil porque a partir dali aguçou-se pouco a pouco de um lado o discurso de que estar contra o que acontecia no partido era coisa de quem não era de esquerda ( identificando o PT com a esquerda em termos absolutos muitas vezes com o exercício que permanece até hoje de falar pra dentro) e por outro lado de compor com o que havia de pior na política brasileira. Neste momento muita gente foi para o «  exílio » político . Neste sentido cabe a escolha equivocada de seguir no rumo de aumento do poder aquisitivo de um segmento de pessoas pobres que coeçaram a acreditar que finalmente estavam «  dentro «  – na lógica de construção de uma imensa sociedade de consumo . O mercado agradecia porque neste capitalismo de mercado não interessa discutir para onde vamos … aí as políticas públicas de saúde e educação ficaram pelo caminho, no máximo seguindo o discurso de ênfase nas minorias vieram as cotas – temos alunos na universidade com muitas dificuldades porque não se mexeu no ensino médio público não se colocou o SUS em pé, etc e e a luta pelos costumes tomou todo o cenário como se por aí faríamos justiça social.
        E, finalmente eu acho que não dá mais pra raciocinar com o conceito de luta de classes porque a lógica do mercado comeu este conceito com farinha …temos que discutir isto também porque o mercado não está nem aí pra está discussão sobre preconceitos, racismo etc. Tudo isto leva a um esvaziamento de uma visão da esquerda que seria no caso do nosso país lutar para que a distribuição de renda seja justa . Não é mais possível o salário mínimo de 1000 reais . Neste sentido somos uma sociedade muito violenta e assim é cada vez mais seremos porque a injustiça social é obscena…

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  2. Patrimonialismo…luta de classes…homem cordial…o que fazemos agora?! como parar o abuso de poder desse louco que age como um trem desgovernado( até certo ponto, claro, desde que não fira os interesses dele e da sua “turma”) distruindo o que aparece pela frente, no caso ,esquerda, gays, mulheres, etc…onde está a saída quando todas as reflexões parecem ter sido feitas!!! o “fazer” parece que fugiu das nossas mãos…ainda temos mãos ?!
    Lelê

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