ALGUNS PALPITES SOBRE A “IGNORÂNCIA OSTENTAÇÃO”

 

Terra-plana

A Espanha levou um susto. Na progressista Andaluzia a extrema direita fez doze cadeiras de deputados, numa região antes dominada pelos socialistas. O impressionante é a semelhança do discurso do VOX (partido da extrema direita) com o discurso do vitorioso Bolsonaro no Brasil para amealhar eleitores. O Podemos (partido de esquerda) é o PT de lá. Chamados de comunistas que querem que a Espanha vire uma Venezuela. O líder do VOX é um juiz (qualquer semelhança não é mera coincidência) que se diz “antifeminista”, é contra o “jihadismo de gênero”. Como aqui, a extrema direita de lá é a favor da família tradicional, contra a descriminalização do aborto, contra os “abusos” da legislação espanhola que protege a mulher contra a violência de gênero, negam que o franquismo foi uma ditadura, como aqui negam 64. Em suma são intolerantes, xenófobos, raivosos e ressentidos, contra a corrupção e os comunistas. Parece que um pedaço do Brasil brotou repentinamente na Andaluzia. Claro que aqui já somos algo parecido ao fenômeno que elegeu Trump ou tirou a Inglaterra da Comunidade Europeia. Mas não estava tão claro como agora.

Fiquei cá pensando com meus botões: parece que vivemos uma contrarrevolução da ignorância contra o progresso civilizatório da humanidade. É como se nós, que temos pressa e achamos que já poderíamos ter avançado muito mais, fôssemos parados por quem estava atrás e se sentia arrastado por uma vanguarda que não compreendia e muito menos concordava. Parece que até então eles não tinham reclamado e nós achamos que eles não iriam reclamar, afinal corríamos com o progresso para o bem de todos. O que mais parece é que estávamos errados e não estamos compreendendo a reclamação.

E é claro que tento entender então o papel “democrático” das redes sociais para a informação. Ela é tanta que se torna superficial e ao alcance de todos, com o problema de que a superficialidade pode induzir a erros de conhecimentos prejudiciais à compreensão do assunto. Umberto Eco andou dizendo na contra mão da revolução tecnológica que “as redes sociais deram voz aos imbecis”. A dureza do comentário de Eco pode estar por trás da perda de vergonha da ignorância para se apresentar como ostentação idiota.

A “ignorância ostentação” perdeu a vergonha antiga e atendeu ao chamado de políticos oportunistas que prometem o novo entregando a muita antiga forma de exploração. O neoliberalismo soube ouvir a contrarrevolução dos ignorantes e tirou proveito, já que eles eram muitos. Eram os antigos silenciosos que não se atreviam discordar de uma vanguarda barulhenta que achava que os subalternos seguiam uma “avant-guarde” sem reclamar porque era melhor para todos. Não perceberam o erro.

Foi como atendessem a um apelo de manifesto: “ignorantes, nada tendes a perder senão sua submissão à vanguarda do pensamento ocidental”. Não são todos iguais, mas todos eram submissos aos que pregam o avanço da civilização. Não é atoa o sucesso de um livro chamado “o mínimo que você deve saber para não ser um idiota” e desse pseudofilósofo  fazer o sucesso que faz. Ele atendeu aos ignorantes com o respaldo intelectual. O pensamento conservador foi a defesa contra a vanguarda. E a revolta, diria mesmo uma contra revolução, que juntou alguns evangélicos e preceitos do velho testamento, machistas, misóginos, homofóbicos, anticomunistas, escravagistas, reacionários que protestaram ruidosamente contra a vanguarda. E arriscam teses pseudocientíficas, como a “climatologia”, “ideologia de gênero”, “escola sem partido”, “o criacionismo” e outras pseudocientificidades que não resistem a qualquer embate acadêmico, mas elevou o tom de voz e os argumentos dos ignorantes, inclusive para afirmar a idiotia de uma “terra plana”.

Poderíamos analisar o fenômeno como fruto da desigualdade educacional e econômica, mas além de simplista, por atingir todas as camadas sociais e necessitar de acesso ao desenvolvimento tecnológico, não é o objetivo dessas linhas. O que aqui queremos dizer é que a perda da vanguarda política – pelo comportamento corrupto que igualou os partidos de esquerda e direita, não mudando em longo prazo a situação social, o que gerou uma revolta disseminada – e a perda da vanguarda econômica – não se avançou numa proposta de ataque consequente ao neoliberalismo, o que gerou um descréditos a planos econômicos –, provocou uma revolta antissistema “para mudar tudo o que está aí”.

Bolsonaro se aproveitou desse vazio para atacar no ideológico a frustração econômica e política. Parece que o VOX também. O reacionarismo avançou numa contra revolução dos despossuídos do saber. Além de perigoso como ideologia, o neoliberalismo soube aproveitar a revolta ideológica para avançar na sua proposta econômica como um Lampedusa: era preciso que parecesse mudar para continuar o mesmo modo de reprodução econômica neoliberal.

Desregulamentar as garantias constitucionais, eliminar direitos seculares – dos quais a extinção do Ministério do Trabalho é um símbolo do amparo estatal – só facilita a sangria neoliberal aos trabalhadores encantados com a nova ideologia que brotou da ignorância contida contra a “tirania” da vanguarda política. A “ignorância ostentação” se opõe a todo saber de uma vanguarda que não percebeu o inconformismo antissistêmico dos despossuídos do saber. Paradoxalmente e surpreendentemente, a ignorância venceu.

Porquanto tempo o arcabouço ideológico protofascista pode sustentar esse pesadelo é uma incógnita. Afinal o racional parece ser ignorante. E a ignorância é presa fácil do reacionarismo.

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Ilustração: esquema para “Terra Plana” de Elena Schweitzer para Shutterstock

 

 

2 comentários em “ALGUNS PALPITES SOBRE A “IGNORÂNCIA OSTENTAÇÃO”

  1. É isso aí Edmar, a má informação ou a desinformação ou mesmo a informação pela metade afasta o simples da sabedoria pura e o coloca na volúpia da burrice lustrada…

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  2. … pois é… fiquei pensando numa reza bem, mas bem forte, pro mode implorar aos céus clemência por tudo que nos oprime nesse mundão. O nosso deus é vermelho, só lhe resta queimar no inferno, provavelmente eu e minha tribo também iremos pra lá, é questão de tempo. O deus deles é o Chefão do Céu. Um deus de direita e fascista ainda por cima. O Todo poderoso! Com toda essa desgraça, se nos restasse um purgatoriozinho eu já estaria explodindo de felicidade. Mas qual… como o Purgatório é somente uma espécie de local de triagem, eu e minha tribo, inexoravelmente, desceríamos ao reino do capiroto. Sim, é apenas uma questão de tempo.

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