“O ALIENISTA”, OS LOUCOS DIAS DE HOJE E A IGNORÂNCIA OSTENTAÇÃO

milton

Em 1882, com o Hospício de Pedro II em pungente “proposta civilizatória”, Machado de Assis escreve uma pequena novela (para alguns um longo conto) onde faz uma crítica demolidora ao saber psiquiátrico de então, mostrando a relatividade do conceito de loucura. Depois de classificar quase toda a população da pequena Itaguaí como desviante e providenciar a sua internação na Casa Verde (o hospício construído pelo Dr. Simão Bacamarte), termina por rever seu conceito de loucura por diversas teorias – trocando antigos loucos por novos – até chegar à conclusão de que a normalidade que ele acredita possuir era na verdade desviante e conclui por libertar todos os loucos da Casa Verde e nela se internar pelo resto de seus dias como o único louco.

Aos mais novos que querem ingressar na Saúde Mental sempre indiquei essa novela como primeira leitura, já que o saber psiquiátrico tem uma relação com a cultura e tempos datados, e essa relatividade é mostrada magistralmente, como só a literatura é capaz de fazer, prevendo inclusive o futuro. Note-se que o saber inquestionável na época mostrou-se completamente frágil no futuro, culminando no que viria a ser conhecido como Reforma Psiquiátrica, que vai negar o hospício como lugar de cura.

Mas como os gênios das artes possuem uma “antena da raça” (no dizer do mestre Ezra Pound) volto a lembrar do Alienista para falar dos dias atuais em que vivemos uma verdadeira onda reacionária nas ideias, nos conceitos, na ideologia. Vivemos uma verdadeira “ignorância ostentação” que muitas vezes beira ao delírio encontrado no psicótico.

Ou não poderia ser classificada como pensamento delirante uma ameaça paranoide de uma “ideologia de gênero”, que não tem qualquer sustentação na realidade?

Ora, o ser humano nasce com o sexo masculino, feminino, hermafrodita, falso feminino ou falso masculino. Poderíamos considerar o caráter normal estatístico de dois sexos, masculino e feminino considerando os outros “desvios do padrão” da normalidade estatística conduzida pela genética e presentes ao nascer. Mas sexo não é gênero. Sexo é genoma. Gênero teria outra conformação. Seria como o sujeito se identificaria na construção de sua história idiossincrática para expressar sua sexualidade, que na espécie humana apresenta-se em várias conformações ao longo da história, sendo mais bem compreendida na modernidade sem os preconceitos do passado.

O que diferencia os homens dos animais são sua imaturidade e formação social após o nascimento (por isso fala, pensa e tem consciência da existência). O gênero não é sexo, nem determinado pela genética, mas pela construção social que molda o humano após o nascimento (a mesma interação social que também lhe dá a fala, o pensamento, à consciência da existência – Tarzan, que na literatura foi criado por macacos seria um humano que agiria como um macaco e não como humano. O enigma de Kasper Hauser bem exemplifica essa história). Portanto, gênero é adquirido na relação do sujeito com o entorno e não determinado na genética. Chamar gênero de ideologia apenas revela um medo paranoico de ser convencido a ter um gênero que não o que pensa que tem. Isso até acontece, mas é por repressão e não por uma ideologia contagiosa. Não há convencimento possível depois da definição social e cultural de gênero. A “cura gay”, proposta por alguns idiotas, uma impossibilidade conceitual e caricata ridícula.

O estudo de gênero diz respeito às ciências humanas (psiquiatria, psicologia, psicanálise, sociologia e antropologia são ciências humanas) e não ideologia. Portanto, chamar um estudo científico sobre gênero de ideologia, baseada na concepção bíblica para dois sexo nomeado em Gêneses é uma burrice inominável. Primeiro porque a concepção bíblica deve ser metafórica sobre uma cosmogonia religiosa. E o ser humano não delirante entende o que é metáfora. Esse entendimento está comprometido num pensamento delirante próprio do psicótico. O entendimento bíblico sem metáfora é algo que o conhecimento de teologia sabe como lidar e que erroneamente é transmitido por falsos pastores ignorantes como literal. A teologia sabe que os sete dias da criação é uma metáfora de milênios da ciência. Sei que o bolsonarismo inaugura a ignorância ostentação, muito perigosa para o entendimento do mundo.

Na verdade o poder do psiquiatra ou outro psi sobre o psicótico baseia-se em que o sujeito delirante não encontra delírio similar na realidade. Quando o delírio é socializado, entre nós agora quase uma normalidade estatística, perdemos o poder da cura. O Cabo Daciolo fazia um louco engraçado porque ninguém acreditava nele. Mas o que dizer de delírios como na crença de uma ideologia de gênero, uma escola sem política, na climatologia como ideologia marxista sobre o aquecimento global, no criacionismo oposta ao darwinismo ou a teoria da terra plana, onde pseudos intelectuais teorizam quase que delirantemente sobre os temas com poder de convencimento e aceitação social? Socializado esses delírios ganham status de verdade.

Quem pode ser condenado ao hospício talvez seja os defensores da ciência, o que já aconteceu no passado. Na falta do hospício, a fogueira, a prisão, a tortura.

Outra vez Bacamarte acerta no futuro. Um delírio socializado adquire status de verdade e a sociedade sempre sofreu grandes tragédias quando isso ocorreu na história. No momento em que vivemos, parece que a loucura da Casa Verde ganhou status de verdade entre nós.

____________________

desenho: 1000TON

 

Um comentário em ““O ALIENISTA”, OS LOUCOS DIAS DE HOJE E A IGNORÂNCIA OSTENTAÇÃO

  1. Eu ia dizer: perdoai-os, Senhor, eles não sabem das metáforas. Mas como Deus é de direita, esses psicopatas se entendem bem com o todo-poderoso…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s