OBRIGADO AOS MÉDICOS CUBANOS. DESCULPEM O EGOÍSMO DE MUITOS DE NÓS

sAUDE

Na relação médico por habitante, o Brasil ocupa um 68º lugar, inferior aos vizinhos  Argentina e Uruguai, não muito confortável, com dois agravantes: formação, por muito tempo, voltada à especialidades privadas e não à medicina pública, e, por ser um país continental e desigual, distribuição também desigual. Temos concentração de médicos nas regiões sudeste e sul, e mesmo nas regiões privilegiadas ainda conta com carência extrema nos bolsões de pobreza, muito pior ainda nesses bolsões das regiões menos favorecidas com a relação médico por habitante abaixo da crítica.

Erro na formação elitizada histórico, entidades corporativas poderosas com defesa ferrenha de mercados, mercantilização da profissão, privilégios para a medicina privada em detrimento da pública tornaram a interiorização da medicina, em curto prazo, deficiente. Na gestão pública acompanhei a dificuldade de fixação do médico em regiões periféricas, mesmo com concursos específicos. A carência do tal mercado, perverso na saúde, tratava de desfazer o planejamento gestor.

Em 2013, o governo, preocupado em suprir a deficiência crônica, implantou o programa “Mais Médicos”, aproveitando a experiência cubana de interiorização de seus médicos em vários países do mundo.

A ousadia não foi bem recebida por nossos médicos. Cenas de recepções vexatórias, depreciação da formação dos cubanos, uma sórdida campanha de associações médicas e midiáticas tentaram inviabilizar o programa. Note-se que as vagas eram oferecidas, em primeiro lugar, aos médicos brasileiros, brasileiros formados no exterior e só depois aos estrangeiros, dentre eles os cubanos. A “grita” foi geral e a corporação médica mostrou seu rancor de classe e desprezo pela saúde pública de brasileiros que não conseguiam atendimento pelo SUS por falta de profissionais.

O programa “Mais Médicos” foi se impondo pela prática silenciosamente. Quem quiser se debruçar em histórias de satisfação popular, do trabalho dedicado e necessário dos médicos cubanos, não faltam relatos emocionantes de pessoas que nunca tinham conseguido ser atendidas por um médico no século XXI. Ou que foram atendidas por médicos atenciosos, diferentes dos que conheciam até então.

Tínhamos agora 2,8 mil cidades com médicos do programa, das quais 1,5 mil dependiam exclusivamente desses médicos, além de que 75% das áreas indígenas eram atendidas apenas pelo “Mais Médicos”. São 8,5 mil médicos do programa que atendiam em áreas carentes. Eu mesmo testemunhei nas Clínicas da Família em favelas do Rio de Janeiro a atuação desses profissionais junto aos jovens médicos comunitários que começavam uma formação pública reclamada. E junto a esses jovens médicos, de nova formação e dedicados ao SUS, esses médicos cubanos eram bem vindos e ajudavam com sua experiência ao redor do planeta.

Percebam que as críticas irresponsáveis perderam o eco pelo reconhecimento da clientela ao trabalho desses profissionais. Entretanto, as associações de classe, vários conselhos, em surdina sabotavam esses atendimentos movidos pela reserva de mercado, pela ambição do lucro mercantil com a profissão, sem se importar com a desassistência que o fim do programa poderia causar.

Atendendo esses interesses mesquinhos, e impulsionado por um anticomunismo anacrônico e fantasioso, já na campanha o candidato a presidente que ganhou as eleições agrediu os médicos cubanos, depreciando sua formação e qualidade, prometendo expulsá-los e propondo romper com o convênio com a OPAS que garantia o programa. Já depois de eleito o presidente acentuou sua discordância, demonstrando que não falara exageradamente por ser campanha. A inabilidade e irresponsabilidade do futuro dirigente fez Cuba retirar seus médicos por não aceitar interferência política de nosso inábil futuro presidente.

O povo brasileiro, que fez com que o Programa Mais Médicos fosse uma conquista social, que desde o primeiro momento confiou nos médicos cubanos, aprecia suas virtudes e agradece o respeito, a sensibilidade e o profissionalismo com que foram atendidos, poderá compreender sobre quem cai a responsabilidade de que nossos médicos não possam continuar oferecendo sua ajuda solidária nesse país” – assim o Ministério da Saúde de Cuba encerra o documento que explica porque rompeu com a OPAS o convênio que nos garantia a assistência aos mais necessitados.

A retirada (por serem ameaçados de expulsão) de 8,5 mil médicos cubanos abre um vazio sanitário que afetará a saúde do nosso povo mais carente. As associações de classe e conselhos médicos, que sempre quiseram esse rompimento, apresentarão um plano de ação para suprir essa falta? Como o presidente eleito planeja resolver o problema que criou antes de assumir? A mídia continua preocupada se o dinheiro do convênio financiava o governo de Cuba, mas não se pergunta o que será feito com essa gente desassistida. São os invisíveis, vistos apenas pelo programa “Mais Médicos”, que serão abandonados à própria sorte.

Como médico, não partilhando da opinião das associações de classes e conselhos, que não me representam, mas aliado aos novos médicos comunitários – que tive o orgulho de ajudar, um pouco que fosse, na sua formação – só temos de agradecer aos médicos cubanos que deixaram as suas famílias para nos ajudarem a fazer a nossa obrigação. Foi uma experiência valiosa, e o que vocês deixaram no coração de cada paciente nos ajudará na luta por uma saúde mais digna. Não os esqueceremos. Obrigado, numa palavra só. E desculpem o egoísmo de muitos de nós.

___________________

Edmar Oliveira, médico aposentado, psiquiatra com pós-graduação em gestão em saúde, quarenta anos de prática clínica, iniciada nos bolsões de pobreza da Baixada Fluminense, militante da Reforma Psiquiátrica, ex-diretor do Hospital do Engenho de Dentro, ex-consultor do Ministério da Saúde, matriciador em saúde mental em clínicas da família em comunidades, ainda preocupado com o destino do SUS e da Reforma Psiquiátrica, escritor e palestrante ocasional.

Desenho: Dino Alves

 

2 comentários em “OBRIGADO AOS MÉDICOS CUBANOS. DESCULPEM O EGOÍSMO DE MUITOS DE NÓS

  1. Muito triste ver o povo brasileiro tiranfo suas máscaras e se mostrando nu aos olhos do mundo. Obrigado aos nossos verdadeiros irmãos cubanos. Tanto aos medicos como às suas famílias que se sacrificaram tanto não só dedicando suas vidas para buscar curar os ignorantes que ainda os humulhavam durante as consultas. Eu fui testemunha pois trabalhei com médicos Cubanos e Venezuelanos e presenciei muitos momentos em que eles foram humilhados e mesmo assim, sempre trabalhando com humildade e dedicacao. Poucas vezes cruzei com pessoas tão dignas.

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  2. Lastimável que um governo sem nenhuma sensibilidade social mas como agudeza discriminatória venha prejudicar a população carente que vinha sendo tão bem assistida p dedicados médicos cubanos.

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