“PRISIONEIROS DA PASSAGEM”

HENFIL2

Assistindo “Missão 115” de Sílvio Da-rin, que aborda o atentado do Riocentro  de 1981, a discussão sobre a lei de anistia de 1979 tem seu ponto principal para o entendimento do nosso curto período de tentativa de construção democrática.

A lei da anistia, reivindicada pela oposição, é proclamada no final do governo militar, dentro do plano arquitetado por Golbery de abertura lenta e gradual. E ao tempo em que anistiava os exilados e banidos – inclusive da luta armada – perdoava o terrorismo de estado e seus agentes torturadores e assassinos dos crimes cometidos. O que se festejava como vitória, permitindo o retorno de lideranças cassadas politicamente, protegia na calada da noite os agentes do governo que abusaram de suas atribuições de agentes do estado para cometerem crimes hediondos.

Mesmo a Constituição Cidadã, que condenava tais crimes pode retroagir por força da lei ou a Comissão Nacional da Verdade teve respaldo do Estado, ainda que sendo nomeada por ele, para revisar uma lei unilateral da ditadura militar. O tempo passa e a maioria dos envolvidos acaba morrendo de morte natural, sem jamais prestar contas de seus atos. A impunidade culmina com um deputado dedicando seu voto do impeachment ao coronel Brilhante Ustra, como ele disse com propriedade: o terror de Dilma Rousseff, a presidente deposta, que foi torturada pelo coronel já morto impune.

Ali tínhamos um golpe parlamentar e o deputado apologista da ditadura se fez candidato a presidente, foi eleito, o golpe se aprofunda talvez num retorno similar ao autoritarismo de uma ditadura que não acabou.

Não pretendemos aqui analisar a vitória da extrema direita nesta eleição. Apenas constatar que ficamos “prisioneiros da passagem” entre o fim da ditadura e a busca por uma democracia que não alcançamos. E, como não fomos capazes de romper os laços que nos prendiam ao regime autoritário, quanto mais nos distanciávamos dele, ele brotava nos corações e mentes que culparam o sistema pela crise que atravessamos. E nos omitindo de revelar e punir suas mazelas, ele se transformou numa espécie de “paraíso perdido” na memória curta de gerações despolitizadas, também por não cultivarmos nas bases os valores democráticos nas nossas ações políticas.

O tempo muito longo da travessia pode nos fazer retornar à mesma margem e não ao outro lado. Enganamo-nos pensando já estar chegando à outra margem. Os entulhos autoritários podem ter impedido a travessia. E a ilusão de que já tínhamos atingido a democracia desmancha-se no ar.

_____________________

Desenho de Henfil: já não se podia esquecer quem morreu e quem matou

“Prisioneiros da Passagem” refere-se a nau dos loucos que não tinha porto de chegada (Foucault, História da Loucura)

Missão 115, trailer: https://youtu.be/SS_2P7HTE_U

2 comentários em ““PRISIONEIROS DA PASSAGEM”

  1. Como conciliamos com o irreconciliável pagamos este preço de vê-los de volta na sala, como se de verdade nunca tivessem saído de cena … como disse Borges, o destino pode ser impiedoso com as nossas mínimas distrações…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s