ELES NÃO GOSTAM DE POESIA

Rafael Correia

A bucólica ilha de Paquetá, frequentada desde Dom João VI pela corte, famosa por ter sido o cenário do romance de Joaquim Manoel de Macedo, “A Moreninha”, publicado ainda no império, hoje é um reduto quase esquecido de pessoas que querem está longe do Rio, estando perto.

Nos finais de semana costuma receber um contingente considerável de turistas, na sua maioria suburbana, que atravessa a baia na barca da manhã para voltar à tardinha ou começo da noite. É um passeio barato. Os hotéis da ilha não são tão frequentados quanto a seus restaurantes, mas também são permitidos piqueniques e farofeiros à sombra do arvoredo. Não há carros na ilha e as antigas charretes foram substituídas por carrinhos elétricos. As bicicletas e triciclos facilitam a locomoção das famílias. Quase nada acontece por lá.

Vez por outra vou visitar meu prezado amigo Afonsinho nas festas do Clube Municipal e almoçar no Quintal da Regina. Pego a barca das dez e volto na das cinco e o tempo passa muito mais devagar que no Rio.

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Mas nesta semana a ilha apareceu nos jornais do continente. O administrador do bairro (é um bairro do Rio) resolveu retirar a poesia pintada em madeira, que enfeitavam as árvores e postes, podendo ser degustada pelo transeunte em seu caminhar. Do nada ele resolveu que a poesia não era necessária, talvez impulsionado pela vitória do capitão ou sei lá porque razão. O certo é que tempos de intolerância se aproxima, poesia pode ser coisa de desocupado, de gay, de vermelhos, essa gente improdutiva que não tem mais nada pra fazer. O administrador da ilha, querendo antecipar esses tempos retirou a poesia das ruas, como se retira lixo deixado pelos visitantes.

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Aí ele se deu mal. O povo reagiu, afinal que mal fazia a poesia que como flores enfeitavam o arvoredo, como encantamento decorava os postes dos caminhos? A chiadeira foi geral e, por conta dessa insatisfação, foi demitido o administrador que não gostava de poesia.

Lembrei-me do quadrinho de Rafael Correia que ilustra o texto:  – “e agora, o que faremos?” – “poesia, esses canalhas não suportam poesia”. Vamos então protestar com a força da poesia.

Lembrei também de 1971, quando conheci o poeta Torquato Neto. Tínhamos entrevistado o poeta numa despretensiosa folha encartada no jornal Opinião (não o famoso, mas um insignificante homônimo anterior feito em Teresina) e o convidamos para escrever no nosso jornaleco. Sem se fazer de rogado, o já reconhecido letrista da tropicália nos mandou esse poema. Eu e Durvalino Couto, que tocávamos a folha (o outro editor, Paulo José Cunha estava morando em Brasília) quando batemos os olhos nesse poema, que editávamos em primeira mão, sabíamos que as nossas vidas não seriam as mesmas. É a força da poesia, que eles não compreendem.

 

LITERATO CANTABILE

Torquato Neto

 

agora não se fala mais

toda palavra guarda uma cilada

e qualquer gesto pode ser o fim

do seu início

agora não se fala nada

e tudo é transparente em cada forma

qualquer palavra é um gesto

e em minha orla

os pássaros de sempre cantam assim,

do precipício:

 

a guerra acabou

quem perdeu agradeça

a quem ganhou.

não se fala. não é permitido

mudar de idéia. é proibido.

não se permite nunca mais olhares

tensões de cismas crises e outros tempos

está vetado qualquer movimento

do corpo ou onde quer que alhures.

toda palavra envolve o precipício

e os literatos foram todos para o hospício

e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.

agora não se fala nada, sim. fim. a guerra

acabou

e quem perdeu agradeça a quem ganhou.

 

__________________________

desenho: Rafael Correia

 

2 comentários em “ELES NÃO GOSTAM DE POESIA

  1. Muito Legal!! Ainda bem…que o Coiso eleito terá que esperar como vota os deputados eleitos para a câmara federal…e ainda ter que respeitar a constituição de 88, caso faça o contrário agora..ele tomará do próprio veneno…coisa que este Presidente eleito vem tentando fazer…sei não, mas sei lá…o tombo pode até ser pior do que de Collor….Vamos aguardar os próximos capítulos…

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  2. mon cher,

    bonita lembrança de um poema denunciador de um tempo

    de ciladas e precipícios criados pelas palavras. você o utiliza

    para anunciar o tempo que virá com o capitão. palavras são

    desnecessárias. elas, se juntadas, podem levar a um poema…

    devastador.

    parabéns, nacif elias

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