ELE ESTÁ DE VOLTA?[1]

BolsonoraHitler

Haddad reconhece que mergulhamos na crise internacional por erros de condução do processo no segundo governo Dilma. O golpe aprofundou a crise, aumentando o desemprego e tomando os bens de consumo conquistados nos governos do PT. A memória é tanto mais curta, quando maior for a situação de penúria enfrentada no agora. A mídia amplificou os malfeitos do PT como se fosse o maior roubo da história, de uma magnitude que fez esquecer todos os outros e que era a causa da crise. A prisão de Lula impediu que a memória de tempos bons fosse recordada e acentuou a culpa do PT. O PT achou que Lula transferiria os votos que tinha e dispensou alianças a outros atores para enfrentar um fascismo que seria motivado por todas essas causas. Estava criado o caldo de cultura para o renascimento do germe que não foi inativado na redemocratização após o golpe de 64 e ressurge fortalecido por ter sido alimentado à vista de todos, com quase todos achando que ele não cresceria para ameaçar a democracia.

Ei-lo, contaminando a insatisfação com o “sistema que está aí” e retroalimentado por seguidores fervorosos e irascíveis. O seu crescimento está garantido e não há ponto de retorno. Alguns seguidores orgânicos, fascistas de opinião, transformando “fake news”  ditos tantas vezes até virar verdade. Empresários, especulando com a crise de insatisfação, financiando um caixa dois que é proibido por lei, mas tolerado pelas instituições acovardadas, que deixam crescer um monstro que pode lhes devorar num amanhã em que não serão mais necessárias. Milícias de neofascistas, que reverberam nas ruas os preconceitos do capitão transformado em mito, atacando os discordantes do pensamento único, sejam vermelhos, gays, negros, nordestinos, indígenas, mendigos, deficientes. Uma grande massa, ávida para colocar a culpa dos seus males num inimigo facilmente identificável: petistas vermelhos, comunistas bolivarianos, o culpa do mal e a que tudo pode se contrapor: qualquer coisa, menos o PT, pois ele é responsável por tudo de ruim. Pronto, caminhamos para o inferno.

Todos estamos assustados com a repetição de uma história que já conhecemos até onde pode chegar.

A massa despolitizada, parte dela manipulada por evangélicos inescrupulosos, parte precarizada que não tem nada mais a perder; uma grande parte de uma classe média ressentida por pautas identitárias sobre gênero, ou ainda incomodada por ações afirmativas que ferem seu desejo escravocrata nunca abortado, querem enxergar nessa repetição da história algo novo. Que esse “novo” é contra o sistema e pode acabar com a identidade do mal – “fora PT” culpado de tudo – e talvez tenhamos um amanhã melhor. Acham que nada pode piorar. Inútil tentar demovê-los. Só enxergarão que pode piorar, e certamente teremos dias piores se o projeto autoritário for vitorioso, quando acontecer. Aí será tarde. Esta hipnose só o fascismo é capaz.

A multidão na Paulista vibrando com o capitão, falando por rádio, dizendo que os opositores ao regime a ser instalado deverão ir embora ou serão presos é uma repetição de massas alemãs hipnotizadas pelo “fuhrer”, que vemos em antigos filmes em preto e branco de uma história antiga. Um vídeo onde milicianos ensaiam malhar um judas vermelho do PT com toda a fúria, mostra onde podemos chegar. A morte de um negro Baiano e de uma travesti paulista, a suástica impressa na barriga de uma gaúcha já são horrores anunciados da intolerância que virá.

A única esperança é que o fascismo seja derrotado no dia 28. Teremos resistência – já anunciaram que não aceitam um resultado adverso – , mas ainda poderemos lutar. A eleição do fascismo, pelo voto, se deixarmos acontecer, fere o paradoxo de Popper: “a democracia não pode tolerar a intolerância, pois a intolerância destruirá a democracia”. E aí não existirá ponto de retorno.

Já não importa. Falam da ditadura comunista inexistente, mas querem uma ditadura real do autoritarismo da extrema-direita. Banir ou prender quem pensa diferente é o quê?

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[1] “Ele Está de Volta” é um romance satírico do escritor alemão Timur Vermes, sobre Adolfo Hitler. Foi publicado pela editora Eichborn Verlag, na Alemanha em 2012. Em 2015, uma adaptação cinematográfica homônima foi feita pelo realizador David Wnendt. O filme está disponível no NETFLIX. E vale a pena vê-lo nesses tempos difíceis. A sátira mostra como nos deixamos enredar na atualidade por um discurso condenado historicamente.

PS – quanto a mim, depois de escrever esse texto, vou participar do comício da virada de Haddad nos Arcos da Lapa, na torcida de que, por conta da minha idade, não seja a última manifestação política pública que participarei.

desenho de Gervásio

 

2 comentários em “ELE ESTÁ DE VOLTA?[1]

  1. Excelente artigo! Não sei se poderemos nos manifestar mais, com liberdade de expressão, se o nazimo vencer… E pode estar bem perto!

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  2. O fascismo está nas nossas famílias, nos nossos amigos. Se não conseguimos iluminar as trevas de quem está perto da gente, como achar que vamos tirar esse povo da cegueira? Precisamos confrontar todos aqueles que apóiam Bolsonaro, inclusive via voto nulo( voto covarde de quem “se diz imparcial”), esses são os piores. Precisamos ser intolerantes nesse momento. Excesso de tolerância é frouxidão. E foi isso que nos levou a situação que nos encontramos.
    Lelê Fernandes

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