NÃO FOI UM ACIDENTE, SEMPRE ESSA DESCULPA ESFARRAPADA. É TERRORISMO DE ESTADO

rio armas

Rodrigo, 26 anos, garçom, há pouco tempo tinha saído das estatísticas do desemprego. Segunda feira saiu do trabalho e foi encontrar a mulher e os filhos (um de 4 anos, outro de 7 meses) num supermercado para as compras necessárias com o salário recebido. Na volta, a mulher, os filhos e as sacolas embarcaram numa van. Ele voltou a pé para economizar. Moravam no Morro do Chapéu Mangueira, no Leme, famoso por sua ex-moradora ilustre, Benedita da Silva, ex-governadora do Estado do Rio de Janeiro.

Como a van passava antes na Babilônia (outra comunidade do lugar), Rodrigo chegou antes ao Chapéu Mangueira e ficou esperando a família e as compras na Ladeira Ary Barroso, em frente ao Bar do David, boteco turístico muito frequentado pelos cariocas, na subida para a comunidade. Era um começo de noite ameaçando chuva, incomum no Rio. Rodrigo trazia um guarda-chuva fechado para proteger os filhos, caso chovesse, e um “canguru” (assessório para carregar o filho mais novo, que se usa junto ao peito) pretendendo liberar as mãos para carregar a feira. Postou-se no ponto esperando a família para galgarem as ruelas da comunidade no rumo de casa. Nada de especial naquela noitinha. Parecia que apenas o tempo estava instável.

Justo naquele momento, as Forças de Segurança comandadas por uma intervenção militar no Rio de Janeiro faziam uma “operação” no morro. De longe, o guarda-chuva e “canguru” de Rodrigo, inocentes acessórios de proteção familiar, foram interpretados aos olhos dos militares, que representam o Estado, como um fuzil e um colete salva-vidas usados pelo “inimigo”. Três tiros de fuzil (um tiro no peito, um no quadril e outro na perna) abateram Rodrigo, que, socorrido, já chegou sem vida ao hospital.

A mulher, com as crianças na van, ainda escutou os tiros que mataram seu marido e viu “policiais atirando para todo lado”. Rodrigo não estava mais no ponto esperando a família para levarem as compras em casa. Rodrigo, que tinha acabado de sair das estatísticas do desemprego, passou a integrar as estatísticas de vítimas da violência.

Uma violência de Estado. Um verdadeiro Terror de Estado. Um Estado que trata os moradores das comunidades periféricas do Rio de Janeiro como inimigos. A ocupação desse “território inimigo” tem produzido crimes a civis, condenáveis em quaisquer tribunais militares de uma guerra convencional. Prova da equívoca e absurda guerra às drogas. Essa ocupação funciona, de fato, como controle da população pobre, parda e preta da periferia. E talvez seja essa a justificativa indizível desse terrorismo de Estado.

Os dois filhos de Rodrigo, órfãos precocemente, serão criados pela viúva e, talvez, se tiverem sorte, com a ajuda de uma avó. Serão mais outras crianças criadas por mãe e avó, sem a presença paterna como tantas outras.

O inacreditável é que Mourão, general da reserva e candidato da extrema direita à vice-presidência da república, coincidentemente à tragédia que se abateu sobre a família de Rodrigo, discursava em sua campanha: “Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”.

O general não conseguia ver que no caso de Rodrigo, o Estado provocou a situação de orfandade, o que não é incomum. E ofendeu, de forma acintosa e irresponsável, mais de 11 milhões de mulheres que enfrentam sozinhas as dificuldades para dar um futuro melhor a seus filhos. E o Estado, o qual o general tem pretensões de chefiar, não faz a sua obrigação de oferecer oportunidades a esses jovens, tratando-os como inimigo numa guerra insana. O general, insolente e arrogante, culpa a vítima por um crime cometido pelo terrorismo de Estado.

A história de Rodrigo é só mais uma numa ocupação desastrosa de forças de “segurança” que semeiam a insegurança e mantam o futuro de uma geração que nasceu na periferia.

É preciso interromper o terrorismo de Estado. É preciso parar as pretensões fascistas e derrotar a extrema-direita nas próximas eleições.

“A cadela do fascismo está no cio”.

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desenho: Dino Alves

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