ARMARAM O CIRCO: HERÓIS MATAM E NINGUÉM CONTESTOU O GENERAL

Miriam Leitao.JPG

Estar entendendo o que acontece nesse momento crucial que o país vive exige sacrifícios inimagináveis. Imaginem os senhores que me dei ao trabalho de assistir uma hora de entrevista na Globo News com o General Mourão, enfrentando náuseas e revoltas com a pequenez de um generalzinho que personifica bem a expressão “banalidade do mal” de Hannah  Arendt.

E digo a patente pejorativamente, pois Mourão é da minha geração (sou mais velho dois anos) e eu conheci vários projetos de militares em colegas da minha juventude. Enquanto estávamos nos revoltando contra o golpe militar que nos atingia muito jovens ainda, os imbecis que conhecíamos iam à direita marchando incontinente com os militares e o partido único inspirado no lacerdismo anterior, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA, o MDB foi criado como contraponto para fazer de conta que estávamos numa democracia). Conheci vários entre civis e militares de hoje. Alguns colegas de profissão. São medíocres renovadores do nada. Um muito famoso hoje, pela mediocridade e boçalidade, é ex-senador da república pelo meu Estado, foi da “Arena jovem” – um aliciamento de jovens ambiciosos e inescrupulosos para a política de sustentação do golpe militar de 64. Em cada resposta do Mourão eu via os argumentos simplistas e banais para pregar e defender o mal que ditadura militar produziu na boca de alguns colegas de juventude. Imaginem o meu sofrimento recordando tais asneiras e imbecilidades juvenis que tinham envelhecido. Fecho o parêntese pretendendo ter esclarecido sobre meu desprezo àqueles colegas de juventude que foram encarnados em Mourão na entrevista com os jornalistas Pereira, Merval, Leitão, Lobo, Camarotti, Sadi e Gabeira.

Mas foram os entrevistadores (que se portaram como interrogadores implacáveis e ferrenhos na entrevista anterior com Haddad) que mais me incomodaram. Ficaram acariciando o general como se fossem domadores de leão num circo para todo Brasil. Não aprofundaram qualquer resposta imbecil dada pelo general. Tentaram mostrar que o entrevistado era um homem manso e cordial e não o animal enfezado produzido pela ditadura militar. Até deixaram que ele reafirmasse a tese racista e anacrônica de que nosso caráter foi moldado pela indolência do negro e a preguiça do índio. Apenas fizeram uma correção da tese e deixaram no ar que o general foi mal entendido.

O assustador foi a postura de Gabeira e Miriam Leitão. Negaram seu passado para aceitar as teses do general. Aí o vômito foi incontrolável. Como pode a alma humana descer tanto assim na acareação com um representante de torturadores? As sevicias praticadas contra prisioneiros foram tratadas com cordialidade e dentro da tese de que “estávamos em guerra”. Nem sequer foi questionado que numa guerra alguns códigos são respeitados e a tortura e assassinatos são proibidos pela Convenção de Genebra. Assustador. O general reafirmou os valores anti-humanitários dos quarteis da ditadura militar e os dois jornalistas – sabedores dos crimes, Gabeira com perseguido político e a jornalista marcada na própria pele – não foram capazes de um posicionamento digno da memória nacional.

Realmente, vivemos tempos tenebrosos. Fez-me mal assistir aquilo. Mas o pior ainda estava por vir. Miriam questionou o general se ele mantinha Ustra como herói, torturador condenado na Comissão da Verdade por assassinatos políticos. O general responde que heróis matam. Heróis matam, simples assim. E não mais se questionou sobre os crimes desse herói. Miriam mudou de assunto – justo depois dessa frase – para perguntar sobre a Reforma da Previdência. Parece ter concordado com a tese de que heróis matam. E como devota admiradora do herói neoliberal, Mirian quer saber de que forma seu novo herói vai matar a velhice dos trabalhadores. Realmente um crime comparável aos crimes do “herói que mata” endeusado pelo Mourão.

Como acho que uma charge fala muito mais do que palavras, pedi ao meu amigo Gervásio uma ilustração para essa inominável constatação. Nada que eu diga pode descrever o nojo que eu senti.

 

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PS 1 – POUCAS PALAVRAS NECESSÁRIAS SOBRE A FACADA NA POLÍTICA:

O meu medo nesse momento é que algumas pessoas venham a oferecer a loucura do cara, que esfaqueou Bolsonaro, na justificativa do ato e assim ficar solidária à volta dos manicômios. Bem de antemão quero esclarecer que o momento de ódio vivido pode abalar a frágil estrutura psicótica e propiciar passagem ao ato paranoico. O DELÍRIO ESTÁ CALCADO NA REALIDADE. Estamos vivendo uma loucura no ódio que foi plantando entre nós. Também o manicômio não dará conta da nossa loucura. POR UMA SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS e por uma saúde mental de todos nós. Foi a loucura de todos nós a culpada do atentado ao candidato que pregava o elogio dessa loucura. Não só a mão que empurrou a faca.

 

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PS – SOBRE VÍDEOS DE MALAFAIA, MAGNO MALTAS ET CATERVA NO LEITO DE BOLSONARO:

O que estou vendo já é participação política dos médicos que cuidam do caso, o que é anti-ético e absolutamente condenável. Quando eu fui militante e filiado a partido (não sou mais nem um nem outro) NUNCA atendi paciente usando qualquer adesivo. Deixar o CTI de um hospital virar palanque político é abominável. E atenta contra a segurança médica do próprio paciente.

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desenho: Gervásio

2 comentários em “ARMARAM O CIRCO: HERÓIS MATAM E NINGUÉM CONTESTOU O GENERAL

  1. Grande , grande Edmar! Nem no meu pior pesadelo eu poderia pensar que um dia assistiríamos a estas cenas obscenas !!! Ironia da vida Gabeira e Miriam Leitão se curvam ao pior da direita deste país ! Vergonha do jornalismo brasileiro que, aliás parece que morreu por falta de pensamento crítico . Docilidades felizes …

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