A METÁFORA DO FIM

 

Museu em chamas

Como uma metáfora, o fogo que destruiu duzentos anos de história abrigada no Museu Nacional queima o fim de uma nação transformada em cinzas. Um país que não quer história nas escolas, acusa a tolerância ao diferente como ideologia de gênero, ressuscita o ódio escravagista aos pobres, quer distribuir armas aos homens “de bem”, prega a intolerância à cultura e cultiva a ignorância congelando gastos com saúde educação, pesquisas e, claro, aos museus, está doente. Isso não é prioridade da economia neoliberal (periférica, é óbvio, por que não se admitiria tal atentado ao Louvre, ao Prado ou ao Museu Britânico).

Um país governado por quem trata a história com “doutrinação ideológica”, corta gastos com a PEC do teto de recursos públicos para os mais necessitados, enquanto garante isenções fiscais ao andar de cima, propicia a barbárie.

Após apenas dez anos que trouxe a corte portuguesa aos trópicos, D. João VI inaugurou o Museu Real no Campo de Santana, reunindo o legado da antiga Casa de História Natural, criada no século XVIII, agregando coleções de mineralogia e zoologia. Três anos depois da Proclamação da República, já batizado Museu Nacional foi abrigado no palácio imperial da Quinta da Boa Vista em São Cristóvão. A edificação é tombada em 1938 e oito anos depois é incorporado à UFRJ. Ainda no século XIX já era reconhecido como o maior museu em seu gênero na América do Sul. Em duzentos anos ele deveria comemorar seu legado histórico, que foi interrompido.

Era lá que podíamos observar a história natural do planeta com relíquias adquiridas ao longo de nossa história. Um verdadeiro mostruário de peças geológicas, paleontológicas, botânicas, zoológicas, antropológicas biológica, arqueológicas e etnológicas que fascinavam as crianças de todas as idades. Meus filhos se encantaram na sua meninice e, creio, se uma fez história e outro, geologia, o Museu tem uma certa parcela de culpa. E a outra filha que fez direito, bem sabe que os culpados por esse crime de lesa pátria não serão penalizados pela culpa que carregam, pois nossa legislação protege os poderosos.

Todas as vezes que visitava o Museu me preocupava com aquele tesouro que não era prioridade de nenhum governo. Lembro uma sala com esqueletos pré-históricos que uma vez estava interditada por causa de cupins. O teto de madeira era um atrativo para esses “isópteros” ainda vivos e que não faziam parte do acervo cientifico. O fogo era uma preocupação, mas eu achava que a manutenção teria, pelo menos, uma brigada anti-incêndio de plantão para uma emergência.

Estava enganado, o incêndio foi visto de fora, por um guarda municipal, quando o fogo já era alto. Os bombeiros até que vieram rápidos, mas água não tinha. E, em poucas horas, duzentos anos do nosso passado foram consumidos pelas chamas.

A indignação fica por conta de saber que a verba de manutenção do Museu era equivalente a um salário anual de um ministro do Supremo Tribunal Federal. E que neste ano nem vinte por centro desse recurso tinha sido repassado. É triste saber que os proventos de uns merdas desses podem pagar a manutenção de todos os museus do Rio. E suas excrescências politizaram o judiciário e não serviram para garantir a nossa constituição rasgada para que um golpe nos levasse ao fundo do poço enquanto nação. Ao contrário, aprofundaram o golpe.

Se a culpa do descuido vem de muito antes, de vários governos passados, a irrupção desse incêndio serve como metáfora de que a pátria queima no fogo de um inferno conservador, que ameaça nosso processo civilizatório. E o fim do Museu Nacional é um duro golpe no nosso processo civilizatório.

Um país que deixa queimar o seu passado não pode ter futuro!

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desenho: 1000TON

7 comentários em “A METÁFORA DO FIM

  1. blz, edmar

    estou em bsb

    tentando continuar meu trabalho aqui na câmara..

    um bico pra ganhar algum pra minha sobrevivência

    aqui, o governador rollembrg está em baixa..

    abraços

    chico

    ________________________________

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