A PREVIDÊNCIA PRIVADA: UM FUTURO DESESPERADO

COBRA COM CIFRÃO

Jorge (84) e Elza (89), um casal de velhos chilenos chocou o país quando cometeu suicídio para “partirem juntos” e não “seguir molestando mais” familiares e vizinhos, entre tantos outros suicídios de idosos no Chile. O Instituto de Estatísticas e o Ministério de Saúde do país estimam que a taxa de suicídio entre 65 a 69 anos é 50% maior que a taxa média nacional e nos maiores de 80 anos a taxa sobe a 70% do esperado na população.

Na década de 80 do século passado, o governo ditatorial de Pinochet acabou com a previdência pública e instituiu a previdência privada como querem fazer entre nós. O resultado pode ser visto agora. Entre falências que deixaram a ver navios alguns fregueses da previdência privada, 90% dos aposentados chilenos recebem até 60% do salário mínimo do país, quantia cada dia mais insuficiente para os gastos de um idoso com medicamentos. O desmantelamento do sistema de saúde deixa a míngua e desamparados idosos com enfermidades crônicas.

Entretanto, a saúde financeira dos Administradores dos Fundos de Pensão é maravilhosa. São 170 bilhões de dólares aplicados em mercados especulativos. As empresas são as mesmas que já estão operando entre nós com seu canto de cisne: BMG Pactual, MetLife, Prudential Financial, Sura, entre outras multinacionais de captação do sonho previdenciário de incautos.

O feitio previdenciário da ditadura de Pinochet foi cantando em prosa pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como modelo a ser seguido pelo liberalismo na América Latina. Foram precisos mais de 35 anos para mostrar o resultado desastroso causado pela previdência privada no Chile: os aposentados chilenos de hoje não podem sobreviver com o que lhes é pago depois de anos dedicados na construção do país. Os velhos estão condenados à morte lenta e sofrida num verdadeiro genocídio. José Aravena, diretor da Sociedade de Gerontologia do Chile constatando o aumento gritante de suicídios e casos de depressão e dependência desabafa: “Para ninguém é justo viver os últimos anos de sua vida sentindo-se triste ou com vontade de não seguir vivendo”.

Entre nós, nem a ditadura militar ousou mexer na legislação trabalhista e de proteção social como estão fazendo os neoliberais golpistas de hoje. Sou um dos contemporâneos dos velhos chilenos e posso ter uma velhice razoável, mesmo vitimado por congelamentos de salários e toda sorte de injustiças cometidas aos direitos sociais. E antevejo neles o que acontecerá com a geração de agora daqui aos 35, 40 anos possíveis de trabalho.

Ou essa geração briga por seus direitos agora, ou terá uma velhice em que morrerá à mingua, com risco de cometer suicídio. A luta é agora enquanto ainda tem forças para lutar. Se o neoliberalismo matar a previdência pública matará os velhos que serão os jovens de hoje. À luta, meninada!

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desenho: Dino Alves

 

2 comentários em “A PREVIDÊNCIA PRIVADA: UM FUTURO DESESPERADO

  1. Triste realidade, fielmente retratada. E a meninada? Bem, último boletim da UNICEF sobre o Brasil: 6 em cada 10 adolescentes são pobres!

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  2. Mon cher,

    Os militares não conseguiram, mas os neoliberais vão matar a previdência pública.

    Alíás, esta matança começou em 64, quando o Castelo Branco nomeou Leonel

    Miranda, o rei dos manicômios privados do Rio, para assumir o Ministério da Saúde.

    O Chile foi o grande laboratório do neoliberalismo na escola de Chicago, na época

    tinha como guru o famigerado Milton Freeman ou coisa assim..

    Bom artigo,

    nacif elias

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