O BODE NA SALA

direita voraz

Não é de estranhar o desempenho de Bolsonaro nas pesquisas. Segundo lugar, se Lula puder disputar, primeiro se não se deixa o ex-presidente participar da disputa. Outro dia aconteceu nas ruas do Leme, bairro de “gente de bem” desse país que procura seu destino: policiais desciam com feridos de um tiroteio com supostos traficantes, mas não ainda comprovado, e a malta dos “homens de bem” pediam a execução dos supostos “homens do mal”. “Mata, mata” era a solicitação da horda.

Conversas entreouvidas nos bares, cabeleireiros, supermercados e outras aglomerações – ou mesmo entre vizinhos – aspiram por uma falsa segurança da eliminação física dos supostos “homens do mal”. Geralmente negros, pobres, moradores de favelas. A extensão do ódio atinge os moradores de ruas, os meninos “drogados”, intoleráveis nas nossas vias públicas. E clamam para que a polícia resolva a questão social, como se fazia até os meados do século passado e vinha sendo superado no começo desse século. Retrocedemos. Ainda se pede uma intervenção militar num Rio de Janeiro já sob a tutela de tal intervenção que, absolutamente, nada conseguiu mudar no combate à criminalidade – para que foi feita. Apenas acirrou as mortes na periferia, já que foi concebida na lógica da guerra às drogas – há muito criticada como absurda e que gera mais mortes que as drogas que as forças de segurança pensam combater.

As mortes de uma vereadora e seu motorista completaram noventa dias sem qualquer elucidação do crime em um estado sob intervenção militar para a segurança pública. Um crime que tem como suspeitos políticos, policiais militares e milicianos – essa parte criminosa das forças de segurança com que nos habituamos a conviver. Recentemente em Laranjeiras, bairro nobre da zona sul da cidade, duas agências bancárias foram explodidas (uma delas duas vezes), segundo rumores, para forçar a instalação de cancelas e segurança privada na região. Feito digno de milicianos que assim sempre procederam na periferia da cidade e agora se aproximam das zonas nobres por absoluta impunidade nas ações desses bandidos.

O ódio à uma esquerda que só existe na imaginação dos criadores brotou nas mídias, nos discursos dos políticos, na opinião pública e foi contaminar o fascista adormecido das classes médias. O fascismo sai do armário sem nenhuma vergonha para preparar a intolerância e conservadorismo deste país para a improvável candidatura de Bolsonaro.

A direita “civilizada”, que tinha colocado o bode na sala, agora propõe uma união em torno de um candidato de centro para evitar a vitória dos extremos (a direitona de Bolsonaro e qualquer esquerda do outro lado). Assim o bode é retirado para que a direita “civilizada” mantenha o poder e tenhamos a sensação de que algo mudou. Afinal, Bolsonaro na sala já destruiu o sofá e começou a morder os princípios civilizatórios que ainda possuímos.

Para manter o poder a direita “civilizada” tenta a união em torno de um candidato único, coisa que as esquerdas nunca conseguiram e não vai ser agora, mesmo correndo o risco de perder as eleições. Aliás se tiver eleições, pois a direita tentará novo golpe com a suspensão das eleições se se sentir ameaçada de perder. Não à toa está sendo aprovado uma emenda de eleição indireta se Temer não conseguir chegar à reta final. O problema é se o bode que a direita colocou na sala não quiser sair e os gorilas quiserem participar da festa.

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desenho: Dino Alves

PS – para os muito novos, o bode na sala é uma referência a uma anedota antiga: morador de um vilarejo tinha sérios problemas em casa. Recorreu a certo guru para tomar conselhos. “bote um bode na sala”, receitou o tal guru. Os problemas do homem pioraram e agora o bode era parte deles. Comia o sofá, arruinava tapetes, cagava na sala. Voltando ao guru o homem reclamou que seus problemas aumentaram muito. “Tire o bode da sala”, receitou o guru. Tempos depois perguntou: “como estão os problemas agora”? O homem resignado respondeu: “melhoraram muito”.

 

3 comentários em “O BODE NA SALA

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