UM PAÍS ABANDONADO

dINO SUICÍDIO

Nos tempos das discussões antes do golpe de 2016, quando as posições começaram a tender para uma polarização, ouvi os argumentos de um casal, na casa de um amigo, favoráveis ao impeachment da presidenta. O país precisava tirar a presidenta para sair do buraco em que se metera. Consumado o golpe, com o aprofundamento da crise, com a retirada de direitos sociais e sem qualquer melhora nos rumos da economia, soube que o casal – empresários do ramo de produção artística – mudara-se para Portugal. Com meus botões aqui pensei: “eles torceram para esculhambar o país e vão embora”. Me parecia um anacronismo. Se apoiaram o golpe deveriam estar satisfeitos com a situação que ajudaram a provocar. Não estavam.

Depois soube que Portugal foi invadido por coxinhas na busca por um melhor lugar para morar. Aí fiquei sem entender. Torceram para cair um governo com algumas preocupações de esquerda e não gostando do resultado que provocaram foram pra Portugal. Não devem ter a menor ideia de que o atual progresso português deve-se a uma coalizão de esquerda (chamada literalmente de geringonça). Claro que a falta de modos e de cultura, típicos de quem pensa ainda estar na guerra fria (e nos mandaram pra Cuba até confundindo a bandeira da ilha com a da Catalunha), desagradou aos patrícios e os brasileiros deixaram de merecer boas-vindas na terrinha deles. Eu, que costumava ir por lá, desisti – com medo de ser confundido com um dos invasores indesejáveis.

Claro que a consumação do golpe, retirando direitos sociais dos mais elementares, provocando um desemprego de treze milhões de jovens, impedindo que um candidato favorito dispute a próxima eleição, possa provocar uma desesperança nos velhos – que vêm a repetição de uma história já vivida. Se este é meu caso, esperava que a situação devesse estimular nos jovens uma vontade de resistência para enfrentar a realidade em que fomos metidos.

Noutros tempo foi assim. O governo era quem bania os lutadores e eles teimavam em voltar até arriscando uma clandestinidade perigosa. Temo que não seja mais assim.

Outro dia conversava com alguns jovens que se colocam no campo das esquerdas, têm um conhecimento dialético da política, preocupam-se com a situação atual, mas buscam – infelizmente – uma saída pessoal. Ouvi de vários a busca de uma cidadania hereditária para uma fuga da situação em que vivemos.

Sei que a globalização de hoje nos permite asas para ultrapassar fronteiras. Eu mesmo tenho um sobrinho na Alemanha e outro na Austrália, voos impensáveis para uma família do interior do Piauí da minha geração. E uma amiga mais jovem, outrora colega de trabalho, acabou de se mudar para uma ilha no meio do Pacífico, por não suportar a situação irrespirável pós-golpe.

Ainda não é uma situação que altere o processo, apenas saídas individuais que não merecem um julgamento e que não quero estar fazendo. Mas me preocupa a desistência dos jovens com a pátria mãe. Não só os que esculhambaram o país estão indo embora. Muitos que poderiam tentar consertar as coisas também têm desejos de abandonar o país.

E um país abandonado não tem conserto.

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desenho: Dino Alves

 

2 comentários em “UM PAÍS ABANDONADO

  1. legal, edmar,

    mas acho que tudo tem conserto, sim..

    veja, no meu silêncio de que lhe falei, acho que no zap…

    disse que ia me fechar um pouco em função da polarização hoje vigente no brasil..

    não queria lhe falar, mas vou lhe dizer…

    não acho lula um preso político, mas um político preso..eu disse, acho..

    presos políticos são os 350 mil que estão amontoados em masmorras e que nunca foram sequer a julgamento..

    tenho esperanças, sim, de dias melhores..para o brasil..e para o mundo..

    houve crises piores na nossa história, e nós a superamos, nós, o povo brasileiro..

    que vc tenha um excelente feriado..

    ah, não achei no blog piauinauta o texto do geraldo borges sobre meu poema dallas..

    chico

    ________________________________

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  2. mon cher,

    separaria nossa patrícia. o motivo de sua ida para os confins do pacífico foi o

    momento em que nos encontramos, mas é nobre. ela foi trabalhar dar um pouco de si

    para outros encontrarem um caminho de um novo lar. aqui, ela foi tolhida. não pode assistir

    a quem ela almejava: os mais necessitados. isso é terrível para quem se dedica ao seu

    semelhante.

    os coxinhas não sabem de nada. se acham que vão fazer especulações na terra lusa, estão

    redondamente enganados. aliás, na terrinha, há muitas exigências para que lá permaneçam.

    bom artigo. ótima leitura.

    nacif

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