O RETORNO DO MAL

transorbital

Hoje vendo um vídeo de uma tevê mineira sobre o “sucesso” de uma psicocirurgia num paciente psiquiátrico, a ficha caiu de que retrocedemos para os meados do século passado, quando a ideologia do nazi fascismo ainda não estava totalmente derrotada com o fim da Segunda Grande Guerra.

Já vinha sentido o retrocesso que vivemos nesses tempos da vitória do neoliberalismo, mas ainda não tinha ficado cara a cara com o passado. Ele estava no vídeo, onde apresentavam a “bem sucedida” psicocirurgia do paciente psiquiátrico. Mais especificamente no facies amorfo do tal paciente. Meu sangue gelou. Estava olhando para um dos muitos pacientes que conheci na década de 1980, na Colônia Juliano Moreira, que tinham sido lobotomizados. O mesmo olhar morto, a mesma face sem nenhuma expressão humana. Como uma dócil e obediente ameba humana se deixava levar pelos familiares, sem nenhuma resistência ou qualquer expressão da vontade.

Na cabeça as marcas de uma intervenção cirúrgica. O jovem neurocirgião, explicando o “sucesso” de sua intervenção descreve o procedimento com igual técnica usada pelo Egas Muniz. Egas Muniz foi o inventor da lobotomia em 1935. Uma cirurgia cerebral para acalmar pacientes psiquiátricos. Absurda e já fora de uso desde o invento dos medicamentos psiquiátricos. O estudante de medicina do vídeo não conheceu a história de sua profissão e revela segredos assustadores. Bem que quiseram diferenciar a tal psicocirurgia da antiga técnica. O garoto mostra didaticamente o procedimento: “a gente faz uma incisão no cérebro e com uma agulha a gente causa uma pequena lesão controlada deste local” para conter a agressividade do paciente. Exatamente a mesma técnica invasiva e cruel do Egas. Ele não disse como agora se fazem os cálculos para achar a área lesada. Nada que um computador não possa ajudar a decidir a tal área a ser lesionada. Seu antepassado calculava a parir das áreas de funcionamento cerebrais conhecidas à época. Meninos, eu vi o resultado no olhar de peixe morto do paciente. O mesmo dos pacientes que conheci na minha juventude.

Na Colônia Juliano Moreira havia um pavilhão, chamado sintomaticamente de Egas Muniz, onde se fazia essas cirurgias em alta escala. Já havia sido abolido o método pioneiro cerebral. Agora se fazia a lobotomia transorbital. Não se precisava abrir o cérebro, fontes de infecção que causava muitas mortes por efeitos colaterais da cirurgia. Inventaram anestesiar localmente o canto do olho por onde era enfiado um estilete como se fosse uma tesoura fechada e invertida no corte. O tecido cerebral é muito sensível, mas indolor, o que evitava reclamações inadequadas. No tecido cerebral o estilete era aberto, fazendo o corte e concluindo a lobotomia em minutos. O paciente saía andando sem ninguém se importar o que ele estava sentindo. Certo que não reclamava. Acharam cruel? Assistam ao vídeo para entenderem a técnica moderna atual:

https://www.youtube.com/watch?v=ZYX5BBPRW70&feature=share

Caso Lúcio Neoman

Lucio conjunto sem texto
Lúcio: escultura antes da lobotomia à esquerda. No centro, loco após a cirurgia. Á direita uma das garatujas que fez no seu retorno ao atelier muito tempo depois.

Curioso é o caso de Lúcio Neoman, paciente de Nise da Silveira. Levado ao atelier em 1948, logo se dedicou à modelagem, elaborando pequenas estatuetas de admirável valor estético. Pelas obras de notável qualidade artística foi um dos artistas levados pelo crítico Mário Pedrosa à exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo em outubro de 1949.

O ano de 1949 foi também o ano que Egas Muniz recebeu o prêmio Nobel pelo desenvolvimento do seu método revolucionário que já vinha sendo aplicado em todo o mundo. Apesar de algumas melhoras no aelier, Lúcio era um paciente agressivo e o seu médico da enfermaria, autorizado pelos familiares, fez a indicação de lobotomia para conter os impulsos agressivos. Nise se opôs veementemente, mas não teve condições de evitar. Conta a lenda que ela ainda teria dito ao seu colega: “vocês vão decapitar um artista”.

Uma das esculturas feitas por Lúcio após a cirurgia mostrava um cérebro cindido por uma serpente, como se a retratar o processo da lobotomia. Segundo Nise estava atendido um dos objetivos da cirurgia: separar o pensamento de suas ressonâncias emocionais. O combate entre o bem e o mal, que resultava no seu trabalho anterior, foi reduzido, segundo as palavras do próprio Lúcio em “briga de gato e rato”. Não mais se interessou em fazer sua atividade pelo alheiamento acometido pós-cirurgia.

Muito tempo depois houve oportunidade de trazer Lúcio de volta ao atelier. As garatujas que produzia, ilustrado na figura acima – à direita – mostravam a anulação de sua capacidade criativa pela lobotomia.

Apenas esse trabalho seria suficiente para deixar o nome de Nise na história da psiquiatria, condenando prática tão nefasta.

Em tempos de fascismo a lobotomia retorna. Horrível!

2 comentários em “O RETORNO DO MAL

  1. …o trabalho que faço é de Resistência pois, estou há anos dentro do manicômio (citado) e digo que ‘contenção’ e remédios neurolépticos associados a SOS
    (+ neurolépticos) sobre corpos que gritam “me ajude” sem eco, significa uma prática comum daquilo que nomeei lobotomia fenomenológica, quando a pulsão fica sem objeto , daí galopa por algum tempo mas rapidamente se dá conta da falta do objeto (que impulsiona à [há] vida) e aí fenece, fica inerte no gerúndio.
    Hoje voce diz que retomam com a prática objetiva, metonímica, perversa mas , a cada letra que escrevo e digo quando vou ao campo de Luta , percebo que nao há problema na técnica (lobotomia ou o novo significante agora realizado” pelo olho sem anestesia” etc) mas ,
    naquilo que a coloca em prática:
    a pessoa (‘profissional de saude’) que gosta de lobotomizar metonímica e também fenomenologicamente pois a prática nunca foi abolida. As práticas dentro da instituição total são de guerra mas quem as vivifica nao sao instituicoes mas pessoas, homens e mulheres que se dizem “ótimas pessoas” , e por causa delas me apresento como “péssima pessoa ou,
    outra coisa diferente de ‘boa’ ”
    já que eu mesma jamais permiti lobotomia ou contenção química ou física sobre alguém que esteja sob os meus cuidados (éticos) quiçá,
    conceitos manicomiais como “surto”, “agitado”, “hipersexualizado”.
    Lamento o seu susto mas agradeço se você voltar à Luta pois os “bons”, creia, estão mais instrumentalizados com as suas caras de pau, suas desonestidades, suas técnicas científicas e leis
    sem nenhuma Lei .
    Uma coisa que faria Torquato se matar de novo, Lima beber mais, Artaud chorar, Bispo costurar chamando por Deus e Orixás….;
    na verdade só vim mesmo foi mostrar o meu olhar, meu olhar, meu olhar….

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  2. Absolutamente consternado. A fascismo volta com todas atracidades em todas as áreas da vida humana…
    Até quando???

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