UM TRANSPORTE PÚBLICO SÓ PARA OS POBRES. FALANDO DE TERESINA

Inthegra Dino

Em Teresina, como outras cidades do nordeste, a classe média não anda de transporte público. Diria mesmo que a linha de corte entre os que se julgam acima e os abaixo numa divisão de classes é a posse física de um automóvel. O automóvel separa os pobres dos ansiosos por estarem na classe média. O automóvel médio, pois os ricos fazem sua diferenciação por carrões tipo Hilux. Só os pobres usam transporte público. Daí a sua miséria. Do transporte público e dos pobres. A divisão de classes pode ser observada entre os que usam transporte público e o tipo de automóveis circulantes.

Já se disse que uma cidade civilizada é a que todos se locomovem em transportes públicos e não pela posse necessária, diria, do automóvel.

Uma vez, em Teresina, quis saber como era andar nos ônibus que circulam na cidade. Estava hospedado na casa de um irmão, num bairro distante. Não aceitei o carro que ele queria me emprestar, o que foi muito estranho para ele.

Fui ao ponto de ônibus. Primeiro, a espera é desesperadora. Não só pelo tempo que se perde, que é tanto que tive de perguntar se ali era mesmo um ponto de ônibus, mesmo sem ter pressa alguma. E eu pegaria qualquer um, como quase todo mundo. O ponto final de quase todos, saindo dos bairros, era no mercado central. Segundo, pelo local da espera. O sol inclemente incide sobre as cabeças desguarnecidas como se fosse rachar. Não raro a sombra de um poste de luz é ocupada como se fosse fila. Não para o ônibus, mas para aproveitar a sombra no comprido. As paradas são feitas por arquitetos que nunca andaram de ônibus. Não se prestam a abrigo. Nem de chuva, nem de sol.

Quando o ônibus chega tudo se desmancha e a multidão quer entrar de uma só vez. Não compreendi não ter fila por ordem de chegada. O ônibus, quase lotado, completa a lotação e alguns vão em pé. Poucos descem e muitos sobem e o ônibus fica mais cheio. O calor, o suor, o cheiro dos suores misturados impregnam o ar. E ainda eram nove horas da manhã. Quem está sentado não cede seu lugar a ninguém. Ficam agarrados a um direito conquistado na força bruta desde o entrar primeiro. O motorista, de uma gentileza áspera. Corre desesperadamente como se tivesse hora para chegar e talvez tenha. Dá freios de arrumação em que a maioria dos passageiros ri ser reclamar. Para nos pontos bruscamente. Num desses, uma senhora foi ao chão. De novo várias pessoas riram e eu reclamei firmemente com o motorista. Disse que ele era um condutor de passageiros e era responsável pelos seus conduzidos. Todos me olharam como se eu fosse um extraterrestre que tivesse pegado aquela condução em que era natural o que estava acontecendo.

Simples assim. Transporte público só para pobres, para os despossuídos, ninguém se importa. E muitos que estão ali dentro, estão fazendo economia para dar uma entrada no seu automóvel e escapar daquele martírio destinado aos pobres. Mudar de status. Deixar de ser um pedestre. Pois em Teresina, ter um automóvel – para muitas pessoas – é muito mais importante do que ter uma casa. É a possibilidade de locomoção sem sofrer as agruras do transporte público destinado à classe dos despossuídos.

No Brasil o transporte público é muito ruim, mas melhora muito quando a classe média começa andar nele. Os ônibus no Rio, pelos menos os que circulam na zona sul e centro são razoáveis, muito poucos sem ar condicionado. O metrô fora do horário de pico é confortável. Alguns trens já possuem ar. Eu ia a Manguinhos em bons trens, raramente um não tinha ar. Se bem que eu ia confortavelmente contrário ao fluxo. No pico eles são insuportáveis. O transporte ainda é um problema da cidade.

Recentemente a febre de corredores exclusivos para BRTs (Bus Rapid Transit, nesse aculturamento globalizante) resolveu alguns problemas e gerou outros. No meu ponto de vista, o principal é não ampliar o metrô, mesmo que de superfície nos corredores exclusivos.

O que me motivou escrever essas impressões foi a inauguração do BRT teresinense e seu projeto INTHEGRA. Da última vez que lá estive estavam construindo aquelas estações no canteiro central das avenidas. Temi pelo corte de árvores centenárias. Nas redes sócias tenho vistos ônibus cheios, pessoas passando mal e os mesmos problemas que observei quando andei nos velhos ônibus da cidade.

As estações no meio das avenidas – imitando as do sudeste e sul, mas sem os cuidados de acesso – acabou fazendo uma vítima fatal, quase que junto a inauguração do novo sistema.

Mas se a classe média não deixar os seus carros para usar rotineiramente o transporte público, ele não vai melhorar. Inconscientemente estamos dizendo que esse sistema público só é necessário aos desvalidos. E o sistema se adequa a uma clientela que não reclama e nem tem voz, mesmo se quisesse.

Lembrando: uma cidade evoluída é que todos usam transporte público, não a que todos têm um automóvel!

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desenho: Dino Alves

PS. No Distrito Federal o sistema é meio parecido com o de Teresina, mas a capital do país vive uma realidade paralela à nação.

Um comentário em “UM TRANSPORTE PÚBLICO SÓ PARA OS POBRES. FALANDO DE TERESINA

  1. Mon cher, lembro-me de uma ida à Teresina e fui andar de metrô. O
    Gabriel era pequeno, 5 para 6 anos, e tinha vários amiguinhos na Arêa Leão, onde meus pais
    moravam. Arrebanhei uma porção deles e fomos ao metrô, que tomamos nas proximidades da
    ponte metálica e fomos até o bairro do Dirceu. Achei interessante e, pensei, o maluco do Alberto
    Silva teve uma ideia interessante. Anos depois, em outra viagem à nossa capital, a tristeza.
    O metrô abandonado, caindo aos pedaços, mas ainda trafegando. Como andará agora? Penso
    que não existe mais. Mas, esta nossa capital é rica e a classe média, toda ela empregada de
    governos corruptos só querem os pobres para servi-los. Continuam querendo escravos. No assassinato
    de Marielle nunca pensei encontrar-me com Hidds tão escrotos. Mas, mesmo assim, vamos vivendo
    de amor. Eles fingem que me amam, eu finjo que acredito. Vou abrir o Nelsinho.
    abraços,

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