NÃO HÁ DIÁLOGO COM O FASCISMO. É DA SUA NATUREZA.

Marielle Dino

Quem não tinha entendido que entenda agora, antes que seja demasiadamente tarde, se já não for. Foi o barulho das panelas que despertou o fascismo que dormia em berço esplêndido desde que se fingiu de morto e não foi exemplarmente justiçado quando acabou a ditadura militar. Estava aí entre nós. Dormindo ou trancado no armário, aí estava. No apartamento do vizinho, no sorriso simpático daquele primo querido, na inocente velhinha que passeia com seu cachorrinho, na moça bonita da praça, no rapaz simpático com suas tatuagens de paz e amor. No bar da esquina, no salão de beleza, no shopping, no cinema, na zona sul ou na favela. E quando ele despertou trouxe a intolerância com ele, pois não há diálogo que o faça mudar de ideia. É da sua natureza. E foi aquele barulho de panelas batidas por pessoas com a camisa da seleção que interrompeu o sono fascista. Ele está raivoso, dando palpite nas redes sociais, na boca do velhinho que parecia bondoso, na raiva da moça que deixou de sorrir.

Chegamos ao canto do ringue, esmurrados por um governo que tira direitos e se ninguém reclama, tira mais. Chama os militares para por ordem na casa em que não são os bandidos mais perigosos que os mocinhos. Aceitamos uma democracia grega onde os cidadãos da casa grande têm todos os direitos e da senzala só deveres. O morador da favela é fichado, revistado, tratado como se bandido fosse, sendo obrigado a provar que não cometeu crime algum, mas assim mesmo pode ser vítima de uma guerra que acontece no lugar onde mora. E que só recebe do estado a força bruta da polícia e nenhum serviço que o poder público deveria ofertar.

Marielle era uma negra, moradora da periferia, que ousou entrar na casa grande pela porta da frente, sustentada por quase cinquenta mil votos nas urnas. E trouxe pra casa grande a voz da senzala. Falou o que todos sabem e se calam – que a polícia militar do Rio é a que mais mata os negros, pardos e pobres da nossa periferia. Gritou e foi incumbida de fiscalizar uma intervenção militar desastrada e sem propósito, apenas para a espetacularização e recompensa política dos governantes. Ao mesmo tempo tentava empoderar as mulheres, os negros, os homossexuais, as minorias oprimidas dessa pátria madrasta patrimonialista. E por isso foi executada barbaramente, com munição que pertenceria à gloriosa Polícia Federal em Brasília.

Claro que aparecerá e será preso o culpado por apertar o gatilho desse crime brutal. Mas nunca será anunciado quem autorizou. E eles são muitos e fazem parte do arcabouço dessa sociedade doentia que foi tomada pelo vírus do fascismo. Marielle foi executada com a autorização dos poderes instituídos que apodreceram, do executivo, do parlamento, do judiciário. Marielle foi morta pelos inimigos que fazem papel de mocinhos com a farda de uma polícia militar corrupta. Por uma intervenção militar desastrosa. Por uma mídia que cultivou o vírus do fascismo e o lançou sobre uma audiência cativa e obediente. Pelos mesmo que estão apurando a execução. Pela mídia que agora se esforça para separar o identidarismo das questões políticas, que Marielle sabia juntar muito bem. Pelas condolências falsas das autoridades ilegítimas.

Nós também somos culpados por só irmos às ruas chorar a tragédia. Podíamos ter ido antes para intimidar o fascismo. Ele não é sensível ao diálogo. É da sua natureza não ceder a argumentos. Só recuará pela força.

A morte de Marielle causou uma tristeza profunda. Era visível nos rostos dos meninos, dos velhos. Mas é preciso que a tristeza se transforme em raiva para intimidar o fascismo. Antes que ele cresça e nos engula na nossa tristeza. Precisamos de indignação. E de raiva para enfrentar o ódio fascista!

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desenho: Dino Alves

7 comentários em “NÃO HÁ DIÁLOGO COM O FASCISMO. É DA SUA NATUREZA.

  1. Parece que toda raiva é pouca…que não há consolo pra tanta indignação…que esse inferno não tem fim…a única coisa que resta é praguejar, que esse país uma merda, que esse nosso povo é tacanho, é medíocre. Me tira daqui!
    Lelê

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  2. Admirável escrita. Há muito não lia tal precisão no relatar fatos. A sensibilidade indispensável para analisar esse momento brasileiro e a raiva. Enquanto nós impotentes , nos deixando devorar até nossas entranhas. Será que viverei o bastante para ver o outro lado da historia? Aquele lado, aquele final em que ganham os bons.

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  3. Muito bom artigo, tovarich. Quero observar apenas que essa onda de fascismo, mais recente, se materializou na “globeatas” dos camisa-da-seleção. Mas ela já estava nas ruas antes, até mais vigorosa: desde os “protestos” de 2013…

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  4. Fogo contra fogo, exato, mas deixem-me interpelar o seguinte: Nós negros não fomos e resistimos por não ser uma minoria populacional no Brasil, e sim uma minoria econômica ao que interessa o capitalismo, apesar de todo genocídio que a minha raça enfrenta.

    O texto poderia deixar isso claro, assim e principalmente como a mídia também, em geral.

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