UMA HUMANIDADE DESUMANA

burguesia milton

Para Paulo Villela

Não sei se vocês lembram, mas qualquer livro que vai contar “Uma breve história” de qualquer coisa é sempre um livro de mais de trezentas páginas, justo porque a “qualquer coisa” é o tempo, o universo, essas coisas pequeninas. A bola da vez é “Sapiens, uma breve história da humanidade” do israelense Yuval Noah Harari, um garoto de pouco mais de quarenta anos que vem se apresentando na mídia como o oráculo do fim do homo sapiens para o surgimento de uma nova espécie, tipo um “Homo Deus”, título, aliás, do seu segundo livro, embalado no sucesso do primeiro. Harari já conseguiu emplacar duas breves historinhas.

Assisti a vários shows, no Youtube, do garoto prodígio e encarei a breve história. Como as outras narrativas dos best sellers desse tipo, a leitura flui bem, é agradável e o nível de informações e problemas abordados sobre o assunto – fora um furo aqui ou ali, pra quem já tem uma certa idade de informação – tem um bom embasamento e conhecimento.

Yuval parte do princípio de que o que tornou um insignificante animal na natureza em senhor do planeta, que terminou por dominar e transformar a própria natureza, foi a evolução da linguagem e capacidade humana de criar histórias imaginárias. A construção de uma invencionice, um mito, uma mentira foi capaz de fazer os homo sapiens cooperarem em estratégia, tornando-os mais sagazes do que os amimais diferentes e mais fortes (ou semelhantes tipo o Neandertal) que não tinham essa capacidade.

Esse salto ele chama de Revolução Cognitiva e isto possibilitou o domínio do sapiens sobre a natureza. Não se empolga com o salto da Revolução Agrícola, que fixou o nômade coletor-caçador, mas exalta a Revolução Industrial com o nascimento do capitalismo. Daí a endeusar a Revolução Científica é um passo para dizer que hoje somos muito mais satisfeitos com as nossas necessidades que o progresso proporcionou. Aqui temos a primeira grande discordância quando o prodígio ressalta os benefícios que a Revolução Científica trouxe à elite da humanidade como se fosse estendida a toda humanidade, quando sabemos que a maioria não se beneficia por igual – e muitos ficam de fora – do progresso no capitalismo.

No capítulo que trata das religiões, como arcabouço de explicação de mundo, faz uma crítica ferrenha às religiões monoteístas e praticamente as aniquila na defesa da Revolução Científica. Anuncia a morte de Deus como um enredo da primitiva capacidade humana de inventar histórias como forma de dominação social.

Mas aqui faz um gancho formidável para identificar as ideologias como religiões modernas. Abre um subtema para as “religiões humanistas” onde vai identificar o “humanismo liberal”, o “humanismo socialista” e o “humanismo evolutivo”. Segundo sua concepção, no liberalismo a humanidade é individual e reside em cada homo sapiens e seu mandamento supremo é proteger a essência e a liberdade de cada indivíduo; o socialismo é identificado como uma humanidade coletiva que reside na espécie e o mandamento supremo seria proteger a espécie; por fim o “humanismo evolutivo” reza que a humanidade é mutável, os humanos podem se degenerar em sub-humano ou evoluir em super-humano e o mandamento supremo seria atingir o super-homem eliminando o sub-homem. Teríamos nessa última “religião” humanista o fascismo. Interessante como ele decreta apressadamente a morte do socialismo, defende o liberalismo, mas flerta com um, talvez, inevitável fascismo como fruto da Revolução Científica moderna.

No final do livro anuncia o fim do Homo Sapiens e a sua transformação em Homo Deus por três grandes caminhos que já vem acontecendo: as mutações genéticas, os ciborgs e os robôs. As mutações genéticas já as assistimos na engenharia genética, na cura de doenças futuras, na escolha de características do adulto provocadas no DNA do feto. Sabemos que isso já está sendo feito, contrariando problemas éticos e políticos. Os ciborgs seriam uma mistura de vida orgânica com o inorgânico. Braços e pernas mecânicos já são realidades também. E cada vez a medicina nos faz ciborgs. Uma simples operação de catarata nos coloca uns óculos dentro do olho. Os robôs também já são uma realidade e a empregada dos Jetsons (a Rosinha, lembram) já é realidade.

O problema é que ele coloca esse futuro inevitável ao acaso que está por vir entre a “religião” liberal e o fascismo. Acho que os dois nos levaria a volta de uma “democracia grega”. Os benefícios da Revolução científica para uns privilegiados e o destino comum aos sapiens que não seriam deuses.

O que mais me impressionou no livro foi o descarte que ele faz do socialismo. Yuval remete a experiência soviética como o fim do socialismo. E ele exalta a barbárie que advirá em pouco tempo se suas previsões forem confirmadas. Coloca o capitalismo como inexorável destino da humanidade e elege Adam Smith o profeta desse credo liberal.

Chama o capitalismo da “mais bem sucedida religião moderna” e a define: “Sua doutrina fundamental é que o crescimento econômico é o bem supremo, ou pelo menos uma via para o bem supremo, porque a justiça, a liberdade e até mesmo a felicidade dependem do crescimento econômico”.

Portanto a inevitabilidade da barbárie está colocada no livro da moda. Talvez ela seja inevitável, mas prefiro ainda acreditar que esse destino poderá ser modificado. Que a felicidade pode ser estendida a todos os sapiens que ainda habitam a terra.

Hoje, quando um verdadeiro gênio da ciência nos deixa (Stephen Hawking, 1942 – 2018), lembremos a sua preocupação maior: “A grande ameaça ao futuro não são os robôs. É a desigualdade”.

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desenho: 1000TON

PS: apesar da decepção de um velho devoto de uma religião em extinção acho que o livro deve ser lido para conhecermos a barbárie que já nos bate à porta. Se não retomarmos o credo antigo e demodé o inevitável assim será.

2 comentários em “UMA HUMANIDADE DESUMANA

  1. Mexeu comigo esse artigo. Ando meio cansado desses profetas da realização humana, inspirados no capitalismo… Mas, como mui atento que é, Edmar é um fuçador de pensamentos incrível. Seu faro é poderoso. Importante se ter conhecimento dessa obra “Sapiens, uma breve história da humanidade” . Isto porque, devemos sempre estar atentos à luzinha amarela, que está se avermelhando muito rapidamente por sinal, para se combater a “uberização” do planeta, se é que ainda há tempo. Ou, pelos menos, conseguir-se uma alternativa para evitar que “os que não prestam” sejam eliminados pelo “Big Brother”…

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  2. Gostei do livro . Discordo de você Edmar. Ele é um jovem historiador muito inteligente e expõe um cenário das sociedades contemporâneas que estamos vendo passar pelos nossos olhos . Não é um livro de filosofia nem ousa tanto . Mas é bom! Agora quanto aos pobres estes já não contam ha muito tempo . E o socialismo deu no que deu . Olha o Putin : fabricado pelo socialismo … Temosvque fazer o luto senão vamos ficar uns velhinhos melancólicos, meu querido amigo…

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