AS “FORÇAS OCULTAS” E A IDIOSSINCRASIA QUE NOS MARCA A SINA

Latuff glub glub

No neoliberalismo fica evidente que as “forças ocultas”, que o insano Jânio culpou pela sua renúncia, governam as nações em todo o mundo orientadas pelos desejos e caprichos do deus Mercado. Mas no Brasil temos um processo idiossincrático. E kafkaniano.

Aqui, no período das vacas gordas, as “forças ocultas” até permitiram um governo de coalizão com uma esquerda populista deixasse que as migalhas caídas da mesa farta alimentassem aos mais pobres. Quando chegou o período das vacas magras, as “forças ocultas” – tentando alimentar o apetite do deus Mercado – trataram de livrar-se do parceiro incômodo na forma do impedimento sem amparo constitucional da presidente eleita.

O primeiro efeito bizarro do poder das “forças ocultas” foi patrocinar um golpe parlamentar-judiciário sem que o governo eleito, que seria tirado de fato, esboçasse qualquer gesto de resistência. O governo Dilma deixou acontecer o impedimento escandaloso e ilegal como se as instituições não tivessem sucumbido ao golpe.

E aí as “forças ocultas” testaram sustentar um governo corrupto – com provas evidentes ignoradas pelo judiciário – impopular e pateticamente incompetente. Como a grita não conseguiu afetar o governo ilegítimo e esse, imediatamente, se propôs a atender ao apetite do deus Mercado, as “forças ocultas” lhe deram sustentação.

Impressionante, no Brasil, a tolerância das “forças ocultas” com a escandalosa sustentação de um governo e parlamento corrupto, protegidos por um judiciário que lhes dão sustentação para a continuidade de suas tramoias. Um apartamento cheio de dinheiro, malas andando nas mãos de assessores da presidência, um congresso que sustenta o governo ilegítimo quase que inteiramente suspeito de corrupção e até denúncias de tráfico de drogas não são suficientes para abalar o projeto das “forças ocultas”. Elas sequer se importam que os mesmos crimes de corrupção sejam tratados diferentemente, de acordo com o partido a que pertence o criminoso. A mídia – porta voz das “forças ocultas” – ajuda a disfarçar que a corrupção de uns seja diferente de outros. E assim aniquilam uma oposição que possa ameaçar o poder instituído.

Se puderem evitar que um líder popular não concorra à eleição – condenado que foi por um deslize que nem se efetivou – a eleição poderá acontecer. Entretanto, se a ameaça for de que a eleição atrapalhe o projeto neoliberal de satisfação do deus Mercado, ela não acontecerá.

A intervenção no Rio de Janeiro e o que daí advir, pode ser o sinal de que não teremos a eleição programada. Claro que – para manter a aparência de que estamos numa democracia – é melhor que a eleição aconteça. Desde que a previsão do resultado não atrapalhe o projeto das “forças ocultas”.

E assim convivemos – fazendo de conta que estamos numa normalidade de direitos – com um governo corrupto, débil, absurdamente atrapalhado e incompetente; Ministérios que não atendem a qualquer demanda da sociedade; governadores e prefeito que fazem o jogo de cartas marcadas, mesmo que seja oposição ao governo; outros débeis e incompetentes – como o do Rio – que aceitam uma intervenção absurda; com um judiciário politizado que age para atender os ditames das “forças ocultas” que alimentam o insaciável e cruel deus Mercado; um parlamento quase todo de futuros presidiários e que trabalham para atendimento de seus interesses – desde que não afrontem às “forças ocultas”.

Quem compreende um pouco do que está acontecendo – dentro de uma nação anestesiada e que não reage a perda de todos seus direitos impostos pelo deus Mercado – também se vê impotente de alterar qualquer absurdo que estamos vivendo, por menor que seja. Sentimo-nos como se envoltos num processo kafkaniano, instituído pelas “forças ocultas”, governadas pelos interesses econômicos dos rentistas e capitalistas internacionais. Parece que perdemos o sentido de nação. As “forças ocultas” são mundiais e impõem os seus desejos, mesmo aqui – onde o absurdo da situação não seria aceitável em outros países.

A idiossincrasia que nos destina é que somos uma republiqueta que pode ser governada por corruptos, néscios, boçais e conservadores de um mundo de ontem, que trazem em si a ignorância nua e crua.

O insano Jânio Quadros quando nomeou uma conjuntura que não entendia de “forças ocultas” estava prevendo um futuro em que elas seriam reais. Mesmo que tenha sido levado a uma renúncia devida mais as suas deficiências do que a conjuntura, as “forças ocultas” de Jânio realmente se estruturaram no futuro para dizer que as nações não mais se governam, mas são governadas por forças econômicas que alimentam o apetite pervertido do deus Mercado. E podem sustentar governos aparentemente insustentáveis!

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desenho: Latuff

 

 

 

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