O BEIJO DA BEIJA-FLOR E A EXPLOSÃO DA TUIUTI

BEIJA FLOR E TUIUTI

Na apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, apenas um décimo separa a campeã da vice. Dois sambas-enredo muito bonitos, equilibrados na nota dez de ambos, conseguiram mostrar enredos muito diferentes, apesar de ambos serem protestos políticos. Não vou aqui discutir o perfeccionismo dos jurados, tirando um décimo daqui, colocando outro ali. Até porque, até o antes do penúltimo ponto apurado havia uma imprevisibilidade da campeã.

Atenho-me aqui na divisão dos dois enredos que amalgamaram o significado do protesto das duas escolas campeãs. E arrisco a dizer que eles simbolizam a divisão atual em nossa sociedade.

Na Beija-Flor o tema central foi a corrupção, as malas de dinheiros conduzidas por ratazanas políticas e o desfazer da Petrobrás – na alegoria do seu prédio no Rio – que se transforma nas mazelas em que vivemos: bala perdida, violência, favela, escolas e corredores de hospitais expostos como resultado do saque à maior empresa brasileira. Além de arrastões pela avenida e alas representando o sofrimento do povo decorrente da corrupção. Aqui se coloca que tudo o que passamos se deve à corrupção dos políticos indistintos (o que criminaliza a política) e dos capitalistas do mal (como se houvesse os “do bem”).

Revelador a comparação da monstruosidade em que vivemos à criação de Frankenstein de Mary Shelley – esse Prometeu moderno – feito de pedaços humanos, que descontrolado escapa ao criador. Não à toa o imaginário confunde criatura e criador, dando o nome do segundo ao monstro. A corrupção é a culpada de nossos males, não importa quem a criou (o capitalismo), mas o monstro incontrolável em que se tornou, sobretudo nos governos do PT – só faltou dizer e nem precisava. Esses corruptos que saquearam a Petrobrás. E sintomático, foi um protesto ao gosto da Globo.

Da Tuiuti veio um outro protesto, que infere a um golpe das elites a perda de direitos trabalhistas, da ameaça de se perder o direito à aposentadoria. Depois do carro da lei áurea começa a moderna escravidão nas favelas, no campo, nas cidades. Da interrupção de um governo que tentava minorar essa situação – apesar de ter dormido com o inimigo – por um moderno golpe de estado, onde o presidente da nação era representado por um vampiro corrupto, envolvido em dinheiro com que compra seu mandato ilegítimo. Uma ala de patos da FIESP com paneleiros manipulados por uma mão invisível denunciava o patrocínio do golpe.

Grandes mãos da mídia manipulando paneleiros de camisa amarela nas sacadas de seus apartamentos gritavam o papel da mídia na construção do golpe. O silêncio da transmissão da Globo para explicar essa alegoria amplificou o protesto tão explícito da Tuiuti. Mais do que o nu das lindas mulheres, que o destaque do comentário “cento e vinte de quadris” não conseguiu abafar. A carteira de trabalho queimada chamava mais atenção.

Não à toa as câmaras mostraram o grito de “Fora Temer” das arquibancadas e o constrangimento nos camarotes, onde seus ocupantes remediados viam suas imagens com camisa da seleção nas alegorias. Houve uma verdadeira catarse na avenida. O que estava entalado parece ter sido libertado em uns e constrangido em outros no carnaval. Talvez sem grandes consequências, mas de muita importância para o desfile, que deve ficar marcado pela vice campeã na história dos carnavais.

Depois das cinzas da quarta-feira o ano recomeça. E depois da hipnose do desfile acordamos de ressaca. E temos de lembrar que a bonita festa do carnaval do Rio para o mundo vem de comunidades carentes e abandonadas pelo poder público. Poder ocupado por patrocinadores que fazem a felicidade dos moradores dessas comunidades pelo menos por três dias de carnaval a cada ano. E um desfile de glória. Como não lembrar a senhorinha negra de mais de oitenta anos que desfilou feliz em sua cadeira de rodas na Tuiuti?

E as escolas de sambas têm patrocinadores na contravenção, no tráfico de drogas, nas milícias. Fechamos os olhos para essa realidade nos desfiles. O patrocinador da Beija-Flor foi condenado por corrupção e está solto por um habeas corpus do Supremo Tribunal de Justiça. Como sempre soe acontecer, são os corruptos os mais preocupados com a corrupção de quem não querem no poder. Foi assim com Getúlio, com Jango, com Juscelino, com Lula. Sintomaticamente no desfile, a contravenção não era mazela!

O patrocinador da Tuiuti, dizem, é o dono do morro. O cara que manda no pedaço abandonado pelo poder público. E o traficante não se importou com que a escola mostrasse o tráfico de influência, que mais sacrifica seus protegidos do que o seu negócio também ilegal. Mas não se cutucou a guerra do tráfico que mata e escraviza mais que a droga.

O carnaval é apenas um sonho que se desmancha ou se constrói o ano inteiro. Depende de quem dança, de quem quer ou não quer ver.

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desenho: 1000TON

 

2 comentários em “O BEIJO DA BEIJA-FLOR E A EXPLOSÃO DA TUIUTI

  1. Difícil é entender como os bicheiros, os assassinos de aluguel, os poderosos donos da droga, os bandidões abonados do asfalto financiadores da dita cuja, os lavadores de dinheiro do tráfico-representado pelas igrejas neopetencostais mercenárias-não impediram que uma avalanche de pesadas denúncias contra o governo golpista explodissem pela Sapucaí afora. Falo especialmente, claro, da Paraíso do Tuiuti. Tanto o governo espúrio de Temer, como, principalmente, a Gloebbels, viraram fratura exposta na carnificina crítica-carnavalesca produzida por aquela que, por um décimo, não foi a Escola vencedora… Fico imaginando quão forte é o berro das massas, a ponto de levar de roldão qualquer tentativa de abafar uma revolta que atinge a maior parte da sociedade. Não deu pra segurar, a voz do coração explodiu!

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