O FILÓSOFO DA MODA E O VELHO BARBUDO

o filosofo novo e o velho barbudo

Byung-Chul Han, o filósofo da moda (sempre tem um), sul-coreano de nascimento que pensa e filosofa em alemão, aparece dizendo agora que o neoliberalismo da atual etapa do capitalismo dispensa a revolta e impede a revolução ou seus espasmos. Chega a dispensar, nesta fase, qualquer explicação marxista, já que – segundo ele – o trabalho nem mais se aliena e se impede o entendimento da mais valia.

O filósofo diz que a opressão capitalista anterior, que provocava a revolta na sociedade disciplinadora, foi trocada por uma ilusão de que todos somos empreendedores, para usar essa palavra da moda, e vamos ao matadouro como cordeiros achando que a culpa está em nós e não no sistema. Explica ele: “O sistema de dominação neoliberal está estruturado de uma forma totalmente diferente (do modelo disciplinador anterior). O poder estabilizador do sistema já não é repressor, mas sedutor, ou seja, cativante. Já não é tão visível como o regime disciplinador. Não existe um oponente, um inimigo, que oprime a liberdade diante do qual a resistência era possível. O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empregador de si mesmo. Hoje cada um é um trabalhador que explora a si mesmo em sua própria empresa. Cada um é amo e escravo em uma pessoa. Também a luta de classes se torna uma luta interna consigo mesmo: o que fracassa culpa a si mesmo e se envergonha. A pessoa questiona-se a si mesma, não a sociedade.”

Talvez o novo mestre explique o marasmo em que vivemos frente ao avanço do neoliberalismo. Talvez, teimosos velhinhos, como eu, continuem gritando – sem entender a passividade dos jovens – por termos clareza do inimigo, que conhecemos tão bem do modelo disciplinador anterior. E os nossos filhos – protegidos que foram de uma violência que não conheceram na prática – caíram no conto de sereia do modelo neoliberal vigente e não percebam que o sistema os transformou em trabalhadores incansáveis, que pensam serem empreendedores, mas que serão parados – quase todos – pela depressão ou pelo esgotamento de uma síndrome de Burnout, que o filósofo afirma serem os males modernos, por falta do entendimento do funcionamento do sistema.

Mais ainda avança o coreano, filosofando em alemão, quando afirma que até o cooperativismo e compartilhamento foram transformados em mercadoria, como no caso de aluguel de casas pelo aplicativo Airbnb ou a carona nada solidária transformada em mercadoria pelo Uber.

Milhões de “empreendedores” serão descartados pelo sistema pela substituição de novos ouvidores do canto da sereia neoliberal e segue o barco alimentando o cume da pirâmide pelo sacrifício, cada vez maior, da base da mesma pirâmide – alimentando um sistema perverso. E mais concentrador de renda que o anterior.

Numa leitura ainda apressada do filósofo, fiquei chocado com o anúncio que ele faz do “fim da revolução” nesse estágio em que o capitalismo comercializa até o comunismo. Remunerar casas que servem restaurantes personalizados, a gentileza que rola nos mútuos elogios do Airbnb ou Uber ou seja a “uberização precarizada” leva Byung-Chul Han à seguinte sentença:  “A ideologia da comunidade ou do comum realizado em colaboração leva à capitalização total da comunidade. A amabilidade desinteressada já não é mais possível. Em uma sociedade de valorização recíproca a amabilidade também é comercializada. A pessoa é amável para receber melhor valorização.” É pra se pensar nas estrelinhas que damos ao motorista do Uber ou o comentário agradável que fazemos ao dono do imóvel que alugamos pelo Airbnb.

Confesso que fiquei preocupado com o entendimento do novo filósofo da moda. Mas acho – como um velho filósofo barbudo já falou um dia – que o mundo não pode ser apenas explicado pela filosofia.

Há de se entender também uma fratura no novo modelo que provoque outra filosofia que não explique o mundo, mas seja capaz de transformá-lo. Ou seja, o velho barbudo pode até ter que fazer a barba, mas continua tendo razão!

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 ilustração: imagem de Marx sobre foto de Han.

Textos em itálico do artigo “Porque hoje a revolução não é possível” de Byung-Chul Han em: https://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/22/opinion/1411396771_691913.html

Um comentário em “O FILÓSOFO DA MODA E O VELHO BARBUDO

  1. Excelente artigo. A “uberização” e a “AIRBNBezação” já demonstram, dramaticamente, que as relações de trabalho estão se esvaindo, se derretendo. A selvageria do ne0-neo-liberalismo levará essa geração e as próximas ao delírio da felicidade fluida, sem consistência. Bem, prevejo que os divãs dos analistas estarão enormemente solicitados. E mais, os manicômios estarão mais lotados que as prisões!… Socorro Carl!

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