ABUTRES DA DOR

capitalismo

Sou médico aposentado que consegue viver, modestamente, de sua aposentadoria por dedicação exclusiva ao serviço público por quase quarenta anos. Nem consultório tenho, apesar de usar meus conhecimentos gratuitamente quando necessário ainda, talvez para sustentar minha convicção anacrônica de que a saúde deve ser pública, direito do cidadão e dever do Estado, conforme ajudei a construir um SUS hoje sucateado, como reza ainda a nossa constituição.

Entretanto o nosso sistema público sempre conviveu com uma medicina privada, empresarial, que tem nos planos de saúde um negócio rentável, sendo – desde sempre – pseudoregulados por uma Agência Nacional de Saúde, que quase sempre conquistou para seus quadros dirigentes com interesses em cujos planos devia regular.

E quando os agentes públicos – casos de médicos, enfermeiros e outros que atentem no sistema público – têm interesse na medicina privada, temos uma boa razão para que o sistema público não funcione a contento, não bastando já os dirigentes públicos e parlamentares serem financiados pelos planos de saúde.

A classe média – a evitar o sistema público – contribui para que ele seja destinado aos pobres e sem qualidade. E, esta mesma classe média, espera que terá uma boa assistência hospitalar quando acha que está protegida pelas pesadas mensalidades dos planos de saúde.

Quem já viveu a situação que aqui vou abordar saberá identificar o drama kafkaniano pelo qual passou. Experimente precisar usar o plano de saúde para internar um parente num CTI de hospital conveniado: logo será percebido que o plano de saúde – por melhor que seja – paga a hotelaria e os plantonistas. O próprio hospital ofertará profissionais particulares intensivistas para acompanhar o seu paciente porque assim ele estará melhor atendido. Só que o plano não cobre os honorários deste médico. No caso de complicações não cobrirá também o parecer de um pneumologista, cardiologista, nefrologista, hematologista, tantas especialidades quantas forem as complicações. Também você não será informado do prognóstico exato do seu paciente porque eles não saberão, até pelos desfechos idiossincráticos de cada organismo e pelo olhar limitado de cada especialidade. E não terá nenhum médico vendo o paciente como um todo, mas cada qual em seu quadrado como se a vida fosse um conjunto de órgãos que podem ser consertados em separado como se fossemos linha de montagem. Não há ali um olhar holístico sobre o sujeito. Nem sobre o sofrimento dele ou dos seus entes queridos. Sempre falta um médico que dialogue com a dor.

Por certo, nesta distorção sobre a vida, ela será estendida porquanto cada aparelho puder funcionar indefinidamente. Um colega, na década de 1980, já chamou os investidores da medicina privada de “mercadores de infortúnios”. Porque o faturamento é a razão de ser dessas espeluncas. Quanto aos colegas que se prestam a cobrar pareceres exclusivos de clientes dos planos de saúde, parecem um bando de abutres que se alimentam da dor alheia para manter – muita das vezes – um cadáver insepulto. E não há qualquer intervenção da agência reguladora dessa prática absurda. O seu plano de saúde deveria ser obrigado a arcar com as despesas necessárias integrais do seu associado.

E o mais doloroso é que deixamos de investir no sistema de saúde pública para alimentarmos mercadores de infortúnios e abutres vorazes da dor alheia.

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desenho: 1000TON

Artigo escrito quando tive que acompanhar a “via crucis” de uma amiga pelas armadilhas de um plano de saúde. Tive vergonha do mercenarismo de profissão. Com o SUS em frangalhos, essa prática só piorou.

3 comentários em “ABUTRES DA DOR

  1. Bem esclarecedor e só reforça a centralidade no mercado e consequentemente no lucro, independente do que precisa fazer para obtê-lo. A ideologia neoliberal assumindo cada vez mais as ações que deveriam sim ser assumido pelo poder público com a qualidade devida, porém, quando se busca planejadamente destruir a imagem do público, tornando-o mínimo, a iniciativa privada cresce, tornando-se máxima. Máxima para quem? O mercado ganha vida e o ser humano agoniza até morrer.

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  2. Tenho um sonho mesmo acordado
    que a saude publica será um dia voltada para os pobres e nao para os ganansiosos
    Que a medicina seja orgulho para a naçao
    Que todos possam ter atendimento digno e eficaz

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