O REVISIONISMO DA CONTRARREFORMA

van gogh

“é importante destacar que não se trata de negar a reforma psiquiátrica, mas de promover uma segunda reforma, complementando a anterior, uma vez que a rede de atenção psicossocial não será negligenciada”.

A Segunda Reforma Psiquiátrica, Ronaldo Laranjeiras, Folha de São Paulo, 24/12/17

 

Houve uma mudança do discurso nos opositores ao movimento da Reforma Psiquiátrica implantada por lei como política de Estado. Seu representante máximo fala agora em uma segunda reforma psiquiátrica que complementaria a primeira reforma, no seu entender.

Vejam bem, parece que abandonaram a “maldição”, quando sempre sustentaram que não era a psiquiatria a ser reformada, mas os manicômios, e passaram a defender que de fato houve uma reforma da psiquiatria. E para sustentar o argumento, decretam que a “rede de atenção psicossocial não será abandonada”. Algo assim, como se a Reforma Psiquiátrica se afirmasse apenas na aceitação dos CAPS.

Acontece que usuários não querem ser tratados como antes e os profissionais não sabem mais trabalhar de outro jeito. A tentativa é de cooptação. Não se iludam, a segunda reforma proposta é apenas o revisionismo raso nos conceitos reformistas para reabilitar o manicômio e a psiquiatria biológica.

Primeiro, eles reafirmam que a psiquiatria não precisa ser reformada. Sempre foram pré-basaglianos na suposição de que o “defeito” era do manicômio e nunca entenderam que o saber psiquiátrico foi quem produziu o manicômio e era este saber que devia ser reformado. Não fosse assim não pregariam a sua volta, humanizado e com “equipe multidisciplinar”. Apenas sepulcros caiados.

Segundo, porque no seu desejo de serem proprietários da loucura – transformada em doença mental, como explicou Foucault – nunca aceitaram dividir o seu saber com outros saberes para o entendimento de um fenômeno humano que não pode ser reduzido ao campo da medicina. O “multidisciplinar” que eles falam é um amontoado de paramédicos, comandados pelo psiquiatra – o dono da neurociência da moda e de suas drogas milagrosas.

Terceiro, porque propõem a união da neurociência e seu cardápio de drogas às comunidades religiosas, para que a cura seja feita em nome de Jesus. Ignoram quanto já foi provado a semelhança de tais comunidades aos manicômios e o tratamento moral da Primeira Psiquiatria de Pinel, que essa “segunda reforma” não teme em reabilitar.

Por fim, o “furor curandis” de hoje, alia interesses coorporativos médicos aos da indústria farmacêutica e tenta reabilitar – em nome da “segunda reforma” – a rede contratada dos mercadores de infortúnios para a mercantilização da medicina num verdadeiro ataque aos princípios do SUS. Ainda há que destacar a reabilitação dos ambulatórios psiquiátricos especializados, verdadeiros distribuidores – sem nenhum controle – de medicamentos “controlados” e que causam dependência química, tão difícil de recuperação quanto a dependência química às drogas ilegais.

É preciso salientar que tal anacronismo revisionista da Reforma Psiquiátrica só foi possível num ambiente golpista e com o fim de consulta às instâncias oficiais. A aprovação na Comissão Intergestores propalada no texto foi sem réplica e na cassação da voz do presidente do Conselho Nacional de Saúde. Porque foi necessário primeiro atacar a democracia para oficializar uma tentativa de destruir a Reforma Psiquiátrica. Sem democracia não há saúde mental.

O engodo da “segunda reforma” como revisionismo da verdadeira Reforma Psiquiátrica que vimos construindo foi lançado em águas turvas.

Somos muitos. E usuários, familiares e terapeutas que experimentaram o tratamento em liberdade não têm memória de peixe para fisgar esse anzol que traz o revisionismo como engodo para a reabilitação do manicômio.

O revisionismo é a vitória de apenas uma batalha. A luta continua!

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ilustração: réplica de quadro de von Gogh

 

 

 

 

 

2 comentários em “O REVISIONISMO DA CONTRARREFORMA

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