O INCÔMODO DA LOUCURA

Loucura2

Vez por outra o navio dos loucos aportava num cais de uma cidade qualquer. O capitão apitava anunciando a atracação. Alguns passageiros desciam e circulavam timidamente pela cidade. Mas quando a nave partia, os passageiros embarcavam em silêncio, mesmo tendo gostado do passeio na cidade. Vez por outra o navio atracava por mais tempo. E, em alguns cais, nem todos embarcavam de volta com a partida do barco. Houve mesmo revoltas comandadas por marujos que se recusavam a embarcar de volta com seus passageiros.

De algumas, as cidades lembram bem. Teve aquela comandada por uma senhora muito pequenina, mas valente, chamada de “Revolta da Rebelde”, que marcou toda uma geração. A senhorinha saiu com seus passageiros do navio e se recusou a voltar a embarcar, quando foi anunciada a partida. Distribuiu telas, tintas e pincéis para seus loucos, fazendo do cais um ateliê a céu aberto. Eles não pintaram o mar, o céu, os barcos, o pôr do sol. Eles pintaram imagens do mundo interior que mostravam o caos e a angústia da viagem no porão do navio. Mais tarde, mandalas organizaram a calma encontrada no cais e longe do navio. E depois eles conseguiram imagens que se confundiam com a própria paisagem e com a cidade.

Mas, um dia o navio voltou, como acontecia sempre. E muitos foram reembarcados para a viagem ao longo do rio da vida, que raramente aportava nas cidades surgidas na travessia. E quando aportava, mais pessoas entravam e poucas saltavam. É de se confessar que algumas escaparam sem permissão. A lei era feita para embarcar os loucos na nau dos insensatos. Algumas pessoas contam que da margem escutavam gritos de dor e tristeza, quando o navio singrava manso o largo rio da desesperança. Mas a maioria das pessoas das cidades não escutava vozes e nem via o navio ao longe, tão longe que desaparecia de suas preocupações.

O navio seguia, as cidades existiam livres da loucura que, sempre que era percebida, embarcava na atracação do navio. Outras cidades colocavam seus loucos em canoas e os levavam até ao navio. Os gritos de dor e tristeza aumentavam de forma ensurdecedora.

Alguns marujos escaparam do navio e foram até as cidades dizer das condições de vida insuportáveis ali dentro. Algumas pessoas da cidade foram solidárias ao que diziam os marujos. O navio estava velho, pesado e sem conseguir fazer a travessia. Era uma viagem que tinha começado, mas nunca tivera fim. A travessia era a própria viagem sem fim.

Tentou-se mudar o curso do navio. Não foi possível. O velho navio estava encalhado, seus passageiros feitos prisioneiros, sem conseguir fazer a travessia anunciada. Talvez presos para sempre. E para alguns que morreram na viagem, foi apenas a travessia para a morte. E outros gritaram que o navio devia ser abandonado. Mas tinha a travessia.

E ela devia ser cuidadosa. De todas as cidades partiram barcos solidários para tirar os passageiros do navio. Cuidadosamente a travessia foi feita destinando cada um ao seu porto. E cada louco pôde circular na sua cidade, mas sempre que era preciso voltava ao cais e embarcava na sua pequena embarcação para um passeio no rio da vida. Ninguém foi levado de volta ao navio que foi ficando abandonado. E o cais foi alcançado pela maioria dos passageiros do navio. E cada cais, em cada cidade, ficou sendo o lugar do encontro. Dos passageiros libertos e de quem seria, no passado, um passageiro. E a partir do cais as cidades foram habitadas por seus loucos.

Acostumavam-se com a loucura como um acontecer comum aos habitantes das cidades. Um dia o rei mandou fazer uma lei que garantia que os loucos não seriam mais embarcados. E houve festas em todos os cais que não teriam a utilidade de embarcação dos loucos. A felicidade durou por um longo tempo. E novos marujos e novos loucos nem mais sabiam como era embarcar no navio.

Um dia o rei foi derrubado por um golpe de um malfeitor. As trevas se abateram sobre o reino. E os alquimistas que vendiam calmantes para manter os loucos no navio se aliaram aos feiticeiros com a firme intenção de fazer a nau dos loucos desencalhar e voltar a singrar o rio. Diga-se que os alquimistas nunca se conformaram com a liberdade dos loucos. Os feiticeiros já tinham feito embarcações para livrar a cidade dos vícios. E dessa aliança o navio voltou a ser preparado para receber novamente os loucos que circulam em terra firme.

E quem ficou conhecendo cada história, de cada uma destas pessoas, sabe a diferença que fez não embarcar naquele velho navio. Sim, eu estou tão cansado… É que a história de fazer o rio da vida sem a nau dos insensatos é muito antiga. Quando tudo parecia dizer que a travessia dispensava a nau dos loucos, os alquimistas anunciaram uma nova descoberta da ciência: embarquem-se os loucos num moderno transatlântico que a travessia se fará em alto mar com tecnologias modernas. E eu, que estou tão cansado, reconheço aquele velho navio que pretende recolher o incômodo da loucura…

 

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Adaptação de um conto escrito há dez anos, quando de um de vários ataques sofridos pela Reforma Psiquiátrica. Dada a situação atual – da aliança Ministério da Saúde, Associação Brasileiras de Psiquiatria e dos pastores donos de Comunidades religiosas, ditas terapêuticas, contra a Reforma Psiquiátrica – a atualização do conto se fez necessária.  

Desenho primoroso de Dino Alves

Conto original em: Piauinauta

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