A RAÇÃO DE DÓRIA É APENAS SINTOMA DE UMA SOCIEDADE DOENTE

 

Numa canção da década de oitenta, Eduardo Dusek propunha debochadamente à burguesia que trocasse seu cachorro por uma criança pobre. Tentava provocar os que tratavam a pão de ló os seus Totós, sem perceberem que as ruas estavam cheias de crianças pobres e abandonadas. Não era bem uma canção de protesto, mas uma balada de constrangimento – para sermos mais exatos.

Pois bem, nesses tempos de retrocessos inimagináveis, o constrangimento é outro e muda de lugar. Um prefeito, inacreditavelmente eleito em primeiro turno contra um bom prefeito que tentava a reeleição, além de pintar grafites de um cinza estúpido; expulsar mendigos que dormiam nas calçadas com jatos de água fria no inverno; destruir um trabalho feito pela saúde junto a usuários de drogas com a força policial; acabar com ciclovias a favor de carros; aumentar a velocidade das ruas da cidade provocando mortes de pedestres; agora oferece uma ração para alimentar pobres – ração que reaproveita mercadorias próximas ao vencimento nas prateleiras de supermercados e estoques do produtor. O cinismo é que se diz em alto e bom som que a ração eliminará o prejuízo de produtores e comerciantes da multa que se paga pelo descarte de produtos perecíveis para enfiá-los goela abaixo aos famintos da cidade.

O exótico e aético “produto alimentar” é apresentado em bolinhas do tipo ração animal, embalada exatamente igual com o nome fantasia de “Allimento”. Nome de marketing para tentar transformar ração animal em alimento humano.

Humanos não são animais. Hábitos alimentares fazem parte da cultura e variam com ela. A expressão “comer com os olhos” traduz a interação humana com os alimentos. A simples culinária até a mais sofisticada gastronomia distancia o ser humano da condição animalesca de ser apenas um predador de outro animal. Uma ração liofilizada pode servir os humanos em viagens espaciais ou em situação de guerra (situações limites), mas jamais como um “programa alimentar” que desumaniza o hábito da alimentação da espécie, que evoluiu há milhares de anos. Além de nomear humanos de segunda classe (melhor, não-humanos) a quem não é permitida manter hábitos alimentares.

Questionado com argumentos semelhantes, numa entrevista, o prefeito se exaltou e questionou o entrevistador: “hábitos alimentares? Você acha que alguém pobre, miserável vai ter hábito alimentar? Se ele se alimentar ele tem de dizer graças a Deus”! O vídeo termina com Dória dizendo: “este é um produto abençoado”. Faltou só dizer que era o maná do Senhor!

Uma revelação surpreendente: os que assim pensam eram contra a bolsa-família! Não eram as migalhas monetárias das sobras financeiras que deviam ser distribuídas aos pobres. Não é metáfora! É no real: migalhas de alimentos quase estragados são ofertadas ao escravo. É a nossa formação escravocrata, como defende Jessé de Sousa. Aquele pobre na rua não pertence à raça humana, no entendimento explicito de nossa sociedade marcada pela escravidão que não foi superada, na qual Dória tão bem representa o papel de senhor! O prefeito gestor-empresário representa o dono de escravos. Os que pensam como ele – a classe média guardiã – são apenas capitães-do-mato que ajudam a controlar os escravos. Não sabem – ou se recusam saber – que vieram da escravidão e a ela poderão voltar, sem nunca lhes ser possível ascender a senhor.

E temos que nos indignar com esse estado de coisas que assistimos nesses tristes dias. Senhor prefeito, o ser humano na rua – mesmo tendo perdido sua dignidade (que lhe foi tomada por uma sociedade injusta) ainda conserva seus hábitos alimentares no que cata no lixo. Até ali. Quem se lembra da cena do filme “Estamira” em que a protagonista cata um vidro de palmito no lixão de Gramacho para fazer uma macarronada de Natal, sabe o que estou tentando dizer. É que Dórias e seus capitães do mato não conseguem ver humanidade no pobre.

Mas são eles os desumanos: fascistas e escravocratas modernos. É que não conseguimos vencer o nosso passado escravocrata. Não à toa, para ter apoio dos deputados ruralistas para a manutenção do seu mandato, Temer revoga as leis que proibiam o trabalho escravo. Revogamos a Lei Áurea, 130 anos depois, porque essa sociedade não tinha se conformado com sua publicação.

A ração de cachorro proposta por Dória para alimentar pobres é apenas sintoma de uma sociedade doente. Muito doente.

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desenho: Jota Camelo para Causa Operária http://causaoperaria.org.br/blog/2017/10/16/coxao-e-coxinha-13/

 

5 comentários em “A RAÇÃO DE DÓRIA É APENAS SINTOMA DE UMA SOCIEDADE DOENTE

  1. mon cher,

    os paulistas são culpados pelo aparecimento destas excrecências. aliás, muitas como já vimos desde a eleição

    de malufs, janios, entre outros. o atual, bem condizente com a situação do país. para ele, os pobres, como o justo veríssimo,

    o deputado de chico anísio, que dizia, “eu quero que pobre se exploda”.e vamos viver assim… de golpe em golpe.. elegendo temers,

    aliviando aécios, e caçando pobres para matar … de fome.

    bom artigo.

    abs,

    nacif elias

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  2. Já pensei na possibilidade de uma ração desse tipo para ser usada em situações de guerra. De que adianta jogar de avião: feijão, açúcar, café, etc. se quem vai receber esses produtos não dispõe de um fogão, fogo e água quente? E mesmo nas nossas cidades tenho visto gente catando no lixo restos de comida. Não é melhor uma ração humana em forma de biscoitinhos? Claro que trata-se de uma solução irracional. O certo mesmo é que não deveria existir favelados e ricos. O Brasil é o sexto, sétimo ou oitavo país mais rico do mundo. Mas pelo critério do padrão de vida cai para sexagésimo lugar. Isso faz com que nossos 1% mais ricos açambarquem a riqueza que deveria estar distribuída com 60% da população. Se esse 1% fosse fuzilado e o dinheiro que eles roubaram do povo fosse distribuído, o problema dos pobres estaria resolvido.

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  3. Assiti o fime “Estamira”que você mencionou, quanta miséria humana e quanta lucidez onde menos se espera e de quem não se espera nada…sim, a nossa sociedade está deformada e doente, muito doente.
    Lelê

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