PERIPATÉTICO

velas no CAPS

Quem atua no campo da Reforma Psiquiátrica, certamente conhece o interessante livro “Clínica Peripatética” (Antônio Lancetti, 2008, Hucitec). Tomado emprestado do conceito aristotélico (passear, ir e vir conversando), Lancetti – em seis ensaios – fala da experiência da escuta em ambientes incomuns e da cidade, tornando possível uma clínica em que o setting sai do clássico consultório para espaços possíveis de conversas e escutas do cuidado. Uma clínica que está mais preocupada com a redução de danos do indivíduo sobre si mesmo do que com o conceito verticalizado de normalidade.

A prática da Reforma, liberta do engessado modelo médico, ocupa espaços inusitados para uma clínica individual, grupal e oficinas terapêuticas, tendo na cidade e no espaço urbano a sustentação de uma sociedade que não necessita do manicômio. Estamos acostumados a essa atuação peripatética, trazendo para nossa clínica o modelo já utilizado por filósofos da Grécia antiga.

Num Centro de Atenção Psicossocial, precisamos da casa de pouso, de uma boa equipe técnica e pouco, muito pouco, equipamento dos tradicionais modelos médicos. Em comparação a um centro de saúde dos mais simples, o CAPS custa muito menos. Lembro que na minha época de gestor, para transformar o antigo hospital em serviços substitutivos em comunidade eu convencia as “autoridades” pelo custo menor – única língua que nossos homens públicos entendem. Como eu já estava convencido que era muito melhor, não precisava convencer meus superiores por linguagem técnica. Se provássemos que um CAPS custaria menos que a antiga parte do hospital desativado, tínhamos muita chance de êxito (descrevemos o processo em “Ouvindo Vozes”, Vieira & Lent Casa Editorial, Rio 2009).

Mas havia – no problema do custo – um problema que foi muito bem preparado como uma armadilha para que o modelo não se sustentasse. O Rio optou por abrir CAPS com pessoal terceirizado, abandonando a contratação de servidores por concursos. É muito ruim lembrar aqui que nos batemos veementemente contra a terceirização, que a maioria – por comodidade ou falta de opção – não deu lá muita importância.

Servidores públicos são recursos protegido por uma legislação que os golpistas estão empenhados em mudar. Terceirizados são despesas que podem ser diminuídas nas contas de gestores que não tem a saúde como prioridade. A prefeitura do Rio começa por atacar nos seus cortes a atenção aos mais vulneráveis: saúde bucal e saúde mental na atenção à população vulnerável que usam álcool e outras drogas.

A Organização Social – a quem absurdamente foi entregue a gestão pública dos equipamentos da atenção básica – tendo um corte no recebimento de seus repasses, escolhe o que vai desativar. O CAPS ad Paulo da Portela em Madureira simboliza o horror de uma gestão que corta na carne do pobre os serviços essenciais. Desde julho, os servidores terceirizados não recebem salários. Insistem em trabalhar como peça de resistência. Não há mais insumos. Os funcionários resistem dentro do serviço em desespero para mostrar a sua necessidade e o abandono da prefeitura à população vulnerável de Madureira. Esta semana cortaram a energia elétrica. Uma foto circulou nas redes sociais com os funcionários e usuários com velas acessas para combater a escuridão das vistas de gestores que não enxergam os mais carentes.

Junto aos usuários, servidores anteveem a perda do seu próprio emprego. Os terceirizados são tão vulneráveis quanto os usuários. A greve que servidores fariam foi trocada por uma ocupação desesperada, mostrando uma situação peripatética – não no seu sentido filosófico aristotélico – mas no desesperado sentido figurado.

A foto com cada pessoa segurando a sua vela lembra uma cerimônia religiosa na qual se esperasse dos céus o milagre que se deseja. Triste e patético em um tempo em que a escuridão parece turvar o processo civilizatório.

 

 

Um comentário em “PERIPATÉTICO

  1. Edmar, temos de resistir aos ataques da direita reacionária e insensível ao sofrimento dos pobres e marginalizados. A luta continua. Fora Temer! Fora Pezão! Fora Crivela! Eleições gerais já!

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