O SORRISO DE MONALYSA

Monalysa

Nunca gostei de concurso de misses. Na ditadura éramos contra ao que chamávamos mais uma forma de alienação política. Lembro antes, ainda menino, das duas polegadas a mais da Marta Rocha, que lhe tirou o título de miss Universo – o que insinuava que aquelas belezas estavam a sós no universo (mesmo que houvesse outras vidas, seriam mais feias) e o menino frustrado porque achava Marta a mais bonita. E entre tantas mulheres bonitas, juro que nunca senti o excesso das duas polegadas da baiana boazuda para os padrões da época.

Depois o tal concurso caiu no esquecimento, coisas de comentários de umas tias velhas, e não atraíram mais o público com o sucesso anterior. Ficou mesmo apagado no tempo. Démodé!

Eis que ele ressurge na força de uma beleza conterrânea diferente demais para os padrões das minhas lembranças: Monalysa Alcântara é uma negra esquia, numa beleza de Gisele Bündchen das passarelas, sem quaisquer problemas do excesso de polegadas da Marta Rocha, muito alta para os padrões piauienses da minha geração, cabeleira esvoaçante e bela, cultuando a negritude sem disfarces e preconceitos, não leu o Pequeno Príncipe – como as misses do meu tempo – e foi arretada, colocando-se contra o racismo e o machismo que ficaram insuportáveis nesse mundo que dobrou a esquina à direita faz um bom tempo. E ainda provocou a reação dos fascistas que saíram do armário sem nenhuma vergonha. O sorriso de Monalysa debocha dos cães que ladram invejosos. Uma miss que não parece em nada com miss. Pode?

A beleza de Monalysa eu já conhecia nas fotografias. Tenho um conterrâneo nas redes sociais que tem o prazer de divulgar as belezas do Piauí – do Delta do Parnaíba a Serra da Capivara – principalmente se essas belezas emoldurarem mulheres bonitas. E como o cara tem me apresentado – nem que sejam pela tela do computador – mulheres maravilhosas em fotos fantásticas, já a conhecia entre outras beldades tão misses quanto. Monalysa foi uma dessas, portanto não foi surpresa vê-la ganhar o concurso: já tinha ganhado o meu voto.

Que temos mulheres bonitas, eu já sabia há muito tempo, casei com uma. O problema são os cabas, que são feios “como deus me livre”. Sorte nossa, que elas se acostumaram com os feios e nos deram filhos e netos lindos, que a gente olha e não se crê merecedor. Agora é que elas estão saindo de casa e se amostrando pro mundo. Ou os homens de lá se embelezam ou vão dançar.

Monalysa encheu de orgulho e boniteza o Piauí. Mas mesmo assim, disse tudo isso só pra concordar com um desabafo do meu compadre Cinéas Santos: “Monalysa é linda, é Miss Brasil: estamos muito felizes. Mas fica aqui uma sugestão: que tal iniciarmos uma campanha instigando as meninas piauienses (ricas,pobres,bonitas,feias) a estudarem um pouco mais? É a beleza que permanece”.

E antes que briguem comigo, como brigaram com meu compadre, estamos louvando a beleza de Monalysa e pegando carona no seu desembaraço contra o racismo e o machismo para que a beleza que permanece seja valorizada até mais que o concurso de miss. De acordo!

Esperemos que Monalysa tenha usado o concurso, como o Jean Willys usou o BBB para aparecer com o conteúdo que ele tem. Queremos o de Monalysa também, nesse mundo torto que tem as linhas retas já complicadas para o meu entendimento.

Esperamos que o sorriso de Monalysa diga mais aos conterrâneos, como prometeu em suas primeiras entrevistas.

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desenho de Dino Alves

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