ASSALTANTES INOMINÁVEIS

CABRAL E PEZÃO

Gilda (nome fictício) professora aposentada da Universidade Estadual tem uma triste história, contada por seu sobrinho taxista. Uma mulher altiva, dona de si, casada com um também professor, tinha três imóveis no subúrbio. Ainda com o marido vivo, quando se aposentaram, venderam os três imóveis para comprar um definitivo na zona sul. A soma de seus proventos familiares concedia uma vida modesta, mas com o conforto de uma melhor área urbana da cidade. Ali tinham perto cinemas, teatros, museus, parques para que os anos de aposentadoria provessem uma vida simples, mas confortável, relativo aos duros anos de trabalho. Não diziam que a aposentadoria a isto servia? Até fizeram algumas viagens pelo mundo. Quando o esposo morreu, Gilda ficou um pouco triste pelo luto natural, mas seguiu em frente com suas atividades.

Há algum tempo a aposentadoria começou a atrasar. Algumas vezes por longos períodos. Gilda não sabia fazer milagres para botar as contas em dia. O corte da luz a envergonhou. Não conseguia olhar na cara dos vizinhos. Recebeu alguns avisos pelo atraso no condomínio, que era sua maior despesa e não conseguia pagar. Não saia mais de casa, passando algumas necessidades que a ajuda dos amigos e parentes não era suficiente. Depois de quase um ano recebeu o aviso de que o apartamento ia a leilão por decisão judicial para pagar o condomínio. Acolhida na casa de uma irmã, não sai do quarto e enfrenta grave crise depressiva. O taxista sente muita pena da tia e não economiza palavrões para o governo do Estado, nas pessoas de Cabral e Pezão por falirem o Rio de forma vergonhosa.

Gilson (nome real) perdeu uma perna quando era criança, mas isso não o impediu de fazer concurso público para o cargo de técnico em radiologia para um hospital do Estado do Rio. Foram trinta e dois anos dedicados ao serviço público, tendo se aposentado há cinco. Gilson ganhava pouco mais de mil reais de aposentadoria. Como não tinha família, ia vivendo sem dívidas sua vida modesta no subúrbio. Quando o salário começou a atrasar foi que as dificuldades começaram. Agora, desde maio e com até o décimo terceiro do ano passado sem receber, Gilson ficou sem chão. Vendeu tudo o que tinha, tentando remediar a situação até a normalização do pagamento, que não veio. Três meses sem pagar o aluguel, foi despejado com uma pequena sacola com seus pertences. Dormiu uma noite na rua e foi encontrado por uma equipe que trabalha com população de rua, sendo encaminhado a um abrigo da prefeitura. Hoje mora com os mendigos.

São duas pequenas historias trágicas sobre a imensa tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro. O governador que roubou os recursos públicos que deveria administrar está preso. O que era seu vice capanga de atividades ilícitas, e eleito pelo voto (ou pela compra dele), está no cargo sem resolver a crise e nem sequer conseguir pagar os servidores da ativa, aposentados e pensionistas. Dois canalhas. Canalhas por falta de nome melhor para definir esse tipo de político que roubam a Política, com P maiúsculo, para saquear o Estado que devia ter servidores para cuidar das carências do seu povo. Esses governantes-canalhas, além de roubarem os serviços que deveriam ser prestados à população, roubam também o bolso dos servidores que dedicaram a vida a colocar o Estado a serviço dos cidadãos.

Voltamos ao poder absolutista – “L’Etat c’est moi” de Luiz XIV – onde o governo compra o legislativo e o judiciário para assaltar os cofres públicos de forma descaradas. Aqui estourou o escândalo dos juízes do Tribunal de Contas que deveria fiscalizar o ato público. Foi comprado. O modelo disseminou-se na republiqueta de Bruzundaga de forma hereditária, com poucos culpados encrencados com a justiça.

O caso do nosso Cabral só foi descoberto porque ele atracou suas caravelas no tesouro público, com um apetite muito voraz, passando por guardanapos na cabeça numa dança em Paris a joias derramadas ao pescoço de madame, em mansões aberrantes na costa verde, em lanchas com dinheiro vivo que na pressa de esconder boiou na Guanabara. Quer dizer, deu na vista. Roubou o que não podia esconder. Nem mais tinha a riqueza do petróleo para tapar o buraco do rombo. Foi preso numa prisão que ele mesmo construiu.

Mas quem tem amigos importantes não morre pagão, diz o ditado. Já mandaram soltar madame, ele foi para um cárcere vip, o sucessor continua no cargo e um dia a gente esquece deles para usufruírem do roubo descarado à coisa pública.

O povo fica sem os hospitais e as escolas. Dona Gilda, Gilson e tantos servidores, pensionistas e aposentados em um sofrimento vergonhoso, vítimas da ganância de canalhas. Ao inferno com eles! Canalhas, canalhas, canalhas!

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Para conferir a história de Gilson:

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/funcionario-aposentado-do-rj-sem-receber-salario-teve-de-morar-em-abrigo.ghtml

 

3 comentários em “ASSALTANTES INOMINÁVEIS

  1. mon cher,

    infelizmente, somos culpados pela eleição desses crápulas. temos uma amiga,

    também professora aposentado do estado, com duas matrículas, que está vivendo tal e qual

    a do teu artigo. a filha estava desempregada até pouco tempo. jornalista, trabalhava no o dia,

    que tampouco pagava em dia. recentemente, digo na semana passada, conseguiu um emprego

    numa assessoria. talvez, melhore a situação da mãe. governos desonestos faliram o rio, que demorará

    recuperar-se.

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  2. Seu texto é muito bem escrito Edmar…infelizmente não é ficção. O que eles fizeram c om o Rio ultrapassa o vergonhoso, é cruel e desumano…mas o triste também é que o povo esquece com o tempo. Nunca, nunca vou digerir as injustiças e acho que nunca vou entender a canalhice humana… não reflete no meu espelho.

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