NÃO HÁ POVO EM BRUZUNDANGA

INDIGNIDADE 

O nobre doutor tem prisão especial, mesmo em se tratando dos mais repugnantes crimes. Ele não pode ser preso como qualquer do povo (…)  A primeira cousa que um político de lá pensa, quando se guinda às altas posições, é supor que é de carne e sangue diferente do resto da população (…)   Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República.

(Lima Barreto, Os  Bruzundangas)

 

“O Brasil tem uma unidade política e territorial, mas não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo. Somos uma soma de partes desconexas. A unidade política e territorial foi alcançada às custas da violência dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Império, dos coronéis da Primeira República, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a miséria e a degradação servil dos lavradores pobres”.

(Aldo Fornazieri)

 milton

 

Lima Barreto já reclamava, no começo do século passado, que o Brasil não tem povo que participa dos acontecimentos, mas uma plateia que assiste ao espetáculo político patrocinado por seus donos. Foram os donos do Brasil quem proclamou a independência, os que lhe deram a abolição da escravatura, os que fizeram uma república corrupta. Por isso não somos um povo independente, não foi abolida a escravidão no seio do povo cordato, nossa república foi um retrocesso conservador em relação a um imperador esclarecido e republicano. Os donos do Brasil precipitaram os acontecimentos para que o povo não o fizesse, obtendo o êxito de afastar o povo do protagonismo na nossa história.

Fornazieri num artigo demolidor (http://jornalggn.com.br/noticia/um-pais-que-nao-tem-dignidade-nao-sente-indignacao-por-aldo-fornazieri) reafirma que a situação não mudou e que nosso povo não tem a capacidade da indignação por nunca ter tido dignidade.

Mas quem quer ser o povo desta nação? Diferenciamo-nos dele com a assinatura de nosso nome que nos liga aos colonizadores europeus. Povo aqui são os cidadãos de segunda categoria: os que chegaram de África no tráfico de nossa escravidão; os nativos selvagens, que nem à escravidão se prestaram; e os mestiços – filhos de colonizadores machos e nossas índias e negras, escravas de cama e mesa. Esses bastados, na sua imensa maioria, são o povo que o homem branco nunca quis ser. Povo bastardo que, talvez por sua condição, nunca tenha se revoltado contra o pai. Até porque seu irmão mais letrado sempre saiu do seu lado para ficar perto do pai.

Porque mesmo entre os mestiços, não raro valorizamos o nome do pai que veio de fora para sairmos da vala comum do povo. Os donos deste país continuam tendo assinatura nos nomes do colonizador. Muitos procuram no nome do pai uma segunda cidadania por medo de cair na vala comum do povo deste país.

Aqui ninguém quer ser o povo. Só se o é quando expulso da mesa do pai, mais ainda assim nos diferenciamos do povo para sermos “gente de bem” que pode ser tolerada pelos donos da nação. Ao povo sobra a passividade de assistir ao desfile dos que fazem história. Barreto disse que era assim, Aldo reclama que ainda continuamos assim. Uma classe média, uma gente de bem, que não se importa com os mortos da periferia. E que aceita que nós não somos iguais perante a lei. A polícia mata o traficante da favela. A mãe procuradora solta o filho traficante playboy da prisão. Queremos ficar perto do favor da mãe que solta o filho, não ao lado do órfão da lei que morre sem julgamento. Elegemos ladrões com o nosso voto. Não reclamamos quando eles tiram direitos do povo que também são nossos. Afinal, não somos o povo. E somos incapazes de irmos para a rua para tentar tirar um ladrão da presidência e deixamos os ladrões que elegemos fazerem o que querem os donos desta nação.

Se a situação está ruim, podemos trocar de país. Isso é mais fácil para nós do que nos misturamos ao povo. Esse é o nosso complexo de vira-latas, que começara a diminuir quando um Silva chegou ao poder. Chegou, falou um pouco em nome do povo, mas quis sentar com os donos do povo. E os donos da nação se desfizeram dos que queriam também distribuir algumas sobras da mesa ao povo. E os que não queriam ser povo foram às ruas para diferenciar-se do povo em nome de uma nação de camisa amarela que tem donos. Sempre teve e segue tendo.

Precisamos recusar o nome de nosso pai, precisamos reconhecer na negra e na índia a nossa mãe, precisamos nos reconhecer bastardos para ter raiva do que nosso pai fez a nossa mãe em forma de violência e poder. Precisamos recusar que o nosso pai seja o dono dessa nação. E, sobretudo, precisamos recusar o nome do pai para querer viver na nação de onde ele veio para construir a nossa com os nossos irmãos, para que sejamos um povo orgulhoso e que tenha protagonismo na história dessa nação.

Se Lima Barreto tivesse sido ouvido na sua denúncia e se já tivéssemos tomado o que era nosso por direito na nossa história, não teríamos ficado enredado ao nome do pai e já seríamos os donos dessa nação, o seu povo!

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Desenhos: Amaral e 1000TON

 

 

 

 

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