O MENINO QUE ROUBAVA LIVROS

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Desde os treze anos de idade, um garoto  –  de uma cidadezinha do interior de São Paulo  –  roubava livros na biblioteca municipal. Ele foi detido esta semana, quando tentava sair com livros da biblioteca. Diz a notícia de um jornal local que os funcionários da biblioteca tinham suspeitado, instalado câmera de segurança e o rapaz foi pego em flagrante. Confessou o crime e a policia recuperou 384 livros na casa do rapaz, que responderá por furto em liberdade. Disse ainda que roubava os livros apenas para leitura e não explicou porque não devolvia os livros lidos.

Itápolis, onde aconteceu o inusitado, dista 340 quilômetros da capital paulista e fica na microrregião de Araraquara. Tem apenas quarenta e dois mil habitantes, um IDH alto num município produtor de laranja. Do rapaz, a curta matéria não dá nem o nome e não ficamos sabendo quem era, onde morava, o que fazia. Pois no momento da prisão tinha já dezoito anos.

O interessante é o período que ele passou roubando livros naquela pequena cidade. Cinco longos anos. Façamos as contas. A polícia diz ter encontrado 384 livros na casa do rapaz. Dá uma média de 76.8 surrupiados por ano, 6.4 por mês, 1.5 por semana. Um leitor voraz, mas razoável e intenso.

Na página da biblioteca na internet encontramos fotos de um pequeno acervo e de que a maioria dos novos livros foi doada por frequentadores. Surpreende que o rapaz tenha roubado essa quantidade de livros e só agora deram por falta.

Quem sabe ele fazia sua pequena biblioteca como uma filial da biblioteca municipal. Quem sabe ele entendesse que as doações à biblioteca poderiam ser suas. Quem sabe ele não devolvia para saber até que quando a falta dos livros tirados fosse notada, tipo um jogo para ser descoberto na sua brincadeira inocente, que demorou tanto que virou roubo.

livros roubados

Maior dano à cultura fez a polícia na arrumação do produto roubado de forma desastrada no porta-malas da viatura como se vê na foto. Nem parecem aquelas fotos de apreensão de drogas e armas, quando eles arrumam organizadamente para apresentação à imprensa. Deve ter um significado como eles tratam um produto do tráfico e um produto cultural. Sei lá.

O que sei é que eu simpatizei com o ladrão de livros. Ele estava roubando para satisfazer sua fome de leitura. É que comigo aconteceu algo parecido e só vou confessar agora, por prescrição do crime.

Lá pela década de 70 do século passado eu frequentava a biblioteca da minha universidade não só para pesquisar livros de medicina. Como, na época, eu estava interessado em estudar o comunismo, encontrei uma raridade de livros de economia da antiga e já há muito extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que me interessava pesquisar para saber como eles aplicavam as teorias marxistas criticadas n’O Capital ou da Acumulação Ampliada de Rosa Luxemburgo. Curioso, estudava escondido dos funcionários. Lembremos que estávamos nos anos de chumbo e a deduragem ou a paranoia nos fazia muito desconfiados.

Achei melhor levar os livros para casa no intuito de entender com mais calma, sem o medo da vigilância. Pedir emprestado não seria uma denúncia? Resolvi comentar com meu velho amigo Arnaldo que eu queria pegar emprestados aqueles livros, mas sem ser um “empréstimo formal”. Como era da disposição e loucura do meu amigo, um cara bonito e com a maior pinta de classe média de uma pequena Teresina, botou os livros no ombro, à vista do fiscal que conferia as notas de empréstimo e gritou para chamar a atenção de todo mundo: – “esses aqui tô roubando”. Muitos riram, o fiscal não acreditou e rindo também deixou ele passar. Os livros foram para minha casa e fiquei com medo de devolver. Me acompanharam em várias mudanças até que dei para um vendedor de livros. Com carimbo da biblioteca de Teresina.

Só pra terminar essa conversa sobre ladrões de livros, nunca consegui o meu intuito de pesquisa. O meu roubo não teve bom resultado. Os livros dos economistas russos eram muito complicados para o meu pequeno entendimento. Até encapei os livros com um grosso papel para um disfarce inapropriado da minha apropriação, como dizíamos naqueles tempos.

Espero, de coração, que o ladrão de Itápolis tenha tido mais proveito e satisfeito a sua sede de leitura. Defendo mesmo que ele seja perdoado pelo roubo.

Como disse o amigo que me chamou atenção pela notícia que passaria despercebida: – “Nem tudo está perdido”.

 

 

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