Aves de rapina

Quinho

No mesmo dia, os predadores da coisa pública conseguiram aprovar um projeto sancionado pelo ilegítimo, que legaliza a grilagem de terras de reservas ambientais na Amazônia; e também é aprovada uma renúncia fiscal absurda, que saqueia a arrecadação da União. Isso é patrimonialismo: o assalto da coisa pública para resguardar interesses de latifundiários a custo de grilagem ambiental e perdoar a dívida de empresários que querem o Estado para defender seus interesses. Ao mesmo tempo em que arrebenta a corda do lado mais fraco com uma reforma trabalhista, que liquida direitos adquiridos em mais de cinquenta anos de luta dos trabalhadores; e o fim da aposentadoria para a maioria de brasileiros que serão impedidos de conquistá-la pela mudança na lei, que não leva em conta a média de idade em algumas regiões e bolsões de pobreza dessa nação cada vez mais desigual.

Como foi possível chegarmos até ao cinismo atual, com a anestesia das ruas em que a manada humana é chicoteada rumo ao matadouro sem reagir a uma situação que cada vez mais se escancara? Um presidente ilegítimo é mantido no cargo com compra de votos numa comissão de constituição e justiça tão injusta e que não respeita a constituição. Estamos naturalizando uma novela que a cada dia supera um enredo da literatura de Kafka.

É bom dizer que estamos também sem partidos políticos e sindicatos que possam amalgamar o descontentamento para uma reação ideológica organizada. Também a classe média – formadora de opinião e impulsionada por uma mídia golpista – denega sua condição assalariada e almeja a entrada no céu do empreendorismo prometido pelos falsos profetas do capitalismo. Quando descobrir que continuará vendendo sua força de trabalho e pelas novas regras, será tarde demais. A maioria dos que foram despertados ao consumo pelo lulismo volta ao lugar antigo, onde direitos trabalhistas nunca existiram. São poucos os trabalhadores com consciência de seu lugar de classe que percebem o que significa de fato a reforma trabalhista votada às pressas. Talvez isso ajude a explicar a anestesia social em que estamos mergulhados.

Resta a revolta ao escárnio. Ontem, um ministro da saúde que achincalhou os médicos, trabalha para liquidar o SUS e favorecer os planos de saúde que o financia, casou a filha, também deputada (o financiamento faz a vocação política parecer genética), numa igreja em Curitiba com uma festa em que foram gastos absurdos para convidados à vista da plebe. Foi uma exibição pública de poder e riqueza. Do lado de fora, o povo parece ter acordado para protestar contra o escárnio de quem rapina os recursos públicos de um país pobre e faz questão de exibir o esbanjamento de sua riqueza. O protesto teve que ser contido pela polícia e o casal de nubentes recebeu uma chuva de ovos em vez do arroz da festa.

Lembrei-me da alienação de Maria Antonieta e dos seus brioches. Um dia alguém pode perder a cabeça… Espantalhos não vão afastar as aves de rapina.

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ilustração: charge maravilhosa do Quinho.

 

 

 

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