NÃO QUEREMOS VER OS MOTIVOS DA GUERRA ÀS DROGAS

GUERRA AS DROGAS

A Guerra da Paraguai escrita pelos derrotados desnudam nossos heróis, que foram responsáveis por hediondos crimes de guerra. Além do massacre sistemático de populações civis, incluindo a degola de mulheres e crianças, o patrono do exército brasileiro, Caxias, é acusado de ser o primeiro a travar uma guerra bacteriológica: mandava jogar cadáveres coléricos nos rios para contaminar a população paraguaia. A perversidade do Conde D’Eu é relatada em diversos massacres com degolas e ecoou no solo pátrio dos nossos hermanos uma frase atribuída ao marido da princesa Izabel: “a guerra só terminará com o paraguaio morto no útero da última paraguaia”.

Lembrei disso agora pelo absurdo que acontece hoje em nome de uma falsa guerra às drogas. No Rio de Janeiro passamos todos os limites do razoável. Não é possível mais um combate sistemático ao pequeno tráfico de drogas, pois o grande nunca é combatido, pelos efeitos colaterais sofridos pelos moradores das comunidades periféricas.

Na Mangueira, mãe e filha foram assassinadas pelo conflito armado na comunidade. Todos os dias tragédias abatem famílias dessas comunidades, aqui atingindo ao mesmo tempo duas gerações. Em Caxias, uma criança antes de nascer foi transpassada por uma bala no útero da mãe. Bala perdida que não esperou a criança nascer. Acho que de forma inconsciente chegamos à altura da maldade consciente do Conde D’Eu.

Porque estamos em guerra por um falso motivo. Já é muito sabido que a guerra às drogas, do modo que está sendo feita, é uma guerra inócua. As próprias autoridades já se referem a ela como a tarefa insana de enxugar gelo. Enquanto os helicópteros e aviões livremente mantiverem o tráfico abastecido, não adianta uma guerra travada dentro das comunidades. As aeronaves apreendidas, sem que se provoque o desbaratamento dos grandes traficantes e distribuidores, mostram que não existem ações efetivas para um combate consequente. Combater pequenas bocas de fumo encravadas nas comunidades é inútil e o efeito colateral desse ataque provoca crimes hediondos, como os últimos que acabamos de assistir. Talvez a bala que atingiu o bebê ainda no útero da mãe nos diga o verdadeiro sentido dessa guerra às drogas.

Entre os estudiosos do fenômeno dessa guerra, já há quem a perceba como necessária à reprodução e manutenção da desigualdade social. A mentira da guerra às drogas, que faz escorrer o sangue de inocentes, alimenta a formação de milícias, políticos e policiais corruptos. Ela também ameaça a democracia, pois não respeita as garantias de direitos individuais nas comunidades em que mantém sobre vigilância. A política mentirosa da pacificação mantém o controle de comunidades, impedindo o legítimo confronto com a desigualdade.

Talvez o inconsciente do nosso aparelho repressor deseje a extinção das populações periféricas. A violência e o absurdo do caso da bala do confronto achar uma criança que ainda não tinha nascido pode denunciar a sentença do Conde D’Eu de um desejo inconsciente no controle do inimigo que ainda virá.

Vivemos numa sociedade muito enferma.

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desenho: Latuff, porque as vezes um desenho fala mais do que uma tese.

 

Um comentário em “NÃO QUEREMOS VER OS MOTIVOS DA GUERRA ÀS DROGAS

  1. A operação policial contra o pequeno tráfico nas comunidades tem um viés macabro. É genocídio patrocinado pelos governos. Discutir a descriminalização das drogas não interessa. Por outro lado os EUA mantêm um poderoso exército na selva latino-americana, com a desculpa de combater o tráfico, enquanto as ventas gulosas dos seus neocons cidadãos aspiram toneladas de pó. É um jogo de ganha-ganha-ganha: alimenta a indústria de armamento, treina os seus soldadinhos na selva e se instalam nesse poderoso manancial de riqueza que é a amazônia ampla. Li notícia hoje sobre a venda controlada de maconha nas farmácias do Uruguai. É claro, sei q o Brasil é muito grande. Mas estamos atrasadíssimos em discutir a matéria. Não há o mínimo interesse.

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