AVIÕES DE CARREIRA, HELICÓPTEROS, TECO-TECOS E CALDO MÁGICO

fazendaitamarati

A revolta dos antiproibicionista, entre os quais me incluo, em relação às drogas tem seu argumento mais marcante na evidência de que a guerra às drogas mata muito mais que o seu uso. O equivocado combate às drogas, numa guerra absurda, mata pequenos traficantes e sua milícia armada para a defesa de seu território, usuários, policiais e moradores das comunidades onde ela é travada. E, nessas batalhas, se chefe do tráfico é morto, chefe é reposto para uma guerra sem fim. Não se avança para um real combate ao grande traficante, que adquire enorme poder com sua mercadoria no mundo capitalista.

Só o antiproibicionismo poderia quebrar as relações de poder inerentes às vantagens da proibição no capitalismo. Al Capone foi o exemplo de quando o álcool teve que deixar de ser proibido para acabar o império do contrabando da ilegalidade. Foi pego por sonegação de impostos, não por fabricação e distribuição do álcool ilegal.

Entre várias evidências de que o combate sistemático como vem sendo feito é equivocado, vamos tentar exemplificar aqui contra quem – na cadeia de produção, transporte, venda e consumo – esta guerra é travada.

Servir-me-ei (acompanhe o raciocínio usando as mãozinhas com mesóclise) aqui de um recurso que uso em palestras que faço sobre o assunto. Imaginemos por um momento que a cerveja e o tabaco fossem drogas ilícitas. Teríamos a AMBEV e a Sousa Cruz como fabricantes; os distribuidores e depósitos, e seus caminhões e aviões usados pelos distribuidores; os bares e quitandas na comunidade e seus fregueses. Dá pra perceber que a polícia estaria travando uma guerra sem tréguas contra os consumidores, quitandeiros e donos de botequins que vendem a cerveja e o cigarro. Em poucas operações a polícia apreenderia um caminhão de cervejas ou um monomotor com cigarros. E, certamente, os motoristas e pilotos negariam saber quais os distribuidores para quem trabalham e muito menos onde fica a AMBEV ou a Sousa Cruz. E as investigações não avançariam, não é verdade?

Paremos a comparação por aqui porque não sabemos as ligações que os distribuidores legais e os donos destas empresas têm com os representantes de nossas instituições. Mas os distribuidores e fabricantes das drogas ilegais parecem ter, já que as investigações sobre aeronaves apreendidas com drogas ilegais não avançam e parecem travadas por desejos muito poderosos.

É impressionante que aeronaves abarrotadas de cocaína sejam apreendidas e que as investigações não consigam esclarecer de onde decolaram, para quem levavam a droga, de quem era o avião. Se se identifica de quem era a aeronave, não se consegue saber por que ela estava sendo usada por traficantes e quem são estes. Num caso, só o piloto foi preso e já foi solto. O helicóptero era de um político conhecido, amigo de um ex-candidato a presidente e não se fala mais nisso. Se pousaram ou decolaram da fazenda de um político ou empresário, a investigação nunca esclarece qual a relação dos donos da fazenda com o tráfico de drogas. Num caso recente, mesmo o piloto dizendo que decolou de uma fazenda de um ministro de estado, a investigação diz que o GPS da aeronave prova que ela veio direto da Bolívia. Também não se investiga se um Teco-Teco tem autonomia de voo para cruzar quase duas vezes a distância Rio-Brasília. Outro dia um avião apreendido com drogas partiu de uma fazenda de outro ministro de estado e o assunto já foi esquecido.

Enquanto isso a guerra acontece nas comunidades onde a droga é vendida a varejo. Nem se identifica quem faz a entrega, muito menos de onde vem. Não tem refinaria de cocaína nem se planta maconha na favela. Raramente é apreendido um transportador da droga sem se avançar na investigação.

Como se alguns dos caminhões e aviões do nosso exemplo fossem apreendidos com cigarros e cervejas, mas nunca chegaríamos aos distribuidores de cigarros ou bebidas, quando mais aos fabricantes.

Nesse ínterim, a guerra sem tréguas ao dono da venda mata violentamente quitandeiros e seus comparsas, soldados da polícia, consumidores e moradores da comunidade que não participam do comercio ilegal, mas residem onde se trava o combate. Não é estranho? Lembrando que no nosso exemplo, o quitandeiro morto poderia logo ser substituído, como acontece na vida real com o dono da boca. E ele iria se armar com um verdadeiro exército miliciano, como acontece com os traficantes das comunidades, para defenderem seus negócios numa guerra que nunca vai ter fim.

Porque os aviões, teco-tecos e helicópteros que não são apreendidos continuam a fornecer a droga, um caldo mágico para uma guerra sem fim. Pois não se atacam os grandes distribuidores e fabricantes protegidos por santos milagrosos que não são investigados para que saibamos o nome do santo que faz o milagre.

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desenho: Dino Alves

 

 

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