COMUNIDADES TERAPÊUTICAS?

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Foi em plena Guerra Civil Espanhola que François Tosquelles usou o termo Comunidade Terapêutica para tratamento psiquiátrico na frente sul do Exército Republicano de resistência. Depois da vitória de Franco, Tosquelle foge para a França. Em plena Segunda Guerra Mundial, na França ocupada, acontece em Saint Alban uma fantástica experiência de questionamento das práticas psiquiátricas. No período da ocupação nazifascista, Saint Alban se afirmou como um local de acolhimento e passagem, na convivência de loucos, artistas, intelectuais, fugitivos e refugiados. Foi uma experiência psicoterápica, clínica e também – inevitavelmente – política, nas trocas que aconteciam na sua Comunidade Terapêutica. Essa experiência foi posteriormente estudada como Psicoterapia Institucional, movimento que primeiro questionou o manicômio como produto da psiquiatria. A experiência de François Tosquelles nos é muito cara por ser inaugural no movimento futuro que se intitularia Reforma Psiquiátrica. Como não vou ter tempo aqui, recomendo aos amigos que revejam Tosquelles para entender que o movimento de Reforma pode ser também um movimento de resistência política. Os tempos em que vivemos exigem isso de nós.

Mais tarde, depois da segunda guerra mundial, Maxwell Jones desenvolve um método, para tratar neuróticos de guerra, baseado em encenações dramáticas, práticas educativas e discussões em grupo. Esse método desenvolvido na Inglaterra é batizado de Comunidade Terapêutica, já em quase nada lembrando as práticas heroicas da guerra e, de fato, se apropriou do termo como se fosse original.

Na década de sessenta do século passado, o método de Maxwell Jones é desviado para tratamento de “dependentes químicos” e o que restou apenas das práticas educativas são transformadas em “penitências” religiosas ou em “laborterapia” como pilar da “cura”, que tem na humilhação e culpa a possibilidade de mudança do sujeito. Os métodos de Minnesota  e de Synanon estão entre esses polos.

Entre nós, as Comunidades Terapêuticas nasceram nas zonas rurais ou nas periferias das cidades em sítios ou fazendas com modelos “terapêuticos” heterodoxos, que vão da sedação química em larga escala às práticas laborais de castigos e penitências, com o substrato comum da “cura religiosa” em nome de Jesus.

A internação compulsória defendida pela a opção de tratar do território urbano e não das pessoas vai fazer crescer essa forma de recolhimento prisional e pode ocupar o lugar do manicômio, que o sucesso da Reforma Psiquiátrica mostrou ser desnecessário. Quase todas as autoridades sanitárias atuais insistem nesse modelo, embora já tenha sido demostrado em exaustão a sua ineficiência e as marcas da maldade que deixam nos internos forçados. Alguns, muito poucos, sucessos são alardeados como um milagre possível, o que de fato deve ser, já que os métodos utilizados não podem ser classificados pela ciência ou saberes sobre a loucura.

De minha parte, sempre defendi que a saúde mental não competisse com o poder de cura de Jesus. Acho essa missão uma atividade religiosa de fé, contra a qual não me acho em competência de concorrer. E que os pastores e representas de Deus na terra se encarreguem de exercer sua atividade teológica e cristã na pregação da Palavra para salvar almas perdidas. Tirem o terapêutico do nome. Nada a ver com a minha atividade de trabalhador em saúde mental. Portanto, defendo que elas existam, mas condeno que nos misturemos a elas para juntar os saberes da fé com os saberes da ciência, que como água e óleo não se misturam.

E nessa minha crença, ainda penso que a “penitência” deva ser voluntária, pois de forma involuntária é tortura. E, dentre a separação de campos de trabalho, não posso aceitar que os religiosos recebam financiamento do SUS, já tão pobre para manter seus compromissos com a saúde pública. Defendo que elas funcionem com a subvenção religiosa do dízimo, em que deve se basear a obra de Deus na terra. Voluntário também.

Portanto, acho que o maior erro das autoridades em saúde mental, ainda no governo passado, foi a aproximação e a tentativa de um trabalho conjunto com as chamadas “Comunidade Terapêuticas” de cunho religioso, o que as legitimou enquanto equipamento de saúde. Além do que o nome deforma com violência a proposta de Tosquelles, baseada no acolhimento e passagem de loucos, artistas, intelectuais, fugitivos e refugiados em tempos de guerra e que foi o primeiro movimento para que acontecesse a Reforma Psiquiátrica.

Em tempos de resistência seria bom voltar a Tosquelles. A proposta dele é de uma verdadeira Comunidade Terapêutica, que em nada guarda paralelo com as atuais Comunidades Religiosas Prisionais para tratamento involuntário e subvencionadas absurdamente pelo SUS.

 

4 comentários em “COMUNIDADES TERAPÊUTICAS?

  1. Apoiado! Misturar doutrinação religiosa com tratamento terapêutico, e ainda com dinheiro do SUS é um despautério. Abre-se, como já se abriu perigosamente, um atalho para o fascismo, produto final das aberrações doutrinárias vomitadas pelas igrejas neo-petencostais.

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  2. Perfeito! Fiquei abismada com a presença de um pastor e sua pregação na discussão sobre saúde mental promovida pelo vereador Felipe , líder do PSDB na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, em 21/06/2017.
    Além do que está muito bem colocado acima – saúde mental e religião são misturas explosivas (nada contra a espiritualidade, mas isso é de foro íntimo de cada um), entendo que se abriu um precedente perigoso. Parece que o pastor prefeito e o vereador Felipe pensam que o espaço público municipal é extensão da igreja universal. Não é! Pretendo levar essa questão adiante, pois achei muito sério o precedente que se abriu. Gritei muito no dia e me senti mal depois. Para mim isso foi ainda mais grave do que a desinformação sobre a questão do suicídio.
    “Olho vivo e faro fino”.
    Tania Lóes, médica sanitarista

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  3. Eu, como leiga, moradora de uma cidade como São Paulo, trabalhando perto da Sé, portanto cruzando todo o tempo com a cracolândia que agora se espalhou por todo o centro da cidade, penso, o que pode ser feito em termos práticos, independente do caráter médico ou religioso para amparar essa gente, por exemplo…

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  4. Edmar obrigada por este histórico precioso. Tosquelles era um gênio de sensibilidade clínica incalculável. A escolha religiosa é preciosa, mas a evangelização dos vulneráveis deveria ser comparada ao crime de estelionato. Tortura e estelionato: tudo porque não se pode investir no SUS, tudo em prol de um Estado mínimo. Tenho medo do futuro próximo que nós da saúde mental teremos que segurar.

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