O RIDÍCULO NOS ALIMENTA?

Chega!

Outro dia postei nas redes sociais a notícia em que a Liga das Escolas de Samba ameaçava não desfilar pelo corte de subsídios que a prefeitura sempre forneceu para montar o que ela orgulhosamente chamava de “maior espetáculo da terra”. Uns comentaram que o prefeito estava certo, por ter elegido outras prioridades. Outros, céticos, duvidavam da ameaça e acreditavam num acordo entre a prefeitura e a Liga para a manutenção do espetáculo. Mas não foi uma postagem muito “curtida”, o que quer dizer, no linguajar das redes sociais, que a postagem não fez muito sucesso.

Entretanto, dias após, postei uma montagem em que o prefeito evangélico aparecia vestido de baiana na avenida, com a legenda de que o acordo tinha sido feito na condição do alcaide desfilar na ala das baianas. Tai uma postagem que fez bastante sucesso com várias curtidas e muitos compartilhamentos ajudando a divulgar o “meme” que ridicularizava o prefeito ao mesmo tempo em que a ele nos submetemos, pagando nossos dízimos de cidadãos de bem.

Essa segunda postagem foi feita após ler um texto do filósofo e colunista Vladimir Safatle, intitulado “O cinismo é uma forma de racionalidade”, onde ele critica o cinismo das autoridades a não se importar com a opinião pública e o nosso jogo catártico em ridicularizarmos as autoridades ao mesmo tempo em que nos submetemos a elas.

Conclui o articulista que nossas autoridades não têm medo de um povo que nunca fez qualquer ação de levar os seus políticos corruptos à guilhotina ou invadir os palácios do poder. Como quem diz que ao nosso povo cordado resta a pilhéria enquanto resistência inconsequente.

O meu “teste” foi positivo à tese do filósofo. Temos um prefeito que não disse para o que veio ainda, após quase 180 dias depois de eleito. A sensação é que não temos prefeito e ele viaja para os compromissos com sua seita evangélica e parece ter esquecido que é o alcaide da cidade não mais maravilhosa. Tanto faz. Ridicularizamos o homem e cumprimos nossos deveres como se prefeito tivéssemos.

Uma revista semanal traz hoje uma entrevista com um delator – invenção na nossa cultura que transforma bandido em mocinho – que garante ser o presidente em exercício, e ilegítimo mandatário da nação, o chefe de uma quadrilha de achacadores de empresários. Só esquece de dizer que os empresários concordaram em sobrefaturar serviços prestados ao governo e transformam esse roubo (além do lucro) em propinas que alimenta a corrupção de nossos políticos, juízes e autoridades públicas. A nossa elite nunca abdicou do patrimonialismo. A entrevista escancara o lamaçal em que a nossa vaca, que foi pro brejo, está atolada. O delator chega a afirmar que os membros da quadrilha que ele denuncia que não estão presos, estão no palácio do Planalto. E dá o nome dos bois que fizeram do povo a vaca que foi ao brejo. Sem esquecermos que o delator vende a vaca e os bois. No sentido figurado e literal também.

Não há mais governo, não há mais justiça e o país parece anestesiado com a quadrilha com poder de mando. E não parece haver qualquer força que possa parar os absurdos que acontecem escancarados na nossa cara. Nos contentamos em ridicularizar o mandatário supremo, que cinicamente faz de conta que não é o ladrão denunciado. E a quadrilha governista nos impõe reformas absurdas enquanto rimos de angorás, jucás, padilhas, quadrilhas de loures e assemelhados correndo com uma mala de dinheiro entre os carros.

Continuaremos rindo da nossa desgraça? Fazendo de conta que estamos numa democracia?

É preciso apear esses bandidos do poder. Não tem mais graça nenhuma. Se a gente fica só rindo, eles continuam pilhando a nação na nossa cara.

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desenho: Dino Alves

 

Um comentário em “O RIDÍCULO NOS ALIMENTA?

  1. Tudo muito bem dito Dr. Edmar. Da minha parte, a pena pra desenhar é a minha arma, e creio que a do Grande Cartunista Dino Alves também. A sua arma, velho amigo, também é a a pena. A pena pra escrever. Fico meditando, depois de ler o seu texto: quando teremos a coragem de pegar em fuzis, e não ter pena daqueles que serão atingidos nas batalhas?

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