A MALDADE TATUADA

sou ladrão e vacilão

Mesmo com náuseas, incrédulo com o que é capaz a maldade humana, assisti a dois vídeos na internet sobre a tatuagem absurda que fizeram na testa de um rapaz: “sou ladrão e vacilão”. Um vídeo foi feito pelos próprios torturadores que cometeram este crime hediondo. Um brutamonte tatuador e seu vizinho em maldades. O outro feito por um pregador fascista, louvando a ação inacreditável. Uma reportagem localizou a família do rapaz violentado e revelou que ele faz tratamento psiquiátrico no Centro de Atenção Psicossocial de São Bernardo. O motivo de tamanha violência: o rapaz teria tentado roubar uma bicicleta. Assunto que não foi provado e parece que “não vem ao caso”.

O brutamonte cortou o cabelo do rapaz e o fez dizer que ele mesmo queria a tatuagem porque é um ladrão. O rapaz, notadamente perturbado, franzino e incapaz de se defender aceitou a tatuagem. Um torturador ri, sadicamente, da dor que o garoto irá sentir. O rapaz, quase um menino ainda, não esboça qualquer reação. O tatuador, autor confesso do vídeo, exibe a obra macabra. No outro vídeo, absolutamente inacreditável, um rapaz negro mostra o garoto tatuado e louva a ação dos facínoras – já que não temos justiça, reforça várias vezes. E ainda reclama que os defensores dos direitos humanos irão pedir a punição dos facínoras, que ele considera justiceiros dos homens de bem.

Nauseabundo, tento escrever esse desabafo, mesmo sabendo que tudo que eu possa dizer aqui não traduzirá a revolta e angústia de pertencer ao humano, só ele capaz de tamanha barbárie. Esse ato, que eu e alguns entre nós, temos em conta de uma aberração, é entendido por seus autores e louvado por outros, entre nós humanos, como um justo corretivo na falta da justiça. Não tenho capacidade de compreensão, mesmo acreditando que não devemos estranhar o que pode vir da atitude de um ser humano – capacidade essa, já evidenciada pelo poeta Terêncio há quase duzentos antes da nossa era.

O meu espanto é que a besta que habita o ser humano tem aflorado entre nós, com muita frequência, nos últimos tempos. A besta fera parece solta e sem controle, desde que perdemos as referências na justiça e nas instituições capazes de contê-la. Parece ser um fenômeno desses tristes tempos. E pior, a besta foi acordada por uma mídia manipuladora que ajudou à politização da justiça e a judicialização da política. E a podridão do caráter de nossos homens públicos – também eles dominados pela besta – contaminou o solo pátrio. Já não se tem sentido de nação, de bem comum, de direitos ou deveres. Fomos tomados por um sentimento mesquinho do individualismo capaz de deter todo um processo civilizatório. O terreno foi trabalhado para o surgimento do fascismo. Não é a toa que lideranças apareçam negando a política, o que é uma forma de manifestação da pior feição da direita política. Porque, negando a política, a direita reserva para si todo o espaço existente, impedindo a manifestação de forças que possam detê-la.

O efeito de tudo isso é que se acha natural torturar um adolescente e inscrever na sua testa uma sentença cruel. O jovem adolescente era apenas um indefeso com transtorno mental. E recebeu a crueldade da besta que aflora com facilidade na barbárie, de que só o humano é capaz. Um detalhe para que a ilação que faço com a política não parecer irresponsável. O torturador tatuador pertence a grupos neonazistas e homofóbicos paulistas, conhecidos como skinhead.

O fascismo, antes abominável, parece florescer nos tristes tempos que estamos vivendo. E como um rastilho de pólvora parece procurar a explosão nas nossas representações contaminando a sociedade.

São muitos os representantes do mal. Banaliza-se entre nós.

 

2 comentários em “A MALDADE TATUADA

  1. Mon cher,

    os tempos são de tal ordem bárbaros, que propiciam o aparecimentos de justiceiros. não se esqueças que

    esses skinheads são os que perseguem nordestinos, sem falar nos negros e homossexuais, nesta incivilizada metrópole.

    artigo porreta.

    bsbsbsbs,

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