ÀS FAVAS COM A JUSTIÇA

Gilmar do Milton

Às favas com a Justiça. O país tem um presidente que dele se apossou por um golpe parlamentar. No que o judiciário participou, deixando que os interesses fossem acomodados, sem nem tentar barrar a injustiça do impedimento de uma presidente eleita que não cometeu crime de responsabilidade.

À época, enquanto explicitávamos nossa insatisfação com os rumos tomados na economia pela presidente eleita – por não encontrarmos motivos para o impeachment – temíamos pela ferida constitucional, essa sim, capaz de gerar a hecatombe que estamos vivendo. Porque a letra da constituição é a guardiã da democracia. Uma vez borrada, ela se torna inteligível e tudo passa a ser permitido pela interpretação das letras embaralhadas e arrumadas fora do lugar.

E foi assim.

Lá muito tempo atrás, um inconformado candidato derrotado entrou com um processo de anulação das eleições, o que foi considerado à época “choro dos derrotados”. Como dizia João Saldanha, “quem reclama, já perdeu”! Agora, esse mesmo processo é ressuscitado para se tentar barrar gestos tresloucados de um presidente, que se recusa a sair, mesmo com provas robustas de que é um ladrão, tendo recebido propinas confessas (e confirmadas por ele) para enriquecimento ilícito e manipulação política, entre elas o próprio impeachment da presidente.

E os olhos da nação se voltam para um processo anacrônico, perdido no tempo, com a cabeça de chapa já cassada injustamente, para tentar tirar o usurpador do poder com o mandato já ao fim. A direita está dividida: uns querem a incompetência de Temer fora do poder, para obter respaldo na conclusão de reformas que interessam ao patronato. Outros acham que mesmo com um ladrão impopular no poder é possível concluir as reformas antitrabalhistas. Os primeiros temem que assim elas não tenham legitimidade no futuro, por isso precisam substituir o trapalhão.

A população já não engole o usurpador, por isso alguns das esquerdas aceitam sacrificar a alma de uma presidente já morta para atingir os fins. Outros acham que é demais mexer com o passado para tirar a presença do ladrão. De minha parte, fosse a sério o relatório do ministro Herman Benjamim, aceitaríamos que todas as eleições nesse país deveriam ser anuladas pelo uso do caixa dois. Se impossível de retroagir, serviria de munição para eleições diretas já em todos os níveis.

Entretanto, enquanto muito se discute, o presidente do TSE – responsável por levar a sério a peça do PSDB “apenas para encher o saco do PT” no dizer do Aécio – agora é contra para proteger seu amigo ladrão. Quer dizer, se antes era a favor, agora é contra. Entenderam? Jogou a modéstia às favas para dizer que Benjamim brilha na relatoria porque ele foi responsável por a peça jurídica chegar até aqui. A inveja de Gilmar não explica, no entanto, porque era a favor e agora é contra ao mesmo processo. O que ficou exposto aos holofotes foi a facilidade com que sua excelência joga a justiça às favas para fazer dela a sua vontade momentânea.

Escrevo enquanto suas excelências gastam salivas num processo que já se sabe o placar final. O desempate do ministro Gilmar vai depender para onde ele brilhará mais à luz dos holofotes. Às favas com a justiça e os escrúpulos de magistrados que querem também exercer o poder executivo de uma nação sem rumo.

Tristes tempos!

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desenho: 1000TON

Um comentário em “ÀS FAVAS COM A JUSTIÇA

  1. GILMAR é o que está no desenho. O artigo do Edmar já diz tudo. Como é perfeitamente possível, se já não estamos nele, este “regime de exceção” poderá nos colocar, eu e Edmar numa cela. Tamo junto, camarada!

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