CRACOLÂNDIA E A MISÉRIA HUMANA

Vida sem saida

As folhas destacaram escandalizadas que o irmão de Suzane von Richthofen foi encontrado na Cracolândia, em São Paulo. A moça foi acusada de assassinato dos pais, executados pelo seu namorado e um irmão deste, os irmãos Cravinhos. Crime que chocou o país há 13 anos, quando o irmão de Suzane tinha apenas 15 anos. Andreas von Richotofen, herdeiro da família, teve um tio médico com tutor e formou-se em Farmácia, tendo doutorado em química.

A notícia surpreendente para os noticiadores é que o garoto, hoje com 29 anos, foi pego pulando o muro de uma residência em estado confusional e, reconhecido, foi levado a um hospital de recuperação. Segundo uma revista semanal “Ele estava agitado, desorientado e agressivo e foi atendido pela psiquiatra de plantão. O jovem tentou se jogar da maca quando soube que ficaria internado. De acordo com o jornal “O Globo”, no prontuário, a médica afirmou que Andreas estava sujo, com os cabelos compridos e com as roupas rasgadas, tinha múltiplos ferimentos pelo corpo e seus sintomas eram condizentes com “abuso de substâncias ilícitas”. Andreas estava preocupado com uma medalha dourada em que se lia o sobrenome Richthofen, retirado de sua posse para evitar que ele se ferisse com o objeto”.

Enquanto, nas redes sociais, alguns culpavam as drogas de levarem um rapaz rico e com formação superior a este estado lastimável e outros condenavam os jornais e o médico pelos vazamentos de informações confidenciais do prontuário; de minha parte, procurava entender a perplexidade que o caso dispensou.

Posso afirmar, até por já ter tido contatos com casos semelhantes, que a perplexidade primeira e as matérias jornalísticas que evidenciavam o caráter surpreendente do acontecimento, em uma narrativa incomum do incompreensível, têm como lastro o preconceito de classe. Como se se perguntassem: “como é possível que um de nós se deixasse envolver por uma situação comum aos pobres e pretos da periferia”! E a justificativa do fato insólito só pode ser atribuída às drogas e/ou a loucura. Porque os habitantes das cracolândias já são desumanizados para que se aceite que eles sejam tratados pior do que animais. Não era o caso do garoto Andreas.

Outros ainda conseguem ver que o trauma do rapaz, pelo que sua irmã fez à sua família, deixou-o vulnerável às drogas e elas se encarregaram de destruir sua semelhança de classe e por isso acreditam na sua recuperação diferenciada. São os mesmo que não acreditam na recuperação diferenciada dos cracudos, como tentava fazer o Programa De Braços Abertos, do governo anterior. E quem lhes parece próximo – tão somente pelo “parentesco” de classe – merece uma tentativa individualizada e humanizada, não os que estão desumanizados na cracolândia. Daí a urgência do tratamento a que o rapaz foi submetido com o alarde da imprensa. Talvez o vazamento das informações confidenciais do prontuário de Andreas teve a intenção de justificar porque um igual foi desvirtuado do caminho do bem. Só a loucura e/ou as drogas são capazes dessa proeza, no entendimento do senso comum e das teorias apressadas.

Os pretos e pobres da periferia que chegaram à cracolândia podem ser internados como bois que vão ao matadouro. Como o prefeito quer fazer e tem o apoio, com interesses especulativos, da classe dominante e também da classe média formadora de opinião e cão de guarda da classe dominante. E que ficaram penalizadas com o caso de Andreas.

Essa narrativa se baseia no senso comum e nas teorias apressadas para explicar o fenômeno complexo. Andreas brigou por sua medalhinha com o nome da família porque ela, para ele, talvez seja a tradução de sua miséria. Andreas só vai confirmar aquilo que defendemos para todos os habitantes do fluxo de usuários de drogas a que chamam cracolândia. Lá eles têm companheiros de infortúnios dos que foram degradados pela miséria humana. Foi a situação de miséria humana – pelo abandono, pela falta de oportunidades, por tragédias familiares – que levou aquelas pessoas às drogas. E não o contrário como quer o senso comum e as teorias apressadas.

Talvez Andreas ajude aos resistentes a entenderem um pouco do que se passa no fenômeno das cracolândias. A miséria humana – que pode acometer qualquer um de nós – enlaça aquelas pessoas como companheiros de infortúnio. A droga, apenas uma porta sem saída para uma fuga ilusória da realidade. A intervenção consequente busca encontrar portas que tenham uma saída real e só aí a porta da ilusão pode ser fechada. Por isso o trabalho é árduo, complexo, individual e vagaroso quando nos valemos da Redução de Danos para tentar ajudar aquelas pessoas.

Talvez o Andreas tenha uma atenção assim e ele consiga sair do buraco em que a miséria humana o prendeu. Espero. E talvez a situação dele possa fazer as pessoas entenderem que o fenômeno das “cracolândias” não pode ser acabado como caso de polícia, mas atenção à saúde pública e assistência social – nunca usadas para resolver intervenção urbana.

Mas para isso é necessário, primeiramente, aceitar que os habitantes das chamadas cracolândias são seres humanos atingidos pela miséria – da qual só os humanos são acometidos.

_______________________________

foto: https://www.tumblr.com/tagged/vida-sem-saida

 

2 comentários em “CRACOLÂNDIA E A MISÉRIA HUMANA

  1. Rapazes que assassinaram o índio Galdino, ateando fogo ao seu corpo, Thor, filho do Eyke Batista, que matou um ciclista a 150 p/hora, estão levando uma vida normal. Assim como muitos outros mauricinhos filhinhos de papai, os intocáveis, como tantos e tantos políticos canalhas também. Os cracudos pobres, pretos, feios, fedidos, desdentados, os paus de arara, invasores dessa nossa bela pauliceia, que se phodam! Isso não é gente, é lixo, DORIA A QUEM DOER?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s