CRACOLÂNDIA: ATO LEVIANO E IRRESPONSÁVEL

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Falo por testemunho.

Corria o ano de 10 ou 11 passado, quando o Rio recebeu recursos da união para acabar com as cracolândias daqui, em especial algumas famosas ao longo da avenida Brasil (retornando agora). Montou-se uma fabulosa operação “cata-cracudo”, com internações compulsórias nas famosas comunidades religiosas prisionais. Foi para as páginas policiais um abrigo religioso na zona oeste, com convênio com a prefeitura, para onde eram levados os recolhidos. Tinha até uma boca de fumo próxima para fornecimento ao abrigo. Um parêntese: pouco depois, o secretário de ação social de então caiu em desgraça por receber propinas do pastor que dirigia tal abrigo. Era cotado para ser sucessor do menino Dudu na prefeitura, mas pela desgraça de frequentar as páginas policiais dos jornais foi esquecido. E pela sorte dele, que fez fortuna traficando infortúnios, já foi esquecido pela nossa curta memória. Fecha o parêntese. Inauguraram-se clínicas da prefeitura para a triagem dos capturados e todos os abrigos existentes foram colocados à disposição do recolhimento comandado pelo próprio secretário, que dirigia a caçada “para o bem dos recolhidos”, enquanto botava a grana no bolso pela renovação de contratos sem licitação. Situação de emergência que o derrubou.

Nessa época, eu fazia matriciamento (espécie de formação em serviço, por especialistas, às equipes de saúde da família) na comunidade de Manguinhos, no subúrbio desvalido do Rio. E o nosso Consultório na Rua (que cuida das pessoas com problemas de abuso de substâncias psicoativas ou que vivem em cenas de uso na comunidade) estava às voltas com um caso bastante difícil. Nosso paciente praticamente vivia em uma cena de uso (conhecidas como cracolândias) do Jacarezinho e estava querendo aderir ao tratamento. Procurou a equipe com o desejo de um abrigamento para se afastar da cracolândia. Chegar a esse ponto era um desafio para nós, que sabíamos que o não atendimento do seu desejo momentâneo poderia fazê-lo voltar para a cena de uso e desistir da decisão em que fora ajudado pelo trabalho da equipe. Quem trabalha com tal desafio sabe que pode perder todo o trabalho cansativo de abordagem de rua e, pior, perder o paciente também. Às vezes uma situação limite faz aflorar o desejo da mudança, mas é preciso aproveitar a situação.

Passamos o dia procurando vagas em abrigos da prefeitura e todos estavam lotados, na informação que nos era repassada, mormente àquele momento de abertura de vagas extas em abrigos. Era estranho, sempre conseguíamos uma vaga aqui e ali, não eram tantos os encaminhamentos que fazíamos. A chegada do anoitecer começou a nos desesperar. Precisávamos, nós e o paciente, desesperadamente daquela vaga, para tentar mudar aquela vida – quando a unidade (um sujeito) para nós é o todo.

No nosso desespero conseguimos que uma diretora de abrigo público abrisse o jogo. Vaga tinha. O problema, explicou ela, era que – por determinação do secretário – todas as vagas estavam “reservadas” para a operação de recolhimento.

Ou seja, a vaga não era para quem queria se tratar. Era para internar os que não queriam. Constatávamos ali, diante daquela situação kafkaniana, que a operação – dita para acolher os usuários – tinha, tão somente, o objetivo de escondê-los das vistas das gentes.

Portanto, não creiam nas autoridades de uma assistência social que é usada para manter a ordem pública e se confunde com a secretaria de urbanismo. Eles mentem descaradamente.

Recentemente, a maior “autoridade” de Assistência Social do país publicou nas redes sociais a imagem de um incêndio de 2005, na sede do INSS em Brasília, como se fosse a ação de baderneiros nos prédios da esplanada na grande marcha de 24 passado. Usou de má fé e da mentira a que estão acostumados para enfrentar situações complexas. A nota de repúdio[1] dos servidores do Ministério é dura:

“O que se cobra de todo servidor público é a responsabilidade por seus atos, pois atuamos em nome do Estado. Consideramos que o ato do Ministro Osmar Terra foi leviano e irresponsável. Sua fala, eivada de ódio, atenta contra os movimentos sociais e promove a injúria (grifado no original). Além disso, a publicação de uma foto fraudulenta para sustentar uma posição pessoal é incompatível com a posição de uma personagem que é responsável pela representação máxima desse ministério, que sai desmoralizado da situação”.

Há muitos anos o Movimento pela Reforma Psiquiátrica mantém um embate com o deputado Osmar Terra, psiquiatra antirreformista, defensor das comunidades religiosas e adversário da política de Redução de Danos, que adotamos com sucesso reconhecido internacionalmente.

Momentaneamente o proibicionismo que ele defende e o encarceramento de usuários com internações involuntárias vêm se firmando como politica pública neste conservadorismo atual e o retorno a políticas do início do século XX (problema social como caso de polícia), mesmo com condenação internacional.

Se no nosso campo o uso da foto real da miséria humana é suficiente para sustentar as inverdades; para a condenação dos movimentos sociais o uso de uma foto falsa foi denunciado como ato leviano e irresponsável.

Na guerra às drogas, a “grande internação” promovida como desenvolvimento social e de saúde pública – como tenta se repetir em São Paulo pelo prefeito Dória – é um ato leviano e irresponsável de usar as secretarias de saúde e assistência social para executar, tão somente, uma intervenção urbana para a especulação imobiliária.

 

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[1] Nota de repúdio, dos servidores do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (porque agora ele cuida dos conflitos do campo também recolhendo os invasores – quando não são mortos – das grandes propriedades improdutivas), assinada pela Associação de Carreira de Desenvolvimento de Política Sociais (ANDEPS) e pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais (SINDISEP-DF).

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desenho: Laerte, que resume esse artigo de forma didática e conclusiva.

2 comentários em “CRACOLÂNDIA: ATO LEVIANO E IRRESPONSÁVEL

  1. Edmar: é confortável, é reassegurante (se existe esta palavra; se não, roseanamente a batizo) poder confiar que vc está em algum lugar deste país pensando e escrevendo. Dando voz às nossas angustias, memórias e preocupações. Fazendo de nossa revolta um instrumento de luta. Te agradeço. Te admiro. Te respeito. E tenho saudades. Obrigada mesmo, querido. Bjão
    Mariaq Grauna das Mercês ( como me batizou João- o das Broncas).

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