UMA OPERAÇÃO DE GUERRA CONTRA DESVALIDOS DA SOCIEDADE

 

A loucura assiste a invasão como sendo um filme de guerra. Mas a guerra era real.

CRACOLANDIA

 

As manifestações de comemoração do 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, foram ofuscadas pelo anúncio da queda do governo Temer, na véspera, que se recusou a sair. No dia mesmo as revelações de gravações levaram o povo à Cinelândia, sinônimo de protesto popular. Como de costume, no Rio de Janeiro, a polícia dispersou a multidão a tiros de balas de gás lacrimogênio, de borracha e cassetetes. E o movimento da Luta, que há alguns anos também comemora naquele local, apanhou numa briga que não era a sua, apenas simpatizava com ela porque sabe que não existe Reforma Psiquiátrica sem democracia.

No domingo seguinte, aproveitando-se da Virada Cultural Paulista, o prefeito de São Paulo promoveu uma verdadeira guerra à chamada Cracolândia no centro da capital. Às cinco horas da manhã de um domingo chuvoso, o território de fluxo de usuários de crack, na região da Estação da Luz, foi cercado por uma gigantesca operação policial fortemente armada. E os policiais avançaram em formação contra o “inimigo”: miseráveis, usuários de drogas, a pobreza desamparada, sobrantes de uma sociedade que lhes tira todo o espaço possível.

Há vídeos onde se pode ver o absurdo da operação: a tropa avança atirando e destruindo tudo o que tem pela frente. Enquanto os desvalidos são acordados com gás lacrimogênio e balas de borracha, a tropa avança destruindo barracas improvisadas, confiscando os parcos pertences de uma gente que não tem nada, enquanto uma retroescavadeira demolia construções que eram usadas como hotéis populares.

De repente o território virou uma praça de guerra, como se uma artilharia de caças tivesse bombardeado aquela parte da cidade. O “inimigo” não esboçava qualquer resistência. E, mesmo assim, era enxotado aos gritos de policiais e a porradas de cassetetes como se fosse uma matilha de cães selvagens, bichos que não seriam humanos. Uma cena lastimável, desnecessária, cruel e covarde promovida pelo poder de polícia do Estado contra criaturas que merecem, no mínimo, a proteção social deste mesmo Estado. O Estado tratou o território em era desenvolvido um programa de saúde, no governo anterior, como caso de polícia – relembrando governos do princípio do século XX, ou talvez reafirmando que tenhamos retornado ao século XIX.

Desnecessário dizer que o Programa de Braços Abertos era uma efetiva ação de saúde pública, baseado em técnicas reconhecidas mundialmente como Redução de Danos e aprovado e premiado pela Organização Mundial de Saúde. O governo Dória destrói deliberadamente o território onde o programa era desenvolvido e ainda deu entrevista prometendo que a “Cracolândia” não mais existirá em seu governo. Anunciou a falsa prisão de uma centena de traficantes (meros usuários que vendem para sustentar o vício) e declarou que encaminhará os usuários para Comunidades Religiosas Prisionais, cujos métodos já foram avaliados como não tendo qualquer efetividade na recuperação de pessoas com uso abusivo de drogas e, quase sempre, cometem graves violações aos direitos humanos.

Mais um programa efetivo do SUS é desmontado. Aqui, com o agravante de ter seus usuários tratados como problema de polícia, tendo a operação promovido uma “limpeza étnica” fascista, violenta e de uma crueldade sem paralelos na história recente. Para o deleite de conservadores paulistas e admiração política de um governo de direita que almeja a presidência da República. Se ainda restar a República nesse redemoinho político que vivemos.

O campo da Luta Antimanicomial tem que abraçar a luta para o retorno da democracia no país. A Reforma Psiquiátrica não existe sem a democracia.

 

3 comentários em “UMA OPERAÇÃO DE GUERRA CONTRA DESVALIDOS DA SOCIEDADE

  1. Concordo plenamente, Edmar. Vamos continuar juntos para fatos como este não venha se repetir. Já fizemos antes, com sucesso. A luta deve continuar. Abraços.

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