SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR…

Dino

Tive a maior paciência de ficar acordado, madrugada a dentro, assistindo o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro da Lava Jato. O mais surpreendente é que as acusações não se sustentam. Não há uma peça da acusação que prove a tese de uma corrupção explícita. Foram colocadas várias acusações de delatores que foram desmontadas, uma por uma, pelo interrogado. E nós sabemos da promiscuidade dos governos do PT com as empreiteiras, o caixa dois, as propinas, essa prática inadmissível que sempre foi praticada pelos governos brasileiros e que contaminou o partido de esquerda no poder, a ponto de desfigurá-lo.

Do ponto de vista da esquerda, o crime de Lula e do seu partido é político. Não está inscrito no código penal. Imperdoável a direção do partido ter abandonado os núcleos de base para privilegiar um cúpula que decidiu fazer da agremiação partidária – que prometia um modo novo de fazer política – uma legenda igual as demais que o PT tanto criticava. Estarrecedor o privilégio de alianças com o inimigo que, quando pode, apeou o PT do poder e luta para seu aniquilamento e ao de Lula. Ali Babá não conseguiu prender os ladrões, apenas tornou-se um deles. A política de conciliação de classes mostrou-se, como era previsível, inviável. A esquerda no poder foi apunhalada por dormir junto com o inimigo. É da natureza dele.

Mas não podemos concordar com a politização da justiça em achar crime nos petistas, no que tolera perfeitamente nos outros partidos. A promiscuidade que aponta para um apartamento em Paris ou uma fazenda em Mato Grosso é tolerada, enquanto a mesma promiscuidade é condenada judicialmente quando apontada para um apartamento no Guarujá ou um sítio em Atibaia. A compra de deputados com propina – que a esquerda deve condenar politicamente com vigor – não é tão igual, juridicamente, do que a compra de deputados para um presidente conseguir um segundo mandato? Só pode ser diferenciada quando a justiça se transforma num partido político.

Mas seria natural – entendo assim – que a esquerda fosse condenada com a prática. Só que com provas robustas e não com ilações políticas, porque isso desmoraliza a justiça.

O que se assistiu no depoimento de Lula foi um juiz fraco, tecnicamente tosco, despreparado para a missão de que foi imbuído. Do outro lado um réu loquaz, convencido de que o juiz não apresentaria provas convincentes, destruía as acusações, ao mesmo tempo em que fazia do inquérito uma tribuna em que discursou à vontade, com a propriedade de convencer a si próprio e a assistência, enquanto o juiz diminuía de tamanho a cada pergunta que fazia. Os que torciam pelo juizinho só tiveram uma acusação a fazer ao ex-presidente – como ficou estampado nas páginas dos jornais: usou a esposa morta para esconder o que sabia. Ora, o brilhante orador que Lula inegavelmente é, quando se referiu à esposa, o fez de forma jocosa, brincalhona, humilhando os argumentos da acusação, como no caso da sapataria (“se minha mulher experimenta 30 sapatos e não comprou nenhum, o sapato não é dela” – com relação às visitas que Marisa fez ao apartamento no Guarujá). E, nas considerações finais de que tinha direito, usou o tempo como se tivesse em um palanque, não tendo o juiz capacidade – embora tentasse – para parar o discurso e o raciocínio do orador.

O que restou do encontro de Curitiba foi o fortalecimento do mito. Vários ônibus de todos os cantos do país invadiram Curitiba para levar o réu nos braços, enquanto o juiz se escondia. Alguns gatos pingados vestidos de amarelo, com um boneco de Lula feito prisioneiro, ficaram dispersos no Museu do Olho, sintomaticamente sem ninguém olhar. Depois do depoimento, Lula ainda discursou em praça pública, como tinha feito no tribunal.

É claro que ele pode ser preso, já que as convicções substituíram as provas numa justiça partidarizada. Mas aí o mito já está consolidado. Vai crescer ainda mais.

Estamos numa situação complicada. Se deixarem ter eleições e Lula puder concorrer, a vitória é inevitável – dizem os institutos de pesquisa. Para a direita pode atrasar a velocidade do seu projeto neoliberal, nem acreditamos que Lula seja capaz de reverter as contrarreformas. Para a esquerda voltamos ao patamar anterior, sem Lula ter feito qualquer autocrítica, atrasando um efetivo avanço da esquerda.

Mas sem o lulismo, a construção da direita é amorfa (Dória, Hulk) e a esquerda está ofuscada pelo mito.

E agora, José?

 

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desemho: Dino Alves

 

Um comentário em “SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR…

  1. Concordo plenamente com o artigo. O tamanho do Lula é tão grande que o juizeco ficou miúdo. Virou miúdo de porco, que o Luiz Inácio traçou numa belo angu à baiana. Querem pegar o “molusco”, mas ele escorrega. Querem acabar com a corrupção ? dallagnóis-meninos-escrotos? Então apresentem provas e não ilações! Querem prender corruptos? então acordem! e não finjam mais não enxergar os tunganos e quadrilhas afins.

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