ARCO DA PROPINA: ROUBARAM O MARACANÃ, MINHA CASA E A VIDA DELES.

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Há evidências de que toda a fortuna roubada dos cofres públicos do Rio de Janeiro, pela quadrilha comandada pelo ex-governador Sérgio Cabral, preso em Bangu, foi desviada prioritariamente de três grandes obras acontecidas no seu governo: Arco Metropolitano, Reforma do Maracanã e obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – com destaque para o programa “Minha Casa, Minha Vida” – todos financiados com recursos federais, executados pelas empreiteiras enlameadas em corrupção investigadas na Operação Lava Jato.

Comentarei duas delas. Uma por notoriedade e a outra por conhecimento do seu desenvolvimento numa comunidade que atuei, conhecendo as histórias contadas pelas bocas de seus moradores. A terceira, apenas contornarei.

A notória foi a absolutamente desnecessária reforma do Maracanã. O “maior do mundo” deixou de sê-lo por uma imitação em conforto e demarcação de lugares, que trouxe uma cultura europeia difícil de implantação por aqui. Confesso que tenho saudade do meu Maracanã de cimento, com os geraldinos pagando pouco e em pé, com um fosso que lhes permitiam xingar o adversário e a mãe do juiz a pleno pulmões pela impossibilidade do contato.

E no quebra-quebra para refazer outro estádio, com tantos aditivos fossem possíveis para o roubo do erário público, demoliu-se a maior cúpula de concreto do mundo, sem colunas de sustentação. Essa maravilha da arquitetura de 1950 foi posta abaixo para colocação de um toldo cuja sustentação foi arquitetada nas propinas do dinheiro público que enriqueceu a quadrilha e os empreiteiros e ajudaram na falência do Estado do Rio de Janeiro. Nem se deram ao trabalho de fazer um estádio novo, como em São Paulo, para roubarem. Destruíram o símbolo maior do nosso futebol. Pena que ele não estava tombado como o Centenário de Montevideo. Destruíram o Maracanã e ainda o privatizaram. Tudo com o interesse maior do enriquecimento de políticos inescrupulosos e empreiteiros gananciosos. Nos roubaram destruindo um dos maiores símbolos do Rio de Janeiro.

Em Manguinhos assisti à construção pelo PAC dos blocos de apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Na aparência de um barracão de obra em alvenaria com dois a três pavimentos, pequenos cubículos com porta e janela dando a uma varanda comum, onde acontecem diariamente o desentendimento de vizinhos. Os apartamentos, de pouco mais de quarenta metros quadrados, têm uma saleta com porta e janela para a varanda comum, dois quartinhos micros que não comportam uma cama grande e uma cozinha de metro e meio quadrado. Sem falar que o material utilizado é de péssima qualidade, ouvindo-se o vizinho como se ele estivesse dentro do seu apartamento. Certo de que a arquitetura desses cubículos deve justificar o superfaturamento, que não foi fiscalizado por quem devia, e encontrou os bolsos dos ladrões dentro de suas enormes mansões. Não foram poucas as famílias que queriam de volta o lugar de onde foram desalojados para esta “maravilha” moderna. E ainda havia os atravessadores que “vendiam” o sorteio dessas péssimas unidades habitacionais.

Vizinho ao “Minha Casa…” de Manguinhos existe o Conjunto Habitacional dos Ex-Combatentes erguido na década de 50, no Governo Vargas, para abrigar os pracinhas que foram à guerra. O Lacerda, governador da Guanabara naquela época, removeu várias favelas da zona sul e Maracanã para Manguinhos, determinando ali o território dos excluídos, talvez para contrariar Vargas. Mas o conjunto dos Ex- Combatentes resiste: fachada simples, escada em mármore e apartamentos de dois a três quartos amplos e arejados, que não ficam a dever às construções das moradias de classe média. Contrastam absurdamente aos cubículos da modernidade.

O Arco Metropolitano ainda não tive a oportunidade de conhecer. Trata-se de uma obra necessária para o transporte de caminhões contornar a cidade sem lhe trazer o pesado trânsito. Apenas desconfio que o contorno deu muitas voltas para desviar não os caminhões, mas o dinheiro público que podia ser aplicado nos serviços essenciais e foi desaguar nos bolsos da quadrilha de Sérgio Cabral.

O estado foi depenado pela quadrilha, mas essas três obras representam ícones do assalto aos cofres públicos no Rio de Janeiro. Nem falamos aqui da prefeitura e a construção do bonito centro histórico para a falência da cidade.

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desenho: Latuff

Um comentário em “ARCO DA PROPINA: ROUBARAM O MARACANÃ, MINHA CASA E A VIDA DELES.

  1. Sim, o verdadeiro Maracanã – esse que o filhodaputa do Cabral descaracterizou – eu não pus os meus pés lá, e nem porei, perdeu toda a sua pujança. O antigo Maraca, realmente, possuía uma estrutura bastante arrojada para a época e mais, ficava aparente para mostrar para o público o seu gigantismo. Cada braço em concreto armado que sustentava as arquibancadas, sustentava também as marquises, numa continuidade muito bela de amarração estrutural. Ora, chegam uns imbecis de ocasião e escondem toda essa maravilha, e mais, transfiguraram completamente um templo do futebol que recebia o povão de braços abertos, assim como a estátua do cristo. Hoje, o torcedor humilde ficou de fora. Congratulo-me com o inspirado e transpirado artigo do Edmar Oliveira. No texto dá pra sentir o suor dos esquecidos.

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